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José Paulo Kupfer

Preço alto de alimentos afeta mais pobres, mas não é inflação; antes fosse

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

08/09/2020 14h17Atualizada em 09/09/2020 10h15

Depois da carne, em fins de 2019, outros alimentos estão com preços em forte alta nos mercados varejistas. Preços de alguns alimentos importantes da cesta básica dispararam, com elevações que superam 20% no ano. É o caso do leite, do arroz e do feijão.

Tem sido, por isso, cada vez mais comum ouvir relatos de sustos com esses preços nas visitas aos supermercados. "Estive no supermercado e me espantei com a alta da inflação", é um resumo do que se diz, no momento.

Preços de alimentos, é verdade, estão altos. Mas isso não quer dizer que a inflação esteja alta. Pode não parecer, mas preço alto e inflação são coisas diferentes —relacionadas, mas diferentes. Inflação é alta de preços —e alta permanente—, não preço alto.

Por essa razão, não se consegue "ver" inflação na feira ou no supermercado, como se explica aqui. Ali, o que se pode enxergar é exatamente preços subindo ou descendo (é bem do comportamento humano lembrar mais de preços que sobem do que de preços que caem).

A inflação, medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), que é o índice que serve de baliza para o sistema de metas de inflação, tem rodado, já há bastante tempo, abaixo do piso do intervalo do sistema. Em 12 meses, até julho, por exemplo, a inflação acumulou alta de 2,31%, quando o centro da meta é de 4%. É verdade que o item "alimentos e bebidas" subiu, no mesmo período, 7,61%, acima até mesmo do teto do intervalo do sistema, que é de 5,5%.

Com os preços mais altos dos alimentos, as populações mais pobres são as mais negativamente afetadas. Famílias de estratos de menor renda, proporcionalmente, consomem mais alimentos e destinam maior parte de suas rendas para esse consumo. Com preços altos, a mesma renda compra menor quantidade de produtos.

São, porém, razões específicas que estão determinando essa elevação mais forte em preços de alimentos. Quatro elementos se combinam, neste momento, para pressionar esses preços: o auxílio emergencial, a alta do dólar, que orienta os preços internos de produtos exportados ou importados, aumento na compra de alimentos pela China, e uma elevação nos preços dos combustíveis.

A China, refazendo seus estoques de segurança alimentar, depois do mergulho da economia, no início da pandemia, é um fator já conhecido de pressão sobre preços de alimentos. Foi essa demanda dos chineses que jogou o preço das carnes para as nuvens, no fim do ano passado. Preço de combustíveis em alta afeta a logística de distribuição dos produtos, impactando não só, mas também, os alimentos.

Mais relevantes, contudo, para explicar as altas nos preços de alimentos são o dólar e o auxílio emergencial. Basta observar que o mercado para alimentos não se restringe ao interno, para entender o que ocorre quando o dólar favorece ampliar vendas, com colocação de produtos em mercados externos. De janeiro a agosto, a cotação do dólar em relação ao real já subiu 30%.

O arroz, por exemplo, um dos vilões da atual temporada de preços altos de alimentos, aproveitou a subida da cotação do dólar para ficar ainda mais competitivo, principalmente em mercados vizinhos. Venezuela, Peru, Costa Rica e Cuba são alguns dos principais destinos que absorveram aumentos significados de vendas brasileiras. E ajudaram a desviar a oferta interna do produto.

Além disso, com a pandemia, houve uma mudança nos hábitos de consumo, o que alterou, pelo menos temporariamente, o que os economistas chamam de "composição da demanda".

Essa mudança acarretou redução no consumo de alimentação fora de casa e, em consequência, elevou as compras de alimentos para consumo na residência. A nova tendência foi bastante significativamente reforçada pelo auxílio emergencial de R$ 600.

Foram R$ 50 bilhões mensais, de abril a agosto, reforçando a renda, principalmente de brasileiros mais pobres e vulneráveis. Não é difícil entender que consumidores, quanto mais pobres, mais concentram suas compras em alimentos.

Mas, na média dos brasileiros, com remuneração de um a 40 salários mínimos, a faixa abrangida pelo IPCA, a participação dos alimentos no total da renda não chega a 20%. De acordo com a mais recente POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), de 2017-2018, os alimentos respondem por 17,8% dos gastos totais mensais. A verdade é que o consumo de alimentos no orçamento familiar, proporcionalmente, vem caindo nos últimos anos. Ainda de acordo com a POF, em 2002-2003, o item absorvia 19,8% dos gastos.

Queda maior ocorreu nos gastos com a dupla feijão com arroz. Em 15 anos, as despesas com os dois produtos básicos da mesa brasileira caíram quase pela metade, de 7,3% do total para 4,2%. Aumento de renda e reduções nos preços, com elevação da oferta, explicam o fenômeno.

Choques de oferta, sobretudo em alimentos, costumam arrefecer em intervalo de tempo relativamente curto. Isso se deve ao fato de que alimentos, em geral, podem ser substituídos —apresentam elasticidade alta a preço ou renda, no jargão dos economistas. Além disso, alimentos, quase sempre, são culturas de ciclo curto, permitindo aumento ou redução de oferta em prazos menores. Aumentos de preços no mercado incentivam ampliação de oferta, com a consequente baixa de preços.

Na situação de ociosidade de fatores de produção, inclusive e especialmente, desemprego de mão de obra, característica do momento, na economia brasileira, é muito difícil que choques de oferta ativem processos inflacionários mais estruturais. Inflação, é sempre bom lembrar, é um termômetro dos desequilíbrios econômicos, não a febre deles derivada.

Nessas situações, o repasse dos aumentos de custos aos preços ao consumidor não é automático. Basta ver que os preços no atacado, principalmente de alimentos, está em alta, sem que isso altere a tendência dos preços ao consumidor. Essa dificuldade de repasse, por retração da demanda, também interfere no repasse aos preços das altas do dólar. Produtores e comerciantes, portanto, estão tendo de carregar maiores estoques e absorver reduções em suas margens de comercialização.

O resultado desse processo é que a inflação não responde a preços mais altos. No caso brasileiro atual, o termômetro está apontando uma economia em temperatura ainda bastante fria, em que as projeções para a atividade econômica são de um recuo de pelo menos 5% em 2020, em relação a 2019. Um já longo período recessivo ou de muito baixo crescimento tem mantido a inflação longe do centro da meta perseguida pelo Banco Central, mesmo com as taxas de juros em níveis baixos recordistas.

De acordo com o mais recente Boletim Focus, no qual o Banco Central organiza as projeções de economistas de bancos e consultorias financeiras, a inflação, em fins de 2020, ficará em 1,78%. A previsão vem aumentando, era a de uma alta de 1,63%, há quatro semanas, mas ainda está bem abaixo do piso, de 2,5%, e, mais uma vez, não deverá encostar no centro da meta.

Na ausência de pressões inerciais ou distorções de grande porte, seria até desejável que a inflação estivesse mais ativa. Do jeito inerte em que se encontra, só revela as dificuldades de retomada da produção com as quais a economia brasileira continua se debatendo há sete anos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.