Aposentados na Argentina são obrigados a trabalhar para pagar contas

Naiara Bellio

Buenos Aires, 29 dez (EFE).- Muitos argentinos que chegaram à idade de se aposentar não puderam parar de trabalhar, pois consideram que, sob o recém-aprovado sistema de cálculo das aposentadorias, não vão conseguir pagar as contas do mês.

A conversão em lei da polêmica reforma da previdência, repudiada no país, criou uma nova preocupação em torno da estabilidade financeira dos quase 7 milhões de aposentados que possivelmente verão seus bolsos afetados pela reforma.

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Em um país no qual durante anos existiu uma milionária dívida com os aposentados por parte do Estado, a exceção se transforma em regra, pois são várias as ocasiões em que pessoas saem do mercado de trabalho, mas continuam trabalhando de forma independente para completar o que receberão pelo benefício.

É o caso de Sara Lafourcade, integrante de uma comunidade dedicada ao entretenimento dos aposentados chamada "Os Avós do Francês", que se aposentou no ano passado, aos 67 anos, e cujo principal medo é passar a depender da sua única filha.

Ela passou os últimos 11 anos da sua vida laboral trabalhando na área administrativa num hospital da capital e ganhava o dobro do que recebe atualmente com a aposentadoria.

Aqui os aposentados que mais ou menos estão bem, e não doentes, estão vendo a possibilidade de encontrar alguma coisa para ajudar porque estamos num país muito caro, temos muitos impostos, aumentaram as contas de luz, água e gás. Com as reformas, então, não vai dar
Sara Lafourcade

Pouco acima da linha da pobreza

Números alarmantes reforçam esta declaração, já que a quantia mais baixa que os aposentados ganham --7.620 pesos (US$ 424)-- fica somente 2.500 pesos (US$ 138) acima do valor que o Instituto Nacional de Estatística e Censos considera o limite para não ficar abaixo da linha de pobreza.

O novo sistema, promovido pelo governo e aprovado na terça-feira passada pelo Parlamento com uma margem apertada de votos, obriga o recálculo dos salários segundo um coeficiente baseado na inflação, que aumenta com alarmante rapidez no país, e não segundo a arrecadação do Estado, como antes.

O plano também inclui o aumento da idade de aposentadoria para 70 anos de forma "opcional", algo que Rolando Amaro teria aceitado de bom grado, uma vez que, aos 81 anos, continua trabalhando na medida do possível como consultor econômico.

"O que me preocupa não é tanto o que estamos passando agora, mas a situação dos meus filhos, dos meus netos e o que os aguarda", admitiu ele, que não pode subsistir com a quantia mínima.

A Defensoria do Povo da Terceira Idade da cidade de Buenos Aires fixou a cesta básica de um adulto maior de 65 anos em 17,5 mil pesos (US$ 973) em novembro, mais do que o dobro do que vai ser pago com a reforma, que será ajustada para cima, com o novo sistema, em março.

O padrão se reproduz sem cessar na Argentina, e inclusive os "mais velhos" mais ricos têm alguma coisa para dizer ao governo.

"Tive que reduzir várias coisas, embora não ganhe uma aposentadoria muito baixa. Tenho minha casa e posso me virar", contou Jorge Szkolnik, ex-engenheiro da empresa Telecom e integrante da Mesa Coordenadora de Aposentados e Pensionistas.

"Temos muitos aposentados que ganham o valor mínimo e vivem muito, muito mal, e com cada coisa que lhes tiram, cada vez vivem pior", destacou Jorge.

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