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Executivos nos EUA temem que conflitos comerciais possam arranhar o crescimento

Nova York

17/06/2018 17h09

Nova York, 17/06/2018 - Líderes corporativos do mercado financeiro estão preocupados que os bons tempos atuais não durem ao passo que uma perspectiva cada vez mais nebulosa se apresenta sobre um pano de fundo de disputas comerciais e riscos geopolíticos.

A aprovação de cortes de impostos nos Estados Unidos eliminou incertezas significantes e fortaleceu o lucro de muitas companhias. Dados econômicos de Washington a Pequim têm sido fortes, enquanto se estima que o crescimento global escale 3,9% este ano, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Gastos de capital por empresas listadas no índice acionário S&P 500 avançaram cerca de 24%, para US$ 166 bilhões, durante os primeiros três meses do ano em relação a 2017, de acordo com dados do Credit Suisse.

"Esse é um ambiente de negócios muito amigável em que se está operando, melhor que no passado recente", disse o chefe financeiro do Wells Fargo, John Shrewsberry.

Projeções de prazo mais longo são menos otimistas. O FMI alerta sobre como o estímulo dos cortes de impostos nos EUA tende a se esvair a partir de 2019. Economistas ouvidos pelo Wall Street Journal se preocupam que uma recessão possa se iniciar em 2020 à medida que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) eleva as taxas de juros nos EUA.

Alguns executivos-chefes de finanças (CFOs, na sigla em inglês) comentam que uma reviravolta negativa poderia até já ter ocorrido, em meio a sinais de aperto no crédito e nos mercados de trabalho. E os espectros de tensões comerciais e turbulência política do México a Londres a Washington estão assombrando até as perspectivas corporativas mais róseas.

O amplamente citado Índice Global de Incerteza de Política Econômica disparou 64% entre janeiro e maio, alcançando o nível mais alto em um ano ainda enquanto o boom de gastos de capital estava em curso.

O professor de Economia na Universidade Stanford e um dos criadores do índice Nick Bloom atribui a sua disparada à postura mais dura do presidente americano, Donald Trump, na frente comercial, dizendo que o líder "fala sério ao introduzir tarifas e se afastar" do G-7, grupo das sete maiores economias do mundo.

Washington está aplicando tarifas sobre dezenas de bilhões de dólares em produtos chineses a partir de julho, às quais a China já anunciou responderá com barreiras retaliatórias. O governo Trump está também buscando reformular o Tratado norte-americano de Livre Comércio (Nafta, na sigla em inglês).

Os conflitos comerciais provocaram hesitação em empresas, avalia o economista-chefe da Moody's Analytics, Mark Zandi. Para ele, companhias estão claramente expandindo saídas de capital, mas o analista acredita que o crescimento do investimento poderi aser maior sem as tensões comerciais.

"Acho que (as disputas comerciais) estão causando um impacto sobre decisões de investimento e contratação", opina Zandi. "Negócios não estão recuando. Mas eles não estão se engajando com toda força. Crescimento de gastos com investimento é bom. Mas acho que essa expansão seria ainda mais forte se não fosse essa nuvem criada por essas tensões no comércio."

A incerteza cercando tarifas e comércio tanto nos EUA quanto globalmente forçou o CFO da fabricante de ferramentas Stanley Black & Decker, Donald Allan, a dobrar a quantidade de tempo gasto em planejamento de contingências.

"Estou gastando pelo menos 40% do meu tempo com esse tipo de coisa, senão mais", reclama Allan, acrescentando que ele frequentemente consulta uma variedade de especialistas externos, de bancos de investimento a lobistas a associações da indústria, para obter um leque de perspectivas.

O objetivo é assegurar que a empresa está "gerenciando todos os riscos efetivamente mas, também, que não estamos exagerando", explica o CFO.

Para a Verizon, a preocupação ligada a fricções no comércio foi em relação a qualquer impacto possível que ela pudesse ter na cadeia de produção da companhia, segundo o CFO Matthew Ellis. O escopo de qualquer de qualquer perturbação da produção provavelmente será limitada, já que a gigante de telecomunicações está focada nos EUA, ainda que a empresa importe alguns equipamentos do exterior.

"Você faz o melhor para garantir que tenha planos de contingência", diz Ellis. "Você reflete: 'Estou dependendo de um fornecedor em particular, de um desenlace?'"

Outras companhias também estão se preparando para um potencial declínio no sentimento econômico. A empresa de TV e mídia Discovery planeja ter dinheiro em caixa agora que completou a aquisição da Scripps Networks Interactive em março. "A nova Discovery é uma máquina de fluxo de caixa livre", afirmou o CFO da empresa, Gunnar Wiedenfels, na quarta-feira. Ele projeta que o caixa que restante de operações, incluindo gastos de capital, alcançará US$ 2,3 bilhões este ano.

"Ter fluxo de caixa livre nesses tempos de incerteza nos dá muita flexibilidade", disse Wiedenfels.

As conversas de alto escalão de Trump com a Coreia do Norte, o impacto ainda em desdobramento do Brexit e turbulências no Oriente Médio e na Venezuela estão entre os estresses geopolíticos adicionais demandando atenção de chefes financeiros.

Em meio a esse pano de fundo, de acordo com o economista-chefe para os EUA na Oxford Economics, Gregory Daco, companhias têm ainda a preocupação mais previsível de uma economia que está "razoavelmente avançada em um ciclo econômico".

CFOs estão cada vez mais receosos com custos ascendentes associados ao lançamento e à distribuição de um produto ou serviço - como com gastos trabalhistas, de transporte e energia, afirma Daco.

"Até que a poeira baixe, temos que definitivamente dar um passo atrás e esperar que isso aconteça", conclui Shrewsberry, do Wells Fargo. (Dow Jones Newswires)

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