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Analistas consultados pelo BC não acertam previsões do PIB desde 2008

Luiza Calegari

Do UOL, em São Paulo

19/01/2015 06h00Atualizada em 19/01/2015 09h54

Quanto a economia do Brasil vai crescer em 2015? E em 2016? Para responder, analistas das instituições financeiras criam uma espécie de "fórmula", levando em conta dados de consumo das famílias, investimentos em infraestrutura, gastos do governo e as relações políticas e econômicas no cenário internacional, principalmente em relação a gigantes como EUA e China.

Esse tipo de projeção é importante, por exemplo, para pessoas e empresas tomarem decisões de investimentos de médio e longo prazo. Porém, acertar --ou chegar perto disso-- tem sido cada vez mais raro. Desde 2008, os analistas de mercado não acertam as previsões para o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro.

BC faz pesquisa toda semana

Toda segunda-feira, o Banco Central (BC) divulga um relatório conhecido como Boletim Focus, que traz as apostas dos economistas para os principais indicadores econômicos do país --PIB, inflação, dólar, juros. São ouvidas mais de cem instituições financeiras. O BC exclui as previsões extremas e calcula uma mediana dessas perspectivas. 

Previsões furadas

Entre 2002 e 2008, as projeções do mercado para o PIB brasileiro divulgadas no Boletim Focus chegaram perto de acertar em três ocasiões. Depois da crise de 2008, o mercado não conseguiu chegar perto nenhuma vez.

  • 2002

Previsão: 2,4%
Realidade: 2,66%

  • 2003

Previsão: 1,94%
Realidade: 1,15%

  • 2004

Previsão: 3,55%
Realidade: 5,71%

  • 2005

Previsão: 3,5%
Realidade: 3,16%

  • 2006

Previsão: 3,5%
Realidade: 3,96%

  • 2007

Previsão: 3,5%
Realidade: 6,09%

  • 2008

Previsão: 4,5%
Realidade: 5,17%

  • 2009

Previsão: 2,4%
Realidade: -0,33%

  • 2010

Previsão: 5,2%
Realidade: 7,53%

  • 2011

Previsão: 4,5%
Realidade: 2,73%

  • 2012

Previsão: 3,34%
Realidade: 1,03%

  • 2013

Previsão: 3,3%
Realidade: 2,49%

  • 2014

Previsão: 2%
Realidade: não deve chegar a 1%

Esse levantamento foi feito pela consultoria Ponto Futuro e considerou a previsão para o PIB feita com um ano de antecedência, ou seja: o que os economistas previam, no final de 2001, para o PIB de 2002, e assim por diante.

Esta é a previsão mais importante, afirma o sócio-fundador da consultoria, Guilherme Lima. Segundo ele, é nesse momento que os investidores estão se planejando para o ano seguinte e buscam as projeções para tomar decisões de investimento.

Por que os analistas não acertam?

Lima sugere algumas hipóteses para tentar explicar por que as previsões do mercado para o PIB têm ficado menos "confiáveis" de 2008 para cá.

- Coincidência: Pode ter sido pura sorte o fato de os economistas terem acertado algumas previsões antes de 2008, e puro azar que os tenha feito errar tanto depois. Para os mais céticos, no entanto, há outras explicações.

- Ajustes são insuficientes: Uma das hipóteses é de que os ajustes feitos nas previsões estejam sendo insuficientes. Em geral, as previsões feitas com dois anos de antecedência passam longe do resultado final; já as previsões feitas um ano antes chegam mais perto, mas não o bastante. 

Por exemplo: no final de 2006, os analistas achavam que o país iria crescer 3,5% em 2008; no final de 2007, diante de um novo cenário, eles decidiram ajustar essa projeção, para 4,5%; no fim das contas, o PIB cresceu 5,17% em 2008.

Isso pode indicar que os economistas conseguem ajustar suas projeções às tendências gerais da economia, conforme o tempo passa, mas não acertam o tamanho desse ajuste.

- Comportamento de "manada": Em termos práticos, as projeções são o ganha-pão dos economistas e consultores, pois são vendidas aos investidores que querem ajuda para direcionar melhor seus recursos. Apesar de as projeções serem anônimas, a maioria das consultorias divulga suas estimativas em boletins para clientes ou em seus próprios sites.

Dessa forma, é menos arriscado uma consultoria "errar com todo mundo" do que "acertar sozinha". Se for o "ponto fora da curva", corre o risco de "acertar sozinha", mas também de "errar sozinha". Essa segunda possibilidade seria tão prejudicial para a reputação da empresa no mercado que o caminho mais seguro acaba sendo seguir a "manada".

- Otimismo artificial: Segundo Lima, na maioria dos casos as previsões não consideram eventos catastróficos, que afetam diretamente o comportamento dos indicadores analisados. Embora seja difícil prevê-los, esses fenômenos acontecem com uma frequência muito grande para serem totalmente ignorados.

"Para 2015, por exemplo, não nos parece que os números de PIB 'de consenso' incorporem a possibilidade de falta de energia e água nos maiores polos econômicos do país, ou de uma crise financeira relevante em grandes países emergentes (há vários candidatos), entre outros eventos 'imprevisíveis'", diz Lima.