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Paraíso na Flórida oferece isenção fiscal a ricos empreendedores

Noah Buhayar

12/04/2019 16h12

(Bloomberg) -- O sol nascia e o café fumegava quando o bilionário empreendedor Richard LeFrak recebeu hóspedes na sua casa, em Hamptons, em agosto passado para uma das mais insólitas reuniões da época: uma "discussão em grupo" sobre uma nova redução de impostos.

A estrela do evento exclusivo foi o Secretário da Fazenda, Steven Mnuchin, para explicar uma peça fundamental da revisão fiscal proposta pelo presidente Donald Trump. Os investidores envolvidos em negócios imobiliários ou financiamento em quase 8.700 empreendimentos em dificuldades, as "zonas de oportunidades", receberiam grandes isenções para aumentar seus retornos.

O governo esperava que os incentivos injetassem US$ 100 bilhões em partes do país há muito negligenciadas. Mas para LeFrak, amigo de longa data de Trump, isso representou um possível ganho inesperado para um projeto no qual vem trabalhando bem antes de o presidente ser eleito. Desde 2015, sua família e os Soffers, dois dos mais ricos clãs imobiliários dos EUA, vêm desenvolvendo um empreendimento de US$ 4 bilhões chamado Solé Mia em North Miami, Flórida.

A nova lei desencadeou um frenesi entre os empreendedores para iniciar projetos que poderiam se qualificar, mas a empresa da LeFrak e seus sócios estavam muito à frente. Eles fizeram lobby junto às autoridades municipais e à administração do então governador da Flórida, Rick Scott, para apoiar a designação do setor territorial abrangendo Solé Mia como uma zona de oportunidade.

Tanto democratas quanto republicanos proclamaram as zonas de oportunidade como uma nova e potente ferramenta de desenvolvimento econômico. Mas os críticos temem que a lei seja redigida de forma tão frouxa que se torne uma doação para os ricos e lucrativos retornos em projetos que teriam sido conseguidos de qualquer forma. Outros questionam se as pessoas carentes vivendo no local serão beneficiadas.

Poucos investidores ouviram falar das zonas de oportunidade no início do ano passado, quando representantes do Solé Mia se reuniram com a equipe do governador Scott para explicar por que o projeto deveria receber isenções, de acordo com uma pessoa com conhecimento do assunto.

"Definitivamente estava sendo pressionado", disse Cissy Proctor, então diretor executivo do Departamento de Oportunidades Econômicas da Flórida, a agência que lidera as escolhas de Scott. O empreendimento também promete dezenas de empregos na construção civil, assim como trabalho permanente nas empresas que estão vindo.

Algumas autoridades municipais não veem nenhum problema com os empreendedores obtendo lucros maiores. "Se LeFrak estiver gastando mais ou mais rapidamente do que ele faria de outra maneira porque vai receber um benefício fiscal, como um vereador da cidade, eu digo: 'Ótimo'", disse Scott Galvin, que representa o distrito que abrange o empreendimento.

Em outra área local, Highland Village, o Solé Mia é decididamente visto como negativo. Brenda Evans, 49 anos, que mora no bairro há mais de uma década, se preocupa com o fato de que o empreendimento em breve possa aumentar os aluguéis. Ela paga US$ 600 por mês por três dormitórios para sua mãe, duas filhas e neto.