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Ampliação do Canal do Panamá: uma janela incalculável ao passado do istmo

Fabio Agrana.

Cidade do Panamá, 24 jun (EFE).- A construção da ampliação do Canal do Panamá, que será inaugurada no próximo domingo, revelou ao mundo um tesouro enorme: fósseis de animais, de espécies vegetais e também vestígios arqueológicos que dão novas luzes sobre o surgimento e a história do istmo panamenho.

A Autoridade do Canal do Panamá (ACP) numerou em 8.862 as amostras paleontológicas encontradas durante as escavações da ampliação, dentro de um projeto desenvolvido entre 2008 e 2012 pela entidade autônoma panamenha em associação com o Instituto Smithsonian de Pesquisas Tropicais (STRI, sigla em inglês).

"O tesouro é enorme! Imagine todos esses fósseis de animais e plantas escondidos ali, até que uma janela inestimável se abre para o passado por meio do acesso às rochas do canal", disse à Agência Efe a pesquisadora do Smithsonian, Oris Rodríguez.

As investigações de aproximadamente 30 paleontólogos dirigidas a coletar a maior quantidade de fósseis revelados pelas escavações, e a datar e descrever o local das descobertas para encontrar as pistas de como emergiu do mar a "ponte de terra" que uniu o continente americano de norte a sul.

Oris, que esteve no campo com a equipe do STRI, destacou que os descobrimentos são "importantes, ao ponto de potencializar estudos-chave para entender melhor o surgimento do istmo e seu contexto geológico e paleontológico".

Um desses achados foram sete dentes fósseis de um macaco batizado como "Panamacebus", que segundo o STRI são a primeira prova de um primata na parte continental da América do Norte antes que o istmo se fundisse com a América do Sul há 3,5 milhões de anos.

Um relatório do STRI, que será publicado na revista científica "Nature", afirma que antes deste descobrimento se pensava que os macacos da América do Sul viveram isolados da América do Norte pelo mar.

A retirada de milhões de metros cúbicos de terra e de rochas revelou outros valiosos achados como dentes humanos de grande antiguidade, e de tubarões, entre eles um enorme de um Megalodon, uma espécie de tubarão que surgiu nos mares há 18 milhões de anos e se extinguiu há aproximadamente 2 milhões de anos.

Os vestígios do Megalodon que foram coletados principalmente nos jazidas do lado Atlântico do Lago Gatum, que alimenta os compartimentos de embarque do Canal, pertencem à coleção de fósseis marítimos que é a maior do projeto de resgate paleontológico.

Zuleika Mojica, especialista em Proteção Ambiental da Autoridade do Canal do Panamá, disse à Efe que foram recolhidas das escavações 8.862 amostras no total, que já estão catalogadas na base de dados do laboratório de paleontologia tropical do STRI.

Destas, 5.377 são rochas e sedimentos e 3.485 são fósseis que se dividem da seguinte maneira: 359 são de plantas, 1.511 são moluscos, seis equinodermos, 149 artrópodes, 317 tubarões, 704 répteis e 439 mamíferos.

Zuleika considerou que o projeto de resgate paleontológico, que custou US$ 1 milhão à ACP, "é uma dos trabalhos científicos de maior impacto na última década".

Os achados "marcam um antes e um depois na história da paleontologia em nível mundial" porque "permitiram repensar hipóteses estabelecidas anteriormente", garantiu.

Entre os descobrimentos paleontológicos mais representativos no registro geológico de aproximadamente 25 milhões de anos da bacia do Canal, há fósseis, principalmente dentes e fragmentos de ossos de camelídios, equinos, oreodontes e rinocerótidos.

Todos esses organismos apresentam uma afinidade americana, o que sugere, de acordo com Zuleika, uma conexão continental entre as Américas do Norte e Central no período de tempo compreendido entre o Oligoceno e o Mioceno, há 22 milhões de anos.

A especialista explicou que os estudos sobre as rochas, as falhas tectônicas e os fósseis descobertos revelam que o levantamento do istmo do Panamá ocorreu em três momentos: Eoceno tardio, há 38 milhões de anos; Mioceno superior, há 20 milhões de anos; e Mioceno tardio, 10 milhões de anos atrás.

Além disso, Zuleika destacou que o estudo de fósseis combinado com a análise genética de grupos de seres vivos como serpentes, crocodilos, tartarugas, abelhas, rãs, salamandras, peixes de água doce e plantas indica que "a migração frequente de seres vivos terrestres através do istmo do Panamá começou por volta de 10 milhões de anos atrás".

Para Zuleika, o conjunto das evidências obtidas indica que "tanto as implicações paleoceanográficas como paleoclimatológicas do levantamento do istmo do Panamá devem ser restabelecidas sob a perspectiva da história geológica e paleontológica da região".

A pesquisadora destacou que os outros achados reportados correspondem aos arqueológicos, com o resgate de mais de 2 mil objetos, restos de móveis e imóveis pertencentes a todos os períodos de ocupação humana no istmo do Panamá, "que representam mais de mil anos da história da área do Canal e são parte do testemunho do desenvolvimento histórico da nação panamenha".

Entre estas descobertas arqueológicas há cerâmica do período pré-colombiano, maquinarias industriais, garrafas de vidro, assim como trincheiras revestidas de pedra construídas entre 1912 e 1913 como as primeiras estruturas defensivas terrestres do Canal pelo exército dos Estados Unidos.

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