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Celulares são perigosos em voos? Em alguns jatos da Boeing, sim

Matt Slocum/AP
Imagem: Matt Slocum/AP

Anita Sharpe

18/07/2019 08h12

(Bloomberg) -- Autoridades do governo dos Estados Unidos revelaram em 2014 um alarmante problema de segurança: celulares de passageiros e outros tipos de sinais de rádio poderiam aumentar as chances de acidentes em alguns modelos de aviões Boeing 737 e 777.

Mais de 1.300 jatos registrados nos EUA foram equipados com telas de cabine vulneráveis à interferência de Wi-Fi, celulares e até mesmo fora do alcance de frequências, como o radar meteorológico, segundo relatório da Administração Federal de Aviação (FAA, na sigla em inglês), que deu prazo até novembro de 2019 para que companhias aéreas substituam as unidades fabricadas pela Honeywell International.

Hoje, potencialmente centenas de aviões em todo o mundo ainda voam com os sistemas inseguros citados no relatório da FAA. Dados críticos de voo como velocidade, altitude e navegação podem desaparecer e "resultar na perda do controle do avião a uma altitude insuficiente para a recuperação", disse a FAA no boletim de segurança, conhecida como diretiva de aeronavegabilidade.

A Honeywell diz que não foi informada de nenhuma tela que teria apagado por interferência de celulares ou outras frequências de rádio durante o voo de um avião, disse a porta-voz da empresa, Nina Krauss.

Quando as companhias aéreas e a Honeywell argumentaram que os sinais de rádio provavelmente não causariam problemas de segurança durante os voos, a FAA respondeu que havia realizado testes com aviões em operação --e que os jatos não passaram no teste.

A Boeing descobriu a interferência em um teste de laboratório em 2012 e não identificou problemas semelhantes em outras aeronaves, disse um porta-voz da empresa. A Honeywell está ciente de apenas um caso em que todas as seis telas em uma cabine de um 737 ficaram em branco, disse Krauss. O problema, causado por uma falha de software, foi corrigido e atualmente está sendo testado, disse.

Os 737 afetados fazem parte do chamado modelo da Próxima Geração, um antecessor do Boeing Max, que esteve envolvido em dois acidentes em menos de cinco meses. As telas da cabine do Max foram fabricadas pela Rockwell Collins, agora uma unidade da United Technologies, e não pela Honeywell. Os 777 da Boeing também foram incluídos na ordem da FAA.

A ordem da FAA não quantificou os sinais de rádio necessários para causar problemas de interferência. Ainda assim, a ameaça do sinal de rádio vai além do sistema de exibição específico e do aviso da FAA.

Vários celulares que ficam ligados durante um voo "podem realmente ser um problema", disse o professor Tim Wilson, chefe do departamento de engenharia elétrica, computadores, software e sistemas da Universidade Aeronáutica Embry-Riddle. Quanto maior o número de telefones emitindo sinais de rádio, maior é o potencial de interferência no sistema de voo de um jato.

Modo avião

Muitas companhias aéreas agora permitem que os passageiros coloquem os celulares em "modo avião", o que permite transmissões Wi-Fi. Mas os celulares operam em níveis mais altos de energia, disse Wilson, já que os sinais devem chegar a uma torre de celular e não apenas a uma antena local. "Por isso, o serviço de celular é potencialmente mais impactante", acrescentou.

Apenas nos últimos três anos, pilotos perplexos no comando de jatos Boeing NG ou 777 --os mesmos modelos citados no alerta da FAA sobre o uso de celulares-- relataram mais de uma dezena de casos de importantes informações que desapareceram durante o voo. Os pilotos classificaram as situações de "críticas" e enviaram seus relatórios ao Sistema de Relatórios de Segurança da Aviação, ou ASRS, que é administrado pela NASA.

Em setembro do ano passado, pilotos de um 737-700 observaram que várias informações de voo piscavam, mostrando diferentes velocidades e altitudes. Depois, uma tela de exibição ficou em branco. "Naquele momento", escreveram os pilotos, "decidimos que era melhor aterrissar a aeronave".

(Com a colaboração de Thomas Black, Justin Bachman, Christopher Jasper e Jonathan Morgan)

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