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Pequeno reino africano quer exportar cannabis para o mundo

Cannabis - Unsplash
Cannabis Imagem: Unsplash

Loni Prinsloo e Janice Kew

19/12/2019 09h55

O trabalho de Kekeletso Lekaota é preparar fileiras de plantas de cannabis para a colheita. A poda de folhas amareladas requer um toque suave e mãos delicadas, segundo ela.

Lekaota não tinha qualquer experiência 18 meses atrás, quando viu um anúncio de emprego no jornal local. Agora, a jovem de 27 anos treina colegas sobre o cultivo de plantas para a MG Health, que fornece derivados de cannabis para uso farmacêutico. A fazenda, onde também se extrai óleo, fica em Lesoto, minúsculo reino montanhoso que faz fronteira com a África do Sul.

A maconha é amplamente cultivada por todo o território de Lesoto, um dos países mais pobres da África, desde tempos imemoriais e usada medicinalmente pelos nativos. O cultivo é fácil e mais lucrativo do que outras culturas, como milho e cana-de-açúcar. A água abundante e o solo fértil do país fornecem condições ideais. Muitas famílias dependem da renda extra com a venda ilícita a usuários recreativos da droga.

O governo agora busca incentivar plantações legais para abastecer a crescente indústria global de cannabis com fins medicinais e assim gerar empregos e ampliar sua base tributária, atualmente atrelada a exportações de diamantes, água e lã. Cerca de dois terços da população de 2,2 milhões de habitantes vivem em vilarejos rurais e muitos dependem da agricultura de subsistência. O cultivo de cannabis é parte importante da estratégia agrícola do governo, que espera que a nova atividade ajude a financiar infraestrutura básica, como estradas e distribuição de eletricidade e água.

Em 2018, Lesoto se tornou a primeira nação africana a emitir licenças para o cultivo de cannabis para fins medicinais. Atraídas pelo baixo custo de produção, as canadenses Supreme Cannabis, Canopy Growth e Aphria já investiram dezenas de milhões de dólares em instalações por lá.

A MG Health, maior produtora comercial do produto em Lesoto, recebeu o equivalente a US$ 7,6 milhões da Supreme Cannabis no ano passado em troca de 10% do negócio (antes conhecido como Medigrow Lesotho). A Supreme pretende exportar óleos de cannabis medicinal de Lesoto para o Canadá. A MG Health planeja ampliar o quadro de pessoal dos atuais 350 para até 3.000 trabalhadores quando estiver produzindo a todo vapor em alguns anos, segundo o presidente Andre Bothma.

Para cumprir regulamentos, a empresa colhe uma variedade de maconha com baixos níveis de tetra-hidrocanabinol (THC, o composto que dá barato). A companhia exporta extratos não psicoativos de óleo de canabidiol (CBD) e outros produtos de cannabis medicinal principalmente para a África do Sul e está trabalhando para entrar na Europa, Oriente Médio e Austrália.

"Temos vantagem de sermos pioneiros na África e achamos que o mercado é enorme", afirma Bothma.

O CBD é um segmento de rápido crescimento do mercado de cannabis, que movimenta US$ 340 bilhões. Somente nos EUA, a previsão é que as vendas de CBD cheguem a US$ 20 bilhões em 2024, cinco vezes mais do que seis anos antes, de acordo com a BDS Analytics.

À medida que vários países flexibilizam as regras para cannabis, as empresas procuram obter produto em regiões de baixo custo. Mesmo em sua fase inicial, o custo da MG Health em Lesoto é cerca de 93 centavos de dólar por grama, contra US$ 1 ou mais em outros lugares, segundo a própria companhia.

Lesoto disputará investimentos com outras regiões de baixo custo, incluindo Colômbia e Jamaica, além de outras nações africanas que podem seguir seus passos e legalizar a produção.

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