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Vítimas do conflito colombiano recomeçam do zero fabricando sapatos

Claudia Polanco Yermanos.

Cali (Colômbia), 26 set (EFE).- Passo a passo, a vida de 3.165 pessoas, vítimas do conflito armado na Colômbia, começou a mudar este ano graças a um programa do governo que tem como objetivo ensiná-las a fabricar sapatos e lhes oferecer a oportunidade de começar a trilhar um novo caminho.

"Educando-nos para a paz" é um projeto do Ministério do Trabalho colombiano que pretende que os afetados pela violência estudem, pratiquem e produzam em áreas como a de calçados e de artigos de couro.

A iniciativa, apoiada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pela Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI), já beneficia 3.165 pessoas em 16 cidades, das quais 620 estão em Cali, no sudoeste do país.

Uma delas é Oneida Samboní, oriunda do Queremal, um povoado do município de Dagua, no departamento (estado) de Valle del Cauca, vítima no ano de 2008 de uma desgraça particular.

"Há nove anos a guerrilha sequestrou meu esposo, que era dono de uma propriedade grande na qual criávamos frangos e de uma loja de sapatos importados. Aí começou o meu calvário", relatou a mulher à Agência Efe.

Durante oito meses, as pressões do grupo armado ilegal para que Oneida entregasse uma grande soma de dinheiro em troca da libertação de seu marido foram uma constante, bem como as ameaças de que cortariam os dedos das mãos dele para enviá-los "aos pedaços".

"Foi uma tortura", contou a mulher, a quem a guerrilha jamais enviou uma prova de vida de seu marido.

Depois desses oito meses a situação piorou porque as autoridades encontraram o corpo do marido de Oneida enterrado em uma fossa onde aparentemente tinha sido deixado no mesmo dia do sequestro.

"Meu mundo desabou. Eu não sabia o que fazer. Tive que sair da região para que não matassem a mim e a meus filhos. Chegamos a Cali para começar do zero", comentou a mulher.

Por um tempo, Oneida e sua família viveram graças ao apoio de seus familiares e amigos até que conheceu o "Educando-nos para a paz", que recentemente apresentou seus produtos na Pacific Leather, evento realizado como parte da feira de moda CaliExposhow.

"Pela primeira vez em muito tempo pensei que sim, é possível voltar a viver bem, ter a esperança de uma mudança e de um futuro próspero, para o que estou estudando para fazer sapatos para vendê-los", destacou a mulher.

Uma história similar é a de Lenny Urrea Gómez, que aos 27 anos já viu os horrores da guerra.

Em Granada, município do departamento de Antioquia, no noroeste da Colômbia, começou uma onda de violência no ano 2000 entre paramilitares, guerrilheiros e o exército nacional.

"Houve confrontos e massacres até que praticamente acabaram com o povoado. Explodiam as casas com bombas e as imagens eram dolorosas, porque foram muitos os que morreram e outros mais os que ficaram sem nada", assegurou Urrea.

Com seus pais e 14 irmãos, Lenny teve que se deslocar para Cali, onde, para a sua surpresa, a esperavam melhores dias.

"Estudei desenho industrial e posteriormente fiz um curso de calçado e indústria de artigos de couro para iniciar meu empreendimento, no qual faço calçados, bolsas, carteiras e frasqueiras", acrescentou Lenny.

Atualmente, o negócio conta com dez empregados e, ainda que "não tenha sido fácil", a jovem sabe que logo a situação vai melhorar.

"Devemos perseverar porque abandonar os sonhos é a coisa mais simples e rápida que uma pessoa pode fazer, mas é preciso se esforçar de verdade se você quiser vencer na vida", declarou a empresária, que como um exercício de retribuição deseja contratar outras vítimas do conflito armado que, como ela, também tiveram que recomeçar.

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