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Oposição no Reino Unido quer jornada ainda mais curta que França

Jessica Shankleman e William Horobin

23/09/2019 15h00

(Bloomberg) -- Se há uma coisa que as empresas na França odeiam é a jornada de trabalho semanal de 35 horas. Agora, o principal partido de oposição do Reino Unido propôs uma jornada ainda mais curta.

Em sua conferência anual esta semana, o Partido Trabalhista apresentou um conjunto de políticas que aproximam sua abordagem econômica de uma linha ainda mais socialista. Embora seja aplaudida pelos trabalhadores em geral, a proposta não ajuda muito para aliviar as preocupações de que um governo liderado por Jeremy Corbyn seria mais alarmante para as empresas britânicas do que o próprio Brexit.

A semana de quatro dias é o que causa maior preocupação.

"Quem recusaria uma semana de quatro dias com o mesmo salário?", disse Carolyn Fairbairn, presidente da Confederação da Indústria Britânica. "Mas, sem ganhos de produtividade, isso levaria muitas empresas ao prejuízo."

Para um excelente exemplo de como a regulação forçada da carga horária pode causar dores de cabeça, basta analisar o caso da França, onde a jornada semanal de 35 horas foi introduzida há quase 20 anos pelo governo socialista de Lionel Jospin. Desde então, o país enfrenta desafios para lidar com a questão, complicando ainda mais um código trabalhista já complexo.

O objetivo era criar mais empregos - em teoria, compartilhando o trabalho entre mais pessoas - e aumentar a produtividade, um problema que também afeta a economia do Reino Unido. Os trabalhadores também teriam mais tempo de lazer, em parte graças a dias extras de férias para compensar o trabalho superior a 35 horas por semana.

Economistas ainda discutem se a mudança alcançou seus objetivos ou não. É difícil atribuir a geração de empregos apenas à medida, pois os impostos sobre a folha de pagamento caíram ao mesmo tempo e a perda de competitividade da França desde então também pode ser atribuída a outros fatores, incluindo as reformas trabalhistas da Alemanha.

As divergências políticas são ainda mais agudas, especialmente nas eleições, em que os partidos rivais inventam maneiras diferentes de contornar ou defender as "35 heures". A esquerda normalmente defende a medida como um totem de suas realizações no governo, enquanto a direita prometeu repetidamente desmantelar o limite de horas de trabalho e culpa a jornada mais curta por uma série de problemas na França.

O presidente Emmanuel Macron optou por abordar cuidadosamente o problema. Antes de ser eleito, ele criticou repetidamente as "35 heures", mas suavizou seus ataques quando a campanha começou de fato. As reformas trabalhistas introduzidas por Macron logo após a posse dão às empresas maior liberdade para negociar soluções alternativas com seus funcionários, mas são complexas, e o limite legal permanece em 35 horas.

O cerne da questão é que, uma vez reduzida a jornada, é difícil se livrar.

Para contatar a editora responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net

Repórteres da matéria original: Jessica Shankleman em Londres, jshankleman@bloomberg.net;William Horobin em Paris, whorobin@bloomberg.net