Bancos centrais enfrentam dilema das baixas taxas de juros

Javier Albisu.

Paris, 12 jan (EFE).- Dirigentes de vários bancos centrais dos países desenvolvidos ressaltaram nesta terça-feira, em um simpósio realizado em Paris, a importância dessas instituições como ferramentas para enfrentar um dilema macroeconômico global desconhecido até agora, caracterizado por um cenário de baixa inflação e taxas de juros próximos ou iguais a zero.

O sistema financeiro encara novos riscos que, no começo deste século, eram meras discussões teóricas entre acadêmicos, já que as chamadas políticas monetárias não convencionais (como aumentar a base monetária comprando dívida pública) se transformaram na "única normalidade" em Estados Unidos, Reino Unido, zona do euro e Japão.

O novo governador do Banco da França, François Villeroy de Galhau, introduziu o termo "noflação" para descrever essa realidade a meio caminho entre a inflação e a deflação, durante o simpósio realizado em homenagem a seu antecessor, Christian Noyer, que se despediu após ficar 12 anos à frente da instituição.

A baixa rentabilidade do dinheiro, com juros inclusive negativos em países como a Dinamarca, gera um excesso de liquidez que leva os investidores a buscar refúgios que podem criar novas bolhas financeiras, advertiu.

"Não sabemos muito sobre as bolhas, mas sabemos que os juros baixos levam a elas", apontou Jean Tirole, prêmio Nobel e professor titular da Escola de Economia de Toulouse (França).

Houve consenso de que a solução não passa por elevar a meta dos bancos centrais de manter a inflação próxima de 2%, de modo que a resposta adequada "dependerá das políticas, não só monetárias ou fiscais, mas também estruturais e macroeconômicas", disse o vice-presidente do Federal Reserve (banco central dos EUA), Stanley Fischer.

"Não será fácil lidar com as taxas de juros a zero (...) mas mesmo as pequenas mudanças podem fazer uma grande diferença", comentou o banqueiro americano em um evento no qual se reuniram muitos dos que decidem as políticas monetárias dos países desenvolvidos.

Entretanto, além dos países industrializados, o futuro da economia global será cada vez mais condicionado pela atividade dos países emergentes, que representam 85% da população mundial e foram responsáveis por 80% do crescimento da economia em todo o planeta desde a crise financeira global, lembrou a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde.

E o mais importante dos novos "atores" será a China, onde uma transformação que favoreça um crescimento lento, mas sustentado, seria "benéfica para todos", apontou Lagarde.

A diretora do FMI disse, além disso, que a convergência entre as economias desenvolvidas e aquelas em desenvolvimento pode triplicar o tamanho da economia global nos próximos 25 ou 30 anos e defendeu "um sistema econômico que preserve a estabilidade nas economias emergentes e evite os sobressaltos que prejudicam todo o mundo".

Esses sobressaltos, aos olhos de Noyer, serão cada vez mais frequentes, pois o crescimento sustentado com pouca volatilidade se transformou em uma raridade, e no futuro "é possível que as políticas de estabilidade monetária e financeira tenham que encarar com regularidade comoções repentinas e descontínuas".

Uma das vozes mais autorizadas para analisar esse cenário de juros próximos de zero e pouca inflação é o governador do Banco Central do Japão, Haruhiko Kuroda, pois seu país vive nesse contexto macroeconômico desde 1999.

Embora Kuroda tenha saído de última hora do evento em Paris, ele deixou escrito um discurso que terminou com uma conclusão otimista sobre as "agressivas" medidas tomadas pela instituição que lidera e pelo Banco Central Europeu (BCE), que desde março do ano passado aplica uma política de expansão quantitativa ou compra de dívida.

"Acredito que a política monetária no Japão e na zona do euro terão sucesso em um futuro próximo e se abrirá assim um novo capítulo na macroeconomia", previu o governador do Banco Central do Japão.

Tão frequentes se tornaram essas políticas até agora consideradas "não convencionais" que é muito possível que os países emergentes também tenham que se servir, em breve, dos programas de compra de dívida, afirmou o governador do Banco Central do México, Agustín Carstens.

"A coordenação seria desejável, mas devemos estar preparados para que cada um aja independentemente dos outros", concluiu.

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