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Crimes fatais em Londres pioram tempos sombrios no Reino Unido

William Mathis e Thomas Penny

08/03/2019 14h46

(Bloomberg) -- Colin Spash viu sua filha de 11 anos, Lily, se abaixar para acrescentar seu pequeno buquê de rosas vermelhas à pilha de flores. Bilhetes escritos à mão, úmidos por causa da chuva leve de Londres, estavam espalhados pelo colorido arranjo. Um deles dizia simplesmente: "Você não merecia isso."

Em um parquinho infantil a poucos passos de distância, mais uma vítima de um ataque fatal com faca na capital britânica sangrou até morrer. Jodie Chesney tinha 17 anos e era uma orgulhosa escoteira e uma estudante modelo antes de seu assassinato, há uma semana, que abriu os olhos do país para uma epidemia que agora domina a agenda política.

O horror nacional diante de uma jovem que jaz morta na rua perturbou um país que já enfrenta dificuldades para conter divisões amargas em relação à saída da União Europeia, que envenenou grande parte das discussões políticas.

Os crimes com armas brancas vêm se multiplicando há anos na Inglaterra e, no ano passado, atingiram o patamar mais elevado desde pelo menos 2011. No entanto, uma dúzia de mortes por esfaqueamento em Londres só neste ano chocou o país por causa da natureza aparentemente indiscriminada de muitas delas. A polícia procurava testemunhas de outro assassinato na tarde de quinta-feira na região oeste da cidade.

"Geralmente, esses assassinatos estão relacionados a gangues ou algo assim, mas, quando se trata de uma jovem inocente com toda a vida pela frente, é terrível", disse Spash, 46, um ex-policial. Ele disse que se mudou para Harold Hill, região suburbana de Londres onde Chesney foi assassinada, 25 anos atrás para escapar da criminalidade de outros lugares.

O Reino Unido atravessa seu período mais turbulento em décadas, enquanto o governo tenta desesperadamente negociar um acordo para o Brexit. Embora o foco esteja no drama político no Parlamento e nas negociações estagnadas em Bruxelas, muitos eleitores se preocupam mais com o estado frágil de serviços estatais subfinanciados, como escolas, hospitais e policiamento.

Para a polícia, a onda de ataques com armas brancas é culpa do subfinanciamento, um legado de mais de 70 bilhões de libras (US$ 92 bilhões) do aperto no cinto do governo desde a crise financeira de uma década atrás. O orçamento para os policiais no Reino Unido caiu 20 por cento desde 2010, quando ajustado pela inflação. A primeira-ministra Theresa May geriu grande parte da redução em seu trabalho anterior, quando era Secretária do Interior.

Outros dizem que o foco deveria estar nas causas sociais da violência e em fornecer facilidades e oportunidades para os jovens.

"É preciso mudar o discurso, deixar de se concentrar exclusivamente em criminosos empunhando facas e passar a ver jovens vulneráveis e assustados que merecem ser protegidos e ter suas vozes ouvidas", disse Franklyn Addo, 25, que trabalha com jovens vítimas de violência para a instituição de caridade Redthread, no Homerton Hospital, na zona leste de Londres. "A violência é onipresente. Ela não pertence aos jovens e existe há muito tempo."

E a violência agora veio à tona. Com importantes votações do Brexit no Parlamento programadas para a próxima semana, os crimes com armas brancas chegaram até mesmo a dominar a reunião do gabinete de May na terça-feira. O Ministro das Finanças, Philip Hammond, enfrentou uma enxurrada de perguntas sobre o financiamento da polícia em uma rodada de entrevistas à imprensa na quinta-feira, que normalmente se concentraria no Brexit.