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Na fila, toda a madrugada, por R$ 600

Douglas Gavras

01/05/2020 12h03

Na madrugada fria da periferia de São Paulo, um grupo de pessoas enfrenta pacientemente uma prova de resistência que, para alguns deles, vai durar até 16 horas. Em frente a uma agência da Caixa Econômica Federal, o sacrifício é pelo auxílio emergencial de R$ 600 a R$ 1.200, concedido a brasileiros de baixa renda que ficaram sem sustento após a crise desencadeada pelo novo coronavírus.

A dona de casa Alexandra da Rocha, de 43 anos, virou lenda ali. Ao tentar ser atendida pela Caixa no dia anterior e ouvir do funcionário que ela tinha chegado tarde demais, não pensou duas vezes: voltou às 18h, improvisou uma cama apoiada nas portas de vidro do prédio e decidiu que só sairia dali no dia seguinte com seu dinheiro.

"A gente evita se queixar, mas não dá para entender o tamanho dessa fila. Se eles têm os dados de todo mundo, se as pessoas já sabem o nosso CPF e a gente já foi aprovado para receber o auxílio, como é que eles não conseguem pagar? O que nós fizemos de errado?"

A fila da agência da Caixa no Grajaú, zona sul de São Paulo, se repetiu por todo o Brasil nos últimos dias. Com o início do pagamento do benefício, as portas das agências da Caixa viraram local de peregrinação de um exército de brasileiros que viu a pouca renda que tinha sumir com a pandemia.

O objetivo, em geral, é conseguir driblar as burocracias que foram impostas para receber o benefício. A noite de sono de muitos deles tem sido trocada pela ida à agência para conseguir, por exemplo, um código que serve para gerir a poupança virtual social aberta pela Caixa para o recebimento do benefício e, assim, poder sacar e movimentar os R$ 600.

"Isto aqui é uma humilhação. Até as pessoas que passam de ônibus aqui em frente, na avenida, se espantam ao ver tanta gente aglomerada, quando todo mundo diz que não é para ficar desse jeito. Elas não acreditam que a gente possa ter de passar a noite aqui, se expor a todo tipo de risco, para ganhar o mínimo para sobreviver", se emociona o desempregado Lucimar Costa, de 51 anos.

Os dez primeiros da fila, todos com mais de 40 anos e paciência de sobra para virar a noite ali, de repente abandonam seus lugares e se juntam em um círculo, começam a comparar quantas vezes tentaram usar o aplicativo da Caixa. "Parece que fizeram de um jeito para irritar quem precisa do dinheiro, até a pessoa desistir. Você acha que alguém iria dormir nesta calçada fria, por R$ 600, caso não precisasse muito?", questiona Costa.

Volte amanhã

Quando soube que a agência sempre distribui 200 senhas por dia para atendimento geral e 50 para preferencial, Luciana Dias, 19 anos, foi incumbida pela mãe de contar o número de pessoas que já estavam esperando na frente delas. "149, 150. Acho que vai dar. Parece pouco, mas para quem não está ganhando nada os R$ 600 significam tudo."

Ao lado delas na fila, um grupo de jovens entregadores ouve funk para se distrair. As crianças, que foram para acompanhar as mães e que se conheceram ali, agora brincam como se fossem amigas de infância. "Quando a gente começou a brincar, a fila ainda estava pequena", conta uma delas.

Vitalina Santos, de 62 anos, ri quando alguém pergunta se ela faz parte do grupo de risco da covid-19. "Faço parte de dois: o grupo dos idosos e o grupo dos que passam fome. Eu não tenho opção. Você acha que o governo se importa com as pessoas que estão dormindo nas filas? Eles nunca devem ter entrado numa fila."

Na terça-feira, o Brasil ultrapassou a China no número de mortes por causa do novo coronavírus. Ao ser instado a comentar o assunto por uma jornalista, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) respondeu: "E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?"

"A gente quer é que eles deem um jeito de diminuir o sofrimento das pessoas. Ninguém quer se expor sem necessidade ao vírus, mas eles precisam fazer chegar o dinheiro nas nossas mãos", conta a vendedora Milena dos Santos, que deixou a filha na casa de amigos, para buscar atendimento.

Quando já passa das 9h, faltando menos de uma hora para o início do atendimento, o fim da fila já se perde no horizonte, são pelo menos 400 pessoas. Ninguém se espanta mais com ela dobrando a esquina - já ocupa cinco quarteirões da ladeira ao lado e metade não deve ser atendida até o fim do dia. "Daqui a pouco, vai ficar mais barato vir morar de vez na frente da agência", diz a primeira da fila.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.