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BNDES: Em 10 anos, carteira de R$ 120 bi rendeu menos da metade do CDI

Vinicius Neder

Rio

18/12/2019 15h16

O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano, voltou a defender a redução da carteira de ações da instituição de fomento, apresentando dados para mostrar que, nos últimos dez anos, esses investimentos tiveram rentabilidade equivalente à metade do CDI (taxa de juro interbancária média).

O mais recente passo do BNDES na direção de acelerar a redução de sua carteira de participações acionárias foi a venda de toda sua fatia no frigorífico Marfrig, por R$ R$ 2,09 bilhões, em oferta subsequente encerrada esta semana. Na manhã desta quarta-feira, a Marfrig confirmou que a operação girou R$ 2,99 bilhões, incluindo o aumento de capital em R$ 900,9 milhões e a saída do BNDES. A ação do frigorífico acabou precificada em R$ 10,00 na oferta, como havia revelado o Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.

Para Montezano, não faz sentido, diante do propósito de fomentar o desenvolvimento, o BNDES investir em ações de empresas como Petrobras, Suzano e JBS. Para o presidente do BNDES, o crescimento bilionário da carteira de ações, hoje avaliada em pouco menos de R$ 120 bilhões, foi uma estratégia de governos passados para ampliar os lucros do banco e, assim, usar os dividendos como receita primária para a meta fiscal.

"O acionista que estava aqui há alguns anos atrás esperava do banco uma geração de dividendos muito expressiva para gerar (superávit) primário", afirmou Montezano, na apresentação do Plano Trienal 2020-2022 do BNDES, no Rio.

Conforme o BNDES, o "grosso" da bilionária participação na Petrobras, por exemplo, foi aportada no banco de forma involuntária, com o objetivo de engordar lucros e dividendos, mas o "atual acionista", ou seja, o governo Jair Bolsonaro, não espera da instituição de fomento o pagamento de elevados dividendos - apesar disso, o Tesouro Nacional contou com a antecipação de dividendos do BNDES referente ao lucro de 2020 para as contas deste ano.

Os dados sobre a rentabilidade recente da carteira de ações sustentaram a ideia de que o retorno dos papéis não é importante para a sustentabilidade financeira do BNDES. Em dez anos, de 2010 a 2019, a taxa interna de retorno (TIR) da carteira do BNDES, incluindo papéis já vendidos, foi de 4,4%, ante 9,9% acumulados no CDI. Em 18 anos (2002 a 2019), os retornos ficam empatados, com 12,2% para a TIR da carteira do BNDES e 12,4% para o CDI acumulado.

Montezano lembrou que o auge dos investimentos do BNDES em participações acionárias ocorreu no fim da década passada. Portanto, faz sentido olhar mais para a comparação entre os retornos acumulados em dez anos.

"Esses R$ 120 bilhões em carteira renderam menos de metade do CDI", afirmou o presidente do BNDES, ressaltando que o banco "teria mais dinheiro" se não tivesse aportado os recursos nas ações. "Se tivesse pego esse dinheiro e posto (em aplicação baseadas) no CDI, teria mais que o dobro", completou Montezano, ressaltando que não entendia quando ouvia argumentos de que a carteira de ações era importante para gerar lucros.

Com isso, a diretora financeira, Bianca Nasser, afirmou que a estratégia de reduzir os investimentos em participações acionárias não traz risco para a saúde financeira do banco. Estudo apresentado por ela mostra que, trazido a presente, todo o "spread" devido na carteira de crédito do BNDES equivaleria a R$ 55 bilhões. Isso seria suficiente para cobrir os custos operacionais (de R$ 3 bilhões ao ano) até 2027. "Não conheço nenhum banco no mundo com tamanha cobertura de despesas", afirmou Montezano.

Diante desses números, segundo o presidente, o BNDES tem condições de fazer frente a suas obrigações, "com FAT ou sem FAT", "com Tesouro ou sem Tesouro", numa referência às fontes de financiamento do banco de fomento. "Não há que ter qualquer tipo de preocupação em relação à sustentabilidade financeira do banco", afirmou Montezano.

Contato: vinicius.neder@estadao.comR