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Israelenses veem via para paz na coexistência econômica na Palestina ocupada

28/01/2019 07h04

Joan Mas Autonell.

Barkan (Cisjordânia), 28 jan (EFE).- Barkan, uma colônia em plena Cisjordânia ocupada com 160 fábricas de empresas israelenses, é um polígono industrial onde cerca de 7 mil funcionários palestinos e israelenses trabalham conjuntamente e que os dirigentes colonos da região apresentam como um modelo bem-sucedido de coexistência.

Uma das companhias mais relevantes é Twito-Plast, que fabrica componentes de aparelhos de ar condicionado e emprega 130 trabalhadores, sendo 60% deles palestinos, explica o diretor de exportações, Moshe Lev-Ran.

"Aqui não falamos de política", diz o executivo, que afirma que este assunto "fica fora" do âmbito de trabalho, onde "há ambiente muito bom".

Para ele, "a paz só chegará através da economia, não da política, empregando conjuntamente palestinos e israelenses" em complexos como o de Barkan, onde atualmente trabalham cerca de 3.300 palestinos e que depende do Conselho Regional de Samaria, encarregado da administração de vários assentamentos judaicos da região.

No entanto, em outubro, a calma neste polígono foi alterada com um incidente no qual um palestino que trabalhava em uma das suas fábricas matou dois companheiros israelenses, um homem de 35 anos e uma mulher de 28, além de ferir outra mulher.

Israel qualificou o assassinato de ataque terrorista, embora tenha reconhecido que o agressor pudesse ter outro tipo de motivação ao trabalhar na mesma empresa. O mesmo escapou e dois meses depois foi morto pelas forças de segurança.

"Nunca tinha ocorrido algo parecido em Barkan, mas o que aconteceu significou só um buraco no caminho", lamenta Lev-Ran, que considera que os funcionários palestinos "levam para casa um salário muito bom, de US$ 1,5 mil mensais", que é "muito mais alto" do que poderiam ganhar se trabalhassem em empresas nas áreas governadas pela Autoridade Nacional Palestina (ANP).

O presidente do Conselho Regional de Samaria, Yossi Dagan, considera que Barkan, junto com o polígono de Ariel, que emprega 1,5 mil pessoas nas imediações de um dos três principais blocos de assentamentos na Cisjordânia, é um exemplo de desenvolvimento que oferece oportunidades trabalhistas e perspectivas de futuro tanto à população israelense como aos palestinos da região.

"Temos um impacto potencial na vida de nossos vizinhos", ressalta este representante dos colonos.

No entanto, para Maha Abdullah, advogada da ONG palestina de direitos humanos Al Haq, "este ponto de vista não leva em conta o contexto mais amplo de ocupação" ao qual são submetidos os palestinos na Cisjordânia, controlada por Israel desde a Guerra dos Seis Dias de 1967, e "propõe simplesmente uma solução" do conflito "sobre a base do lucro econômico".

"A maioria dos lucros das colônias industriais ou dos negócios israelenses vão parar nos próprios israelenses e em suas empresas, e para os palestinos só ficam as migalhas", afirma a advogada, que acrescenta que a imposição do modelo econômico israelense torna "inviável" o desenvolvimento de uma economia palestina própria.

Segundo Maha, "uma porcentagem importante de palestinos termina recorrendo a estas oportunidades de trabalho", mas "a equação de poder é desequilibrada", com "uma potência ocupante que administra terras palestinas públicas ou privadas confiscadas ilegalmente", sem que "a população ocupada possa ter acesso ou utilizar seus recursos da forma adequada".

A advogada denuncia que há milhares de palestinos que trabalham para companhias israelenses nos territórios ocupados e Israel "sem contrato e nem regulações de segurança ou saúde", especialmente no setor da construção e da agricultura.

A ONG israelense de apoio aos trabalhadores Kav laOved calcula que 30 mil palestinos são empregados de maneira regular em companhias israelenses na Cisjordânia e, segundo destaca à Agência Efe Asia Ladizhinskaya, membro da associação, dezenas de milhares trabalham temporariamente ou permanentemente em Israel e nos territórios ocupados sem contrato de trabalho, o que agrava as possibilidades de exploração e abusos.

Abdullah, um jovem palestino de 24 anos de Ramala, está há cinco anos empregado na Twito-Plast de Barkan, e enquanto fuma um charuto, se mostra "contente" com seu trabalho.

Youssef, outro palestino de Jerusalém Oriental da mesma idade, que trabalhou até há pouco em um depósito industrial de uma colônia judaica, conta que a relação dos palestinos com seus patrões é de submissão e desigualdade.

"Em muitas fábricas, a maior parte dos operários são palestinos e só os chefes, que trabalham em seus escritórios, são judeus, e não há muita conexão", explica, além de lamentar que "muitos têm que trabalhar nos assentamentos porque os salários são melhores e não têm outra opção". EFE