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Investimentos ficaram abaixo do mínimo necessário de 2016 a 2019, diz Ipea

Resultado reflete estagnação e recessão dos últimos anos - Mykyta Dolmatov/Getty Images/iStockphoto
Resultado reflete estagnação e recessão dos últimos anos Imagem: Mykyta Dolmatov/Getty Images/iStockphoto

Vinicius Neder

Rio

08/09/2020 14h24

A forte recessão de 2014 a 2016 e a estagnação que se seguiu por três anos até a economia entrar este ano em novo ciclo recessivo, por causa da pandemia de covid-19, fez com que, pela primeira vez desde, pelo menos, 1947, os investimentos "líquidos" tenham ficado no negativo, mostra um estudo divulgado hoje pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Isso significa que, entre 2016 e 2019, os investimentos feitos na economia brasileira não foram suficientes sequer para garantir a manutenção de estradas, pontes, portos, fábricas e maquinário.

Os investimentos "líquidos" são a medida dos investimentos totais - ou a formação bruta de capital fixo (FBCF), no cálculo do Produto Interno Bruto (PIB) — menos o montante desses aportes que cobrem apenas a manutenção do "capital" — a "estrutura" usada para produzir. Isso porque ferrovias, aeroportos, shopping centers e máquinas se deterioram com o tempo. Depois que uma estrutura dessas é inaugurada, se nada mais for investido, ela envelhece, se deprecia e, portanto, perde a capacidade de produzir.

Assim, os investimentos "líquidos" apontam quanto, de fato, está sendo aportado na ampliação de capacidade produtiva. Essa capacidade será maior quanto maior for o "estoque de capital", ou seja, o valor total dos capitais disponíveis numa economia.

Todos os trimestres, ou todos os anos, os dados do PIB informam o fluxo da FBCF. Esse fluxo é o montante investido nesses períodos, de forma contínua. Quando o investimento "líquido" é positivo ao longo do tempo, vai se acumulando no "estoque de capital" e, portanto, ampliando a capacidade de uma economia crescer. Com o investimento "líquido" negativo, também pela primeira vez, o "estoque de capital" do Brasil encolheu de 2016 a 2019.

Em 2019, o investimento total na economia brasileira somou R$ 674 bilhões, em valores de 2010 já corrigidos, nos cálculos do Ipea. Só que esse valor ficou R$ 104 milhões abaixo do necessário para repor a depreciação do capital naquele ano. Em 2018, o quadro foi ainda pior, pois os R$ 658,5 bilhões investidos ficaram R$ 66,3 bilhões abaixo do necessário. O estoque de capital terminou o ano passado em R$ 9,960 trilhões, ante R$ 10,082 trilhões em 2015, sempre a valores de 2010.

As estimativas mais recentes do Ipea, também divulgadas nesta terça, apontam que, no início deste ano, mesmo com a nova recessão causada pela pandemia, o investimento "líquido" voltou para o terreno positivo, quando se olham os dados no acumulado em 12 meses. Ou seja, os investimentos totais voltaram a ficar acima do necessário para repor a depreciação do "estoque de capital". Isso significa que levou dois anos para a tímida recuperação dos investimentos totais, em 2018 e 2019, surtir algum efeito.

"Apesar da recuperação do crescimento dos investimentos brutos ter se iniciado em 2017, somente no início deste ano, o investimento bruto voltou a ficar maior que o investimento necessário para repor da depreciação - indicando o aumento da capacidade instalada do estoque de capital", diz um trecho de um dos relatórios divulgados pelo Ipea.

Com base no estudo inédito que estimou o "estoque de capital" e o investimento "líquido" na economia brasileira desde 1947, o Ipea passará a divulgar dados trimestrais sobre esses indicadores. Eles são importantes para ajudar a calcular o "PIB potencial", como os economistas chamam o ritmo em que uma economia pode crescer sem gerar desequilíbrios, como inflação. Embora haja diversas metodologias para calcular o PIB potencial, o indicador é importante na tomada de decisões de política econômica.

Apesar da divulgação trimestral, o Ipea frisou que os dados mais recentes sempre estarão sujeitos a revisões. Isso porque as complexas estimativas para chegar aos cálculos do investimento "liquido" e do "estoque de capital" ficam mais precisas com as informações definitivas do PIB anual, divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com defasagem de dois anos - este ano, ainda serão divulgados os dados definitivos de 2018.