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Governo chinês cria ídolos virtuais e provoca revolta

Zheping Huang

19/02/2020 10h20

(Bloomberg) -- O Partido Comunista da China inventou uma dupla de influenciadores virtuais nas redes sociais, em mais uma tentativa de ganhar os corações e mentes dos millenials. O resultado foi exatamente o oposto.

Esta semana, a Liga da Juventude do partido dominante lançou personagens de anime que receberam sanção oficial: dois adolescentes em trajes tradicionais com nomes extraídos da obra poética de Mao Tsé-Tung. Os aspirantes a ídolos online (o nome do garoto se traduz aproximadamente como "bandeira vermelha tremulante" e o nome da irmã dele é "rios e montanhas são lindos") estrearam no website Weibo, semelhante ao Twitter, e provocaram uma onda de ridicularização e críticas. Em poucas horas, a Liga da Juventude colocou a dupla offline.

Avatares criados digitalmente são a última moda nas redes sociais, atraindo muitos seguidores, assim como ídolos pop de carne e osso. No entanto, essa dupla gerou o temor de que Pequim estaria subvertendo uma tendência para fins políticos. Em dezenas de milhares de comentários, blogueiros chineses criticaram o uso de personagens de desenho animado para transmitir mensagens políticas. A Liga da Juventude, braço do Partido, rapidamente retirou a postagem original do Weibo e apagou o conteúdo de uma conta no Weibo dedicada à dupla.

"Sou seu cidadão, não seu fã", escreveu um usuário do Weibo em um comentário que viralizou.

Há anos, o governo chinês tenta engajar a juventude e reforçar sua ideologia por meio de música rap, anime e aplicativos de bate-papo. A Liga da Juventude centraliza essas campanhas, estando entre os 10 maiores criadores em número de seguidores e visualizações no serviço de vídeo focado em anime Bilibili, de acordo com o rastreador de dados Biliob.com.

"A legitimidade do governo está muito baixa após mais de um mês de surto de coronavírus. Antes as pessoas já estavam insatisfeitas com a exploração da cultura de fãs pela mídia estatal na cobertura do vírus", disse Fang Kecheng, professor assistente de comunicação e jornalismo na Universidade Chinesa de Hong Kong. "Cooptar anime e a cultura de fãs não é remédio para tudo."

O uso de ídolos virtuais para incentivar o nacionalismo chinês não é novidade, mas até agora isso ocorria de forma mais orgânica. Durante os protestos pró-democracia em Hong Kong em 2019, patriotas das redes sociais criaram uma personificação viral de sua nação a quem deram o nome de "Irmão Ah Zhong", ou Irmão China, um ídolo pop que estreou há 5.000 anos com 1,4 bilhão de fãs. A Liga da Juventude e a mídia estatal elogiaram a iniciativa, enquadrando-a como uma espirituosa defesa da terra natal contra ataques estrangeiros.

A tentativa da Liga de replicar isso com sua própria dupla virtual foi um fracasso quase instantâneo. Um aspecto bastante criticado foi o uso de mulheres pela máquina de propaganda. A estreia dos ídolos ocorreu poucos dias depois do surgimento de um polêmico vídeo circulado pela mídia estatal, no qual profissionais de saúde do sexo feminino choravam caladas enquanto homens raspavam suas cabeças para ajudar a prevenir infecções durante o surto de coronavírus. Muitos usuários do Weibo fizeram uma pergunta retórica ao anime feminino da Liga da Juventude: "Por que você não raspa sua cabeça?"