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Bela Vista, 100, larga maria-mole, suspiro e furgão e agora só faz biscoito

Letícia Marçal

Do UOL, em São Paulo

21/05/2015 06h00Atualizada em 21/05/2015 22h00

Suspiros coloridos, maria-mole, picolé de banana, teta-de-nega e chicletes Balão Mágico. Quem viveu em São Paulo entre as décadas de 1940 e 1980 deve lembrar desses doces e dos furgões verdes com o logo "Bela Vista" que circulavam por aí fazendo a distribuição das guloseimas.

A fábrica paulistana Bela Vista completa cem anos em 2015 e hoje é mais conhecida pelos biscoitos salgados Tuc's. As caminhonetes verdes e os doces que alegraram a infância de muita gente não existem mais.

De pequena confeitaria a grande fábrica

O nome vem do bairro paulistano Bela Vista, no centro, onde uma confeitaria começou a funcionar em 1915, sob os cuidados do italiano Nicola Infante.

Em suas carroças, vendedores abasteciam as mercearias e pequenas vendas com caramelos, rapaduras, entre outros doces caseiros produzidos na Bela Vista. 

O português Joaquim Maria de Almeida destacou-se entre os vendedores e veio a comprar a fábrica, em 1938, em sociedade com mais dois amigos, por 80 contos de réis. Em 1969, Almeida comprou a parte dos sócios e passou a ser o único dono da empresa.

Da Bela Vista para o Canindé

Em 1940, a Bela Vista mudou-se para o bairro do Canindé. Outras fábricas do ramo também seguiriam o mesmo caminho, fazendo com que o local passasse a ser conhecido como "bairro doce".

A Bela Vista é a única fabricante que se mantém no local até hoje. O característico cheiro doce também continua lá e pode ser sentido a vários quarteirões de distância.

Furgões verdes circulando por aí

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Imagem: Divulgação

Por volta da década de 1940, a distribuição dos produtos começou a ser feita por furgões verdes Chevrolet ou Mercedes, com o logo "Bela Vista". A empresa financiava as caminhonetes e as entregava a vendedores que, pagando com seu trabalho, tornavam-se donos dos automóveis.

"Você conhece Minas Gerais? Toma esse furgão e vai lá desbravar esse lugar". Assim era feita a distribuição dos trabalhos, conta Laet Maraia de Almeida, hoje vice-presidente da Bela Vista, filho do português Joaquim Maria de Almeida.

Os furgões verdes ultrapassaram as fronteiras de São Paulo e foram conquistando freguesia em outros Estados. Na década de 1960, os produtos Bela Vista já estavam em todos os Estados brasileiros.

A frota de automóveis verdes funcionou até por volta da década de 1980. 

Logo depois, na década de 1990, também circulavam por aí os caminhões estampados com a marca de biscoito Tuc's.

Não tão conhecidos quanto os furgões verdes, eles fizeram a distribuição dos biscoitos por cerca de dez anos. A frota pertencia à Bela Vista. 

Hoje, o processo de logística é terceirizado.

Diversificação de produtos

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Imagem: Divulgação

Durante esses cem anos, o cardápio de guloseimas passou por uma metamorfose, sofrendo os efeitos da industrialização. Doces caseiros, que a princípio eram preparados em tachos, passaram, aos poucos, a se adequar a uma linha de produção.

De olho no mercado, a empresa inventou e fabricou diversos produtos, que foram saindo de linha ao longo desse século de existência.

Doces, balas e pirulitos foram os principais artigos até por volta da década de 1980. A partir de então, a produção passou a ser focada em biscoitos, e a fabricação de doces foi chegando aos poucos a zero.

Foi naquela época, na década de 1970, que nasceram os biscoitos salgados Tuc's, hoje o carro-chefe da empresa.

"Queríamos produzir algo que tivesse mais valor agregado e fosse considerado alimento", afirma Laet de Almeida. "Em tempos de crise, as pessoas podem deixar de comprar doces, mas vão comprar biscoitos. São baratos, fáceis de consumir e sustentam, pois têm valor nutricional", diz o filho do fundador da empresa.

E acrescenta: "Nas guerras, um pacote de biscoito é quase um kit de sobrevivência".

Foco nos biscoitos e linha com ingredientes naturais

Hoje a Bela vista só produz biscoitos (doces e salgados). Os produtos se dividem em três linhas:

  • Tuc's: biscoitos salgados, que respondem por cerca de 40% da produção;
  • Fazendinha: feita para as crianças, oferece opções de biscoitos doces com e sem recheio, wafers e cookies;
  • Linha Bela Vista: tem biscoito de maisena, água e sal, cream cracker, biscoitos amanteigados de diferentes sabores, biscoitos recheados, wafer, cookies e pão de mel.

Dentro dessa última linha, foi lançada neste ano a marca Ecoo, que usa ingredientes naturais. São rosquinhas integrais nos sabores chocolate, coco e cenoura, laranja e mel.

Das carroças para a fábrica moderna

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Imagem: Divulgação

A empresa que começou com entrega em carroças hoje cresceu muito. Os produtos Bela Vista estão presentes em todos os Estados brasileiros. A companhia está hoje entre as 15 maiores empresas nacionais e é a quarta maior exportadora de biscoitos do Brasil.

O faturamento de 2013 foi de R$ 116 milhões e, em 2014, de R$ 132 milhões. Para 2015, a meta é de R$ 160 milhões e, até 2017, espera-se chegar a um faturamento anual de R$ 220 milhões. A empresa não informa o lucro.

A produção anual deve passar das atuais 30 mil toneladas para 40 mil até 2017, estima a fabricante.

De acordo com Jorge Conti, diretor-executivo da Bela Vista, o faturamento vem crescendo e dobrou nos últimos três anos. 2015, no entanto, deve ser um ano atípico, devido à crise.

"Neste ano o ritmo de crescimento tem sido menor que o visto nos últimos anos devido à crise econômica. Mas, ainda assim, com crescimento", diz Conti. "No segundo semestre, devemos retomar um crescimento um pouco maior." 

Economia