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Perdas com hedge de combustível abatem ainda mais Azul e Gol

Cristiane Lucchesi, Felipe Marques e Vinícius Andrade

25/03/2020 10h42

(Bloomberg) -- As duas maiores companhias aéreas do Brasil, já abatidas com a queda de receita por causa do coronavírus, vão apresentar perdas contábeis com hedge de petróleo e ver suas dívidas crescer devido à alta do dólar.

A líder de mercado, Gol Linhas Inteligentes SA, que fez hedge para cerca de 90% de seu consumo de combustível no primeiro trimestre, alertou em seu mais recente relatório trimestral que arriscava perder mais de R$ 940 milhões com derivativos de petróleo caso o West Texas Intermediate caísse ao nível de US$ 28 por barril. A Azul SA sinalizou uma perda potencial com a marcação a mercado de seu hedge de R$ 582 milhões se o preço em reais caísse pela metade. Na terça-feira, o WTI havia caído 60% este ano para US$ 24,33.

Embora não esteja claro qual o impacto no caixa, as perdas contábeis com o hedge de combustível vêm no pior momento possível. A receita está caindo, aviões deixam de ser utilizados em massa, enquanto os bloqueios e o medo do coronavírus se espalham e paralisam o setor aéreo. A Gol informou na terça-feira que suspendeu todos os vôos internacionais e limitou as viagens domésticas a 50 por dia. A Azul, fundada pelo empresário David Neeleman, reduziu sua capacidade para 90% do seu fluxo normal.

"Temos que entender que o mundo não é normal agora", disse John Rodgerson, presidente da Azul, em entrevista. "Temos um hedge de combustível, mas os preços estão caindo a cada minuto, porque o mundo não é normal."

Rodgerson não quis comentar sobre perdas específicas com o hedge, nem a assessoria de imprensa da Gol.

A queda nos preços do petróleo não é uma má notícia para as companhias aéreas, já que o combustível representa grande parte de suas despesas. A Azul gastou R$ 3 bilhões no ano passado em combustível e a conta da Gol superou R$ 4 bilhões, mostram demonstrações financeiras. Quando suas atividades normalizarem, preços mais baixos de combustível ajudarão a manter os custos baixos.

A desvalorização da moeda brasileira também ajudou a aumentar os passivos da Azul e da Gol no primeiro trimestre. O real caiu 20% em relação ao dólar este ano, aumentando o tamanho da dívida em dólar e dos contratos de leasing quando convertidos para a moeda local.

Nas demonstrações financeiras do quarto trimestre de 2019, a Gol afirmou que seus passivos em dólar teriam um aumento R$ 2,95 bilhões se a moeda norte-americana subisse 25%. A Azul teria um aumento de R$ 2,53 bilhões nos seus passivos com o dólar a R$ 5,038.

A Azul utilizou contratos a termo e opções para proteger parte de sua dívida em dólar, embora o hedge fosse válido apenas até o preço de R$ 4,75. Na terça-feira, o dólar fechou a R$ 5,09, cotação que nem os analistas mais pessimistas esperavam no início do ano.

As companhias aéreas incluíram os números de hedge de petróleo e passivos em dólar em suas demonstrações financeiras de 2019, mostrando aos investidores quais seriam os piores cenários. Os impactos contábeis reais não serão conhecidos até que os resultados sejam divulgados especificando quais os níveis de preço do petróleo ou taxa de câmbio serão usados para contabilizar os hedges de combustível e passivos em dólar.

©2020 Bloomberg L.P.

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