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Lentidão marca novo governo do maior produtor mundial de cobalto

Pauline Bax e William Clowes

18/06/2019 11h57

(Bloomberg) -- Quando um investidor estrangeiro com projetos milionários em toda a África foi informado de que o presidente da República Democrática do Congo queria vê-lo, reservou uma suíte em um dos maiores hotéis do país. Depois de esperar por seis dias, decidiu ir embora.

Desde que Felix Tshisekedi assumiu há quase cinco meses a presidência da República Democrática do Congo, maior produtora mundial de cobalto, jatos particulares congestionam o principal aeroporto da capital Kinshasa, enquanto lobbies de hotéis estão lotados de empresários e congoleses que retornaram de países como Estados Unidos e África do Sul com esperanças de trabalhar com o novo governo. Mas a mudança tem sido lenta. Até agora, Tshisekedi apenas indicou o primeiro-ministro e ainda não escolheu nomes para seu ministério.

"Ninguém sabe o que está acontecendo - é muito difícil para os empresários entenderem o que está acontecendo, porque não há governo", disse Claude Kabemba, diretor da Southern Africa Resource Watch, de Johanesburgo. "Os que conduzem o processo não estão muito preocupados com as atividades do dia a dia do governo e com os investimentos."

Enormes desafios esperam Tshisekedi, de 55 anos. A República Democrática do Congo é o maior país da África Subsaariana, mas um dos menos desenvolvidos, e depende inteiramente do setor de mineração para as exportações. É também um dos países mais difíceis para fazer negócios: segundo o Banco Mundial, a nação ocupa o 184º lugar em uma lista de 190 países em seu mais recente relatório Doing Business, logo acima do Sudão do Sul, mas abaixo da República Centro-Africana, devastada pela guerra.

Sob o comando de Joseph Kabila, antecessor de Tshisekedi, que comandou o país por 18 anos depois de herdar o poder do pai, doadores estrangeiros e empresas regularmente reclamavam da corrupção e má governança. Com os irmãos, Kabila construiu um império de centenas de milhões de dólares, segundo uma investigação da Bloomberg.

O Banco Mundial diz que cerca de 90% de todas as atividades empresariais no Congo ocorrem "por debaixo dos panos", com instituições públicas sem estrutura e funcionários públicos que não recebem há anos.

Presidentes de mineradoras como Ivan Glasenberg, da Glencore, e Mark Bristow, da Barrick Gold, interpretaram a eleição de Tshisekedi como uma oportunidade para fazer lobby contra a legislação implementada pelo ex-presidente Kabila no ano passado, que aumentou significativamente os royalties e impostos. Mas, por enquanto, Tshisekedi tem indicado que vai manter as reformas de seu antecessor.

"No Congo, temos tudo o que o mundo precisa", disse Gilbert Mundela, assessor do presidente. "O Congo não vai 'comer' seu ouro, seu cobre, seu cobalto. O Congo quer que isso seja transformado para que possamos ter acesso ao que precisamos para o nosso povo."

"Os investidores podem ter uma janela curta de estabilidade depois das indicações para o governo, mas não devem necessariamente esperar maior clareza", disse Vincent Rouget, especialista sobre o país da Control Risks. "Tshisekedi busca um equilíbrio delicado entre mostrar que está no comando e preservar as redes leais a Kabila."

Repórteres da matéria original: Pauline Bax em Johanesburgo, pbax@bloomberg.net;William Clowes em Kinshasa, wclowes@bloomberg.net

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