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Apoiadores de presidente mexicano massacram imprensa no Twitter

Cyntia Barrera Diaz e Nacha Cattan

12/04/2019 12h52

(Bloomberg) -- A jornalista perguntou ao presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, se ele estava investigando nepotismo no governo. Em minutos, as redes sociais fervilhavam com posts que se referiam à repórter como vaca, integrante da Gestapo e "porca preguiçosa" (por não ter se levantado da cadeira ao se dirigir ao presidente).

O crime dela foi questionar um líder de incrível popularidade, um político de esquerda que se coloca como homem do povo e realiza entrevistas coletivas todo dia útil, mas não gosta de ser confrontado pela imprensa. Os devotos de López Obrador na internet também não toleram essa postura e despejam insultos e ódio sobre jornalistas, em campanhas que aparentemente têm grande participação de bots (perfis falsos direcionados por robôs).

O presidente mexicano tem pelo menos algo em comum com o americano, Donald Trump: desprezo por jornalistas que não estão totalmente de acordo com seu governo.

Em vez de se referir a "fake news", López Obrador (conhecido pelas iniciais AMLO) costuma dizer que reportagens críticas vêm da imprensa "fifi", a gíria local para a elite. O presidente também se referiu a repórteres e veículos de imprensa como "fantoches", "hipócritas" e "duas caras". Seus seguidores na internet não se envergonham de usar linguagem bem mais baixa.

Comentários inflamatórios nas redes sociais ? dos que defendem e também dos opositores de AMLO ? ressaltam a divisão da sociedade mexicana e a repressão do diálogo político.

"É importante ver o impacto da polarização sobre o país", disse Rossana Reguillo, cientista social ligada ao ITESO, um centro universitário em Guadalajara. "Está ficando difícil ter um debate de verdade."

As demonstrações de animosidade contra a imprensa são especialmente preocupantes porque o México é o país mais perigoso do Ocidente para jornalistas. Pelo menos três foram assassinados neste ano.

"Infelizmente, o que vemos hoje é o presidente constantemente estigmatizando a imprensa", disse Ana Cristina Ruelas, diretora regional do Article 19, grupo em defesa da liberdade de informação. "Assim que se estigmatiza os jornalistas, a violência contra eles pode ser justificada."

Os ataques a profissionais de imprensa nas redes sociais, especialmente no Twitter, se intensificaram desde a posse de López Obrador em dezembro, segundo um estudo do ITESO dirigido por Reguillo, que concluiu que contas coordenadas no Twitter sob o comando de bots reforçam e ampliam os comentários contra a mídia feitos pelo presidente.

Quando pressionado a usar um tom menos beligerante, López Obrador revidou, insistindo que tem direito de criticar veículos que, na visão dele, têm interesse em menosprezá-lo. O presidente nega que ele ou seu governo tenham qualquer envolvimento com contas movidas por software.

"Não é verdade que existe um grupo incentivado por nós para nos defender contra aqueles que nos questionam e criticam. Não temos bots", declarou López Obrador em uma coletiva de imprensa quando indagado sobre o estudo do ITESO.

O gabinete da presidência não retornou solicitações de comentário para esta reportagem.

Daniel Blancas, jornalista do La Crónica que foi sequestrado e espancado após noticiar o roubo de combustível no país, afirma que López Obrador precisa ser mais cuidadoso com as palavras que usa contra a mídia. Blancas conta que, após o episódio, ficou mais preocupado com os insultos que chegam por email e pelas redes sociais sempre que ele faz perguntas contundentes na entrevista coletiva.

O presidente "deveria entender que a imprensa não está lá para segurar a mão dele e marchar ao seu lado", disse o jornalista. "A imprensa está lá para vigiar."

Algumas pesquisas de opinião indicam que a taxa de aprovação de AMLO chega perto de 70 por cento nestes primeiros cinco meses de um mandato de seis anos. Ele insiste que existe liberdade de imprensa no México e também espaço para críticas a seu governo.

A tempestade contra a imprensa nas redes sociais coloca em xeque esta segunda afirmação.Segundo o estudo do ITESO, perfis falsos no Twitter programados por apoiadores de López Obrador conseguem identificar rapidamente um alvo e atacá-lo ferozmente. Os bots têm facilidade para criar tendências usando hashtags e reforçam determinados comentários do presidente, reproduzindo a mensagem em inúmeras contas.

Repórteres da matéria original: Cyntia Barrera Diaz em Cidade do México, cbarrerad@bloomberg.net;Nacha Cattan em Cidade do México, ncattan@bloomberg.net