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Gênova tenta recuperar passado glorioso após tragédia da ponte

Chiara Albanese

19/02/2019 15h45

(Bloomberg) -- Agora não daria para perceber, mas a decaída, fraca e desmoralizada Gênova era a cidade mais rica do mundo há apenas 700 anos.

A frota comercial e a poderosa marinha de Gênova dominaram o Mediterrâneo por mais de 100 anos e a cidade-estado independente tinha seu próprio império, que se estendia da Síria à Crimeia. Seus mercadores e banqueiros ajudaram a financiar os vastos palácios e outros tesouros arquitetônicos que levaram os orgulhosos habitantes a chamar a cidade de "a Soberba".

Atualmente, tudo é um pouco menos soberbo. A população de Gênova está envelhecendo e diminuindo -- ela é agora apenas a sexta maior cidade da Itália. Os empregos são escassos e os volumes de carga que passam pelo seu porto histórico são só uma fração do que os europeus do Norte recebem. O Banca Carige, o maior banco da cidade, está sob administração do Banco Central Europeu.

Para muitos, o desastre da ponte Morandi no último verão europeu parecia ser apenas mais um capítulo do triste declínio da outrora grande cidade. Mas o prefeito Marco Bucci viu as coisas de maneira diferente.

No dia 14 de agosto, poucos minutos depois do colapso da ponte, que matou 43 pessoas e dividiu a cidade pela metade, o prefeito de 59 anos estava em um modo de crise, reunindo líderes cívicos e planejando o ressurgimento da cidade.

Após a tragédia, o prefeito concluiu que, se o governo municipal "jogasse suas cartas corretamente, a cidade poderia se tornar ainda maior, esse momento seria o início do ressurgimento de Gênova".

Apesar de sua cidade estar de luto, Bucci aproveitou a oportunidade.

Ressurgimento

Primeiro passo: a ponte Morandi, saudada como um triunfo da engenharia moderna em sua inauguração em 1967, seria reconstruída em tempo recorde e por um dos cidadãos mais famosos de Gênova, o arquiteto Renzo Piano.

Segundo passo: o prefeito usaria a solidariedade nacional com a cidade afetada para liberar fundos para trabalhos de infraestrutura planejadas há muito tempo, engavetadas pela burocracia há anos. Com estradas reformadas, conexões ferroviárias e melhorias nos portos, Gênova retornaria ao seu auge como potência marítima europeia.

Os políticos estão ansiosos para participar. Até mesmo o ministro dos Transportes, Danilo Toninelli, cujo Movimento Cinco Estrelas desconfia notoriamente de grandes planos de infraestrutura, mostrou-se eloquente sobre o plano de reconstrução.

"A reconstrução da ponte sinalizará o relançamento da imagem da Itália no exterior", disse Toninelli em 8 de fevereiro, em uma vistosa cerimônia para marcar o início das obras de reconstrução da ponte.

"É um momento importante, é o renascimento de Gênova", acrescentou o primeiro-ministro Giuseppe Conte no evento, usando um capacete de operário e ajudando no trabalho inicial.

Sinais

Olhando ao redor de Gênova, os sinais de renascimento ainda parecem muito distantes. A economia é fraca e a cidade lidera um declínio populacional na região. O mercado de trabalho está estagnado.

O principal motor de crescimento ainda é o porto, onde um filho da cidade, Cristóvão Colombo, planejou suas aventuras navais. Como mais de 55 milhões de toneladas de mercadorias passaram por Gênova no ano passado, esse ainda é o porto mais movimentado da Itália, mas o tráfego caiu cerca de 8 por cento desde o desastre.

Teresa Marasso, 49, mãe de dois filhos, pensou muitas vezes em deixar a cidade para procurar emprego em outro lugar. Até agora ela não saiu. "Gênova é humana", disse Marasso. "Ela está tentando nos lembrar que está machucada, mas que ainda está viva."