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Fronteira de extração de petróleo na Amazônia completa 30 anos

Fernanda Russo Filomeno.

Coari, 14 dez (EFE).- Depois de aproximadamente duas horas de voo em um bimotor ATR-42 com capacidade para até 50 pessoas, é possível ver em meio à mata fechada da Floresta Amazônica uma clareira imensa, e assim que a aeronave se aproxima da pista de 1,2 km de extensão, fica claro que se trata de um projeto grandioso, em um lugar pouco peculiar: a Província Petrolífera de Urucu.

Localizada a cerca de 650 km de Manaus, a província pode ser acessada por ar ou por barco, através dos rios Solimões e Urucu - que passa pela Base Geólogo Pedro de Moura, nome do responsável por convencer a cúpula da Petrobras de que valia a pena explorar petróleo no meio da floresta nos anos 80.

Ao desembarcar de um avião que só levava convidados e/ou funcionários, todos devem assistir a uma apresentação sobre as medidas de segurança a serem tomadas durante a estadia em Urucu, já que se trata de um ambiente altamente inflamável e tóxico.

Não se anda pelas instalações sem estar devidamente preparado: macacão laranja (ou um casaco da mesma cor), capacete, óculos, protetores auriculares e botas.

No total, são 110 km de estradas construídas, sendo 71 km pavimentados. Os carros que circulam por elas, não podem ultrapassar os 50km/h, velocidade justificada pela preocupação ambiental. Também não é permitido caminhar pela base sozinho durante o dia, e à noite, isso é terminantemente proibido.

Além disso, toda a energia utilizada no complexo é produzida em Urucu.

Se hoje em dia a base de Urucu conta com toda - ou praticamente toda - a estrutura necessária para funcionar com o mínimo risco possível e proporcionar boas condições de moradia às cerca de 1,2 mil pessoas embarcadas diariamente, há 30 anos, quando começou a extração nesse local quase inóspito, tudo era completamente diferente.

"Quando comecei a trabalhar em perfuração, há 34 anos, tudo era uma aventura. Estilo 'Indiana Jones' mesmo. Para trazer tudo para cá, era por helicóptero. As máquinas, tratores, tudo era desmontado, e trazíamos peça por peça, até que remontávamos tudo aqui", lembrou Ivaldo Santos da Silva, técnico químico de 56 anos.

"Era tudo feito fracionado, as peças, os mantimentos, e inclusive as pessoas, por isso ficávamos na dependência do clima. A gente ficava sempre na ansiedade, porque dependíamos do tempo para conseguir sair daqui. Aqui, ficávamos acampados no meio do nada mesmo", acrescentou.

Apesar das difíceis circunstâncias, para Silva, que acompanhou o crescimento da província desde o primeiro poço, a sensação que fica é de orgulho.

"Eu me considero um privilegiado de fazer parte dessa história e saber que a gente, em algum momento, deixou um legado que vai ficar. Passamos por muitas dificuldades, ansiedade, ficamos distante da família por muito tempo, perdemos momentos importantes, mas tudo isso faz parte dessa caminhada, então eu me orgulho de fazer parte dessa história".

Para poder realizar esse sonho pessoal e se dedicar 100% ao projeto, os funcionários têm que abrir mão de muitas coisas.

"Estava em treinamento na refinaria de Fortaleza quando recebi um telefonema dizendo que minha mulher ia dar à luz à Camila, minha filha que nasceu prematura, de sete meses. Sai correndo de lá, foi uma luta conseguir uma passagem, fui direto para maternidade. Chegando lá, a Camila tinha nascido. Foi uma correria, uma aflição, deixei o curso, mas também agradeço porque tive o apoio da empresa. Perdi o nascimento da minha filha, mas foi marcante mesmo assim", disse Ivaldo.

Além da distância, os funcionários que vivem de tempos em tempos em Urucu ainda enfrentam outros problemas. Por ser um lugar que fica no meio da Floresta Amazônia, é preciso lidar com a diversidade local, incluindo animais selvagens.

"Já vimos onça. Quando vemos, evitamos passar perto. A gente está invadindo o habitat desses animais, então temos que observar seus horários, sua rotina. A gente precisa respeitar o ambiente deles, estamos na casa deles. Alguns tentam se aproximar, mas é raro. As antas interagem, passam perto, assim como animais menores, aves como o mutum", contou.

Mas nem sempre os funcionários têm tanta sorte.

"Uma vez, em uma locação, o colega foi pegar a bota para calçar e, quando colocou no pé, sentiu algo... era uma cobra. Mas isso aconteceu em uma área remota e em um tempo muito precário, era praticamente mato. Hoje vemos mais isso", afirmou.

Os trabalhadores se revezam em turnos. Enquanto alguns estão "embarcados", os outros estão em suas casas. Porém, no local há uma grande estrutura com refeitório, dormitórios, salas de TV, academia, tudo para que as pessoas se sintam o mais a vontade possível.

Apesar de todos os percalsos, da distância, das viagens, de ficar longe de casa e perder datas importantes, os funcionários que trabalham na Província Petrolífera de Urucu, dão um valor imenso ao projeto e acham gratificante trabalhar em um local como esse.

"Quando eu vim pra cá, já tinha uma estrutura montada. Eu fico imaginando nos anos 80, quando todos tiveram que começar do zero. Quando cheguei, já havia alojamento, a central já tinha todos os processos. Cabe a nós procurar fazer uma melhoria contínua de tudo isso, prestar atenção em novas tecnologias para melhorarmos os processos ambientais", comentou a jovem engenheira ambiental Patrícia Bianco Knopki, de 29 anos, que cuida da gestão ambiental, a partir do tratamento de resíduos, como reciclagem e compostagem.

Porém, para a jovem engenheira, as polêmicas envolvendo a companhia tiraram o principal foco, que são os belos projetos da Petrobras, como legado para o país.

"A mídia praticamente só noticia a parte da corrupção, desvios, não que o que a empresa representa para o Brasil. Tudo o que é feito aqui, é impressionante. Essa empresa merecia ter um tratamento melhor, ser valorizada pelos veículos de imprensa e pela população. Eu ouço gente falar 'privatiza tudo', e isso entristece muito", comentou Patrícia.

E para a engenheira do Paraná, que mora em Manaus, apesar de tudo, vale a pena.

"A gente vê esse ambiente incrível e já se sente melhor. O ar puro, as árvores, os animais. Principalmente para quem trabalha com meio ambiente, é uma sensação muito boa. Essas pessoas que construíram isso, algumas inclusive já estão saindo, são um exemplo. Elas desbravaram e implantaram técnicas de meio ambiente e orientaram a questão da ocupação do espaço, das melhores práticas, então tudo o que foi feito por essas pessoas é admirável, a gente vê como o aprendizado contribui para as coisas novas e procuramos fazer o melhor", disse.

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