Cervejas artesanais ganham peso em Portugal, país dos vinhos

Bárbara Almeida.

Lisboa, 25 fev (EFE).- Longe das grandes indústrias, o nicho das cervejarias artesanais de Portugal se posiciona no mercado local como uma alternativa, que mistura tradição e inovação, à maneira clássica de consumir cerveja.

A tendência da recuperação de técnicas milenares para fabricar novas cervejas se instalou em território luso há pouco mais de três anos, com a criação dos primeiros estabelecimentos de consumo e o surgimento de produtores locais.

Antes só havia um grupo de fiéis seguidores que produziam de forma artesanal em suas casas, ou viajavam para saborear cervejas diferentes das marcas populares.

Na atualidade existem mais de 20 microprodutores que dão dinamismo e sofisticação ao setor em Portugal, segundo dados da Associação Portuguesa dos Produtores de Cerveja (APCV).

Embora os números sejam ainda muito modestas em comparação com outros países europeus - onde a cerveja artesanal é um fenômeno -, já há cerca de uma centena de cervejas deste tipo produzidas no país, o que reflete um crescimento expressivo nos últimos anos.

Especialmente significativo é este aumento se for levado em conta que, em Portugal, o vinho continua sendo a grande referência na hora de sentar-se à mesa.

Segundo Rui Matias, proprietário da Cerveteca - o primeiro estabelecimento dedicado exclusivamente a este produto -, se estima que há entre 30 e 50 tipos de cervejas diferentes, em função dos métodos de produção e dos ingredientes utilizados - malta, lúpulo, trigo, frutas vermelhas ou amarelas -, que são os que finalmente definem o aroma, cor, sabor, espuma ou teor alcoólico.

Entre as categorias mais conhecidas no âmbito artesanal estão a India Pale Ale (IPA), Wit, Stout, Porter, Tripel, Saison, Dubel, Tribel e Blonde.

"Há cervejas que se mantiveram sempre iguais, com receitas de 1600, e outras que partem de receitas históricas, mas também há muitas inovações, como cervejas envelhecidas em barris de uísque", afirmou Matias à Agência Efe.

Na concepção de uma cerveja artesanal, há dois fatores fundamentais: a variedade de ingredientes e, sobretudo, uma baixa mecanização no processo de fabricação.

Com uma carta que oferece mais de cem opções de cervejas de estilos e nacionalidades diferentes, a aposta principal da Cerveteca são os produtos menos conhecidos, "tipos quase marginais de cerveja".

Sérgio Romão, sócio-gerente da cervejaria artesanal Oitava Colina, considera que o desafio está mais em mudar a forma de consumir a cerveja.

"A cerveja artesanal acaba, muitas vezes, por entrar no território do vinho, ou seja, por acompanhar uma boa comida por exemplo", comentou à Efe.

Hoje em dia, nos restaurantes e bares da capital lusa é cada vez mais frequente encontrar cervejas belgas, dinamarquesas, suecas, junto às típicas cervejas portuguesas.

A Oitava Colina, no bairro lisboeta da Graça, produz as cervejas "Urraca Vendaval", do tipo India Pale Ale (IPA); "Zé Arnaldo", do tipo Robust Porter; e "Florinda", do tipo Lager.

Os rótulos mostram um personagem em cada uma delas, cuja personalidade se assemelha ao tipo de cerveja, acompanhado de ilustrações do artista urbano português gonçaloMAR.

Além disso, a marca propõe acompanhamentos com entradas e pratos, ou temperaturas ideais de consumo, entre outras sugestões.

De acordo com Romão, o setor se organizou para reeducar o mercado consumidor, baseando-se no princípio da pluralidade de tipos, marcas e assinaturas.

"Isto não é uma moda, é uma mudança na forma como se consome a cerveja", destacou.

Na busca por particularizar o produto, o setor pesquisa novas fórmulas com ingredientes nacionais, como é o caso da cerveja "Letra on Oak", da fábrica Cerveja Letra, envelhecida em casco de vinho do Porto.

"Felizmente, temos coisas típicas muito boas para ajudar a criar um produto único", ressaltou Sérgio Romão, citando fórmulas que incluem o uso de laranjas da região do Algarve (sul), o lúpulo português ou inclusive o conhaque que se produz em Lourinhã (centro).

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