PUBLICIDADE
IPCA
0,87 Ago.2021
Topo

Como 11 pessoas tentam conter fake news nas eleições na Índia

Saritha Rai

22/04/2019 13h33

(Bloomberg) -- Uma das operações mais importantes do Facebook neste momento está a um mundo de distância da sede em Menlo Park, na Califórnia. Em vez do teto verde ecológico e dos cafés que agradam a geração saúde do Vale do Silício, esse escritório apertado em Mumbai tem carpete furado e fiação exposta. É a sede da Boom Live, uma das sete pequenas empresas que checam fatos e compõem a linha de frente dos esforços do Facebook para restaurar sua credibilidade durante as eleições na Índia.

A maior democracia do planeta é um teste importante para a tecnologia que amplifica a desinformação. Estimativas iniciais apontam que mais de 60 por cento dos 900 milhões de indianos com direito a voto irão às urnas no processo que termina em 19 de maio. O Partido do Congresso, de centro-esquerda, está tentando tirar o poder do Partido Bharatiya Janata, de direita. Como em outras eleições ao redor do mundo, agentes pagos e pessoas leais a diferentes partidos estão produzindo e distribuindo propaganda por Facebook, WhatsApp (que também pertence à companhia), Twitter, YouTube, TikTok e outros canais de comunicação digital. Junto com os filtros automatizados do Facebook, os 11 profissionais responsáveis por checar fatos da Boom e empresas terceirizadas de porte semelhante formam a barreira contra essa enxurrada.

"Em um país movido por notícias locais e comunitárias, sabíamos que era crítico ter parceiros que checassem os fatos e pudessem rever conteúdo em diferentes regiões e idiomas", escreveu Ajit Mohan, diretor-gerente do Facebook na Índia, no blog da empresa. Os verificadores de fatos contratados pelo Facebook analisam notícias em 10 dos 23 idiomas oficiais do país, segundo um porta-voz.

"Checar fatos é parte de uma estratégia mais ampla para combater notícias falsas, que inclui trabalho extenso para remover contas falsas, eliminar incentivos para agentes motivados por dinheiro que espalham desinformação, promover educação sobre notícias e oferecer mais contexto sobre as postagens", afirmou a empresa em comunicado.

O Facebook declarou que combater a desinformação é prioridade e que passa essa responsabilidade para empresas terceirizadas a fim de montar uma vigilância bem informada no mundo todo e a qualquer hora. O salário dessas pessoas terceirizadas é bem menor do que recebem os funcionários do Facebook em geral. Os terceirizados podem parecer mais objetivos do que os funcionários ? e podem ser mais facilmente usados como bodes expiatórios.

A reportagem visitou o escritório da Boom e ficou claro que a escala do esforço do Facebook na Índia é insuficiente. A pequena equipe é capacitada e talvez trabalhe até demais, mas, diante do tamanho do problema, parece estar removendo grãos de areia de uma praia contaminada. "O que podem fazer 11 pessoas", pergunta a vice-editora da Boom, Karen Rebelo, "quando centenas de milhões de usuários que estão usando smartphones pela primeira vez compartilham avidamente todo vídeo suspeito e informação falsa que aparece?"

De acordo com o Facebook, os verificadores de fatos são apenas um elemento de uma campanha de 18 meses para proteger as eleições na Índia. A empresa também montou em Déli uma versão da "sala de guerra" formada durante as eleições dos EUA em 2018, aumentou a transparência dos anúncios políticos e apagou centenas de páginas e contas locais que espalhavam desinformação de cunho eleitoral.

A equipe de Rebelo e outras contratadas têm algumas vantagens, como o acesso a software interno do Facebook que alerta para postagens populares que provocam desconfiança. Os verificadores de fatos avaliam listas de queixas recebidas de usuários sobre mensagens questionáveis encaminhadas pelo WhatsApp.

Os profissionais da Boom às vezes pensam que sua missão é tão trabalhosa quanto inútil. Horas depois de juntarem argumentos para convencer o Facebook a derrubar a página de direita Postcard News por disseminar notícias falsas, surgiu uma página de fãs que retomou o compartilhamento de vídeos da Postcard, que tem milhões de seguidores. A página montada por fãs ainda funciona.

Em todo o mundo, pessoas com más intenções têm conseguido editar vídeos reais para enganar multidões. A violência que levou ao linchamento de mais de 20 homens inocentes na Índia no ano passado começou com um anúncio de segurança pública, alertando os pais para não deixarem os filhos sozinhos. No conteúdo original, dois atores em uma motocicleta pegavam uma criança da rua, mas o narrador explicava que se tratava de uma dramatização. O vídeo foi editado, ganhou diferentes versões e mensagens alarmistas em 12 idiomas e compartilhado via Facebook e WhatsApp, sugerindo que gangues estavam roubando crianças no país. "Isso desencadeou histeria em toda a nação", disse Rebelo.

O quadro só vai piorar, na visão de D.D. Mishra, diretor sênior na firma de pesquisas Gartner. Em 2022, a maioria das pessoas em economias maduras consumirá mais informações falsas do que verdadeiras, segundo estudos da Gartner. "No futuro próximo, a criação de 'realidade falsificada' por inteligência artificial ou de conteúdos falsos vai superar a capacidade da inteligência digital de detectar isso, estimulando a desconfiança digital", afirmou Mishra.

PUBLICIDADE