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Alimentar população de 10 bi pode exigir uso de transgênicos

Deena Shanker

17/07/2019 10h17

(Bloomberg) -- Gostemos ou não, a modificação genética será uma ferramenta importante para alimentar a crescente população do planeta.

Se quisermos alimentar 10 bilhões de pessoas até 2050, em um mundo marcado pelo aumento das temperaturas e escassez de água, precisaremos transformar drasticamente a forma como produzimos os alimentos. O aumento dos investimentos dos governos em tecnologias como engenharia genética é parte vital disso, segundo relatório publicado na quarta-feira pelo World Resources Institute (WRI).

As plantações devem ser mais produtivas, mas os desafios agrícolas da mudança climática - como doenças, pragas e períodos de seca e inundações - mostram que também devem ser mais resistentes.

"Temos de aumentar a produtividade drasticamente, a uma taxa ainda mais alta do que fizemos historicamente", disse Tim Searchinger, principal autor do relatório. "Isso tem que ser feito com um cultivo mais inteligente."

A Revolução Verde do século 20 impulsionou a produção de alimentos usando muitas ferramentas, algumas das quais não estão mais disponíveis para a maioria dos agricultores atualmente. O uso de fertilizantes foi amplamente maximizado, disse Searchinger, e a água disponível está diminuindo. Agora, pesquisadores precisam encontrar novas maneiras para um "cultivo mais inteligente", inclusive por meio do uso de modificação genética.

Embora o debate na sociedade tenha se concentrado em seus dois principais usos - na soja e no milho para a resistência ao pesticida glifosato e produção de um inseticida natural, o Bacillus thuringiensis (Bt), no milho e no algodão -, o WRI recomenda que olhemos além. "Não acreditamos que o debate sobre essas particularidades da modificação genética deva ditar políticas sobre toda a tecnologia da engenharia genética", diz o relatório.

Em vez disso, o estudo aponta que a modificação genética salvou a população de mamão havaiano de um vírus mortal, e diz que pode ser capaz de fazer o mesmo com as batatas em Uganda, soja no Brasil e tomates na Flórida.

"Todo mundo exagera os benefícios e custos desses dessas duas características dos organismos geneticamente modificados", disse Searchinger. "Há muitas outras coisas que podemos fazer, é difícil imaginar por que seríamos contra isso."

O relatório também enfatiza a necessidade de melhor reprodução, estabelecendo uma abordagem em quatro vertentes para aumentar a produtividade, sendo que cada uma exigirá mais financiamento público. Primeiro, os ciclos de reprodução precisam ser acelerados, concentrando-se não apenas em grandes melhorias, mas também nas menores e incrementais. Em segundo lugar, agricultores devem utilizar cada vez mais a reprodução assistida por marcadores, uma tecnologia que lhes permite mapear o DNA da cultura e reduzir o número de ciclos de reprodução. Terceiro, a pesquisa deve ir além de culturas como milho, soja e trigo, e focar em "culturas órfãs", como o sorgo, painço, ervilha e cevada, especialmente porque regiões da África subsaariana dependem delas para sua segurança alimentar. Finalmente, pesquisadores devem usar a engenharia genética, como a técnica Crispr, para que as culturas se tornem mais resistentes.

O relatório de mais de 500 páginas apresenta um "menu de 22 itens para um futuro sustentável dos alimentos", que explora formas de reduzir a demanda, aumentar a produção, restaurar florestas e áreas úmidas, elevar a oferta de peixe e reduzir as emissões de gases de efeito estufa da agricultura. Os itens de ação vão desde reduzir o consumo de carne em até 40% nos Estados Unidos até melhorar o acesso de mulheres africanas à assistência médica e educação.

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