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Bolsonaro vai a Washington para selar guinada pró-Trump

Samy Adghirni e Simone Iglesias

16/03/2019 08h00

(Bloomberg) -- O presidente Jair Bolsonaro, um dos mais entusiasmados admiradores do colega Donald Trump, chegará a Washington neste domingo para a primeira visita oficial a outro governante desde que assumiu o governo brasileiro.

Para Bolsonaro, que já ganhou o apelido de "Trump dos Trópicos" e busca cultivar uma imagem parecida com a do norte-americano, a incursão tem peso mais político do que de negócios. O governo quer demarcar uma mudança de eixo nas relações bilaterais.

"Esta visita demonstra a prioridade que o governo atribui à construção de uma sólida parceria com os Estados Unidos", disse o porta-voz Otávio Rêgo Barros, em briefing na quarta-feira.

O embaixador do Brasil em Washington, Sergio Amaral, afirmou em entrevista que o momento atual é de mudança na agenda bilateral. "Existem mais convergências que antes, e isso permite que se faça coisas mais amplas."

Poucos presidentes latino-americanos abraçaram o governo americano com tanto fervor quanto Jair Bolsonaro. Um dos filhos do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro, recém-eleito presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa da Câmara, apoiou publicamente a construção de um muro para separar os Estados Unidos do México.

O chanceler Ernesto Araújo diz que o Brasil só tem a ganhar a partir de uma relação mais estreita com os norte-americanos. "No passado houve limites à relação com os EUA sob desculpa de não ter subserviência, mas isso é uma grande falácia. Existe percepção equivocada de que uma boa relação com os EUA vai contra o interesse da nossa política externa. Os Estados Unidos são um país democrático, livre, aberto e que gera tecnologia", disse o ministro em entrevista.

Mas enquanto a afeição parece mútua, o governo Trump ainda oferece pouco ao governo brasileiro além de tuítes de apoio. Não há embaixador dos EUA em Brasília desde meados de 2018, e os benefícios econômicos decorrentes do encontro bilateral são menos óbvios. Em entrevistas nesta semana, Bolsonaro falou que serão assinados acordos, sem muitos detalhes: entre eles, um que permite o uso comercial da base de Alcântara, no Maranhão, para lançamento de foguetes americanos; e outro na área tributária. O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, disse, em entrevista, que será assinado um termo que abrirá caminho para empresas norte-americanas explorarem urânio e investirem em novas usinas nucleares.

Bolsonaro e Trump devem conversar sobre a situação da Venezuela, em encontro privado na Casa Branca na manhã de terça-feira. Também falarão de cooperação em defesa e combate ao crime transnacional, segundo a secretária de imprensa da Casa Branca, Sarah Sanders.

Apesar de a Venezuela ser prioridade também para o Brasil, uma intervenção militar não está na pauta, de acordo com o embaixador Sergio Amaral. Em vez disso, os dois países discutirão maneiras de aumentar a pressão sobre o presidente Nicolás Maduro.

"Do ponto de vista dos Estados Unidos, vemos isso como uma oportunidade histórica para o Brasil e os Estados Unidos trabalharem juntos em uma série de áreas, como economia e segurança", disse o assessor de segurança nacional John Bolton.

O governo brasileiro tem expectativa de que os EUA anunciem formalmente apoio à candidatura brasileira à OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). O pedido de adesão foi oficializado em 2017. Os Estados Unidos apoiam a Argentina e até agora têm se mostrado relutantes com a maioria das candidaturas. Em troca, o Brasil pode anunciar isenção de vistos para cidadãos norte-americanos entrarem no Brasil. O Brasil também espera ser declarado um dos países aliados estratégicos fora da Otan, a aliança militar ocidental.

Além da Venezuela, outro motivo da aproximação dos americanos com o Brasil é a China. Os governos Trump e Bolsonaro compartilham a mesma preocupação com o que consideram ser prática de comércio predatório chinês. O presidente brasileiro começou a corrida presidencial desprezando a China, maior parceiro comercial do Brasil, mas ao longo do tempo amenizou seu discurso.

Na noite de quinta-feira, em live transmitida pelas redes sociais, ele declarou que visitará o país oriental no segundo semestre para reforçar os laços econômicos. Bolsonaro sofre pressão interna, especialmente dos ruralistas aliados e da ministra Tereza Cristina (Agricultura) para que seja mais pragmático e menos ideológico na relação com os chineses.

Do ponto de vista comercial, o governo brasileiro pretende usar a viagem para dar um pontapé inicial em um eventual acordo comercial entre os dois países. Segundo uma fonte do alto escalão do Ministério da Economia a par do assunto, o governo tentará emplacar um acordo sobre estabelecimento de padrões de produtos exportados que facilite a realização de negócios entre os dois países, o que não precisaria de acordo conjunto dos demais integrantes do Mercosul.

Boa parte da viagem a Washington, numa comitiva que inclui ao menos seis ministros, entre eles Paulo Guedes (Economia) e Sérgio Moro (Justiça), tem como objetivo mostrar a nova política externa do Brasil, rompendo com uma tradição de décadas de multilateralismo para abraçar os interesses dos Estados Unidos e de Israel.

"Mais do que uma questão comercial, a visita aos EUA representa a metapolítica, o Brasil construindo uma narrativa e sua imagem", disse o cientista político Guilherme Casarões, professor da FGV-SP.

Juntamente com reuniões com investidores da Câmara de Comércio americana, Bolsonaro também se encontrará com líderes de igrejas evangélicas, que podem querer pressioná-lo em seu compromisso eleitoral de transferir a embaixada de Israel para Jerusalém.

Seu itinerário em Washington revela uma tentativa de jogar para os dois lados de sua base que, em muitos aspectos, estão em oposição um ao outro, de acordo com Matias Spektor, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas.

Buscar concessões de Trump para o comércio e apoio à filiação à OCDE irá agradar àqueles que defendem a macroeconomia liberal, enquanto que o encontro com o ex-estrategista Steve Bannon em um jantar na embaixada servirá para os conservadores sociais que condenam a disseminação do chamado "marxismo cultural". Muitos na administração de Trump, no entanto, veem Bannon como um traidor e ficam confusos com o fato de Bolsonaro se encontrar com ele, disse Spektor, que passou a semana se encontrando com autoridades em Washington.

--Com a colaboração de Rachel Gamarski, David Biller e Justin Sink.