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Inflação: vovós que foram fiscais do Sarney voltam a vigiar preços em Minas

Arquivo Pessoal
Lúcia Pacífico: à esquerda, nos anos 1980, durante o Plano Cruzado; à direita, atualmente Imagem: Arquivo Pessoal

Carlos Eduardo Cherem

Colaboração para o UOL, em Belo Horizonte

2016-03-14T06:00:00

2016-03-11T20:30:02

14/03/2016 06h00

Depois de 30 anos, as "fiscais do Sarney" estão de volta na capital mineira. Prancheta e planilha nas mãos, visitam supermercados de Belo Horizonte pesquisando preços de alimentos, produtos de limpeza e de higiene pessoal.

Óleo, açúcar, café, batata, sabão em pó e desinfetante são alguns dos produtos na mira das "vovós". A proposta é divulgar semanalmente a comparação de preços no site do Movimento de Donas de Casa de Belo Horizonte (link encurtado e seguro: http://zip.net/bgs0Lq)

"Antes era muito difícil. Os comerciantes diziam que éramos desocupadas e que deveríamos ficar olhando os filhos em casa. Tínhamos de pedir para entrar. Um preconceito enorme", conta a líder do movimento, Lúcia Pacífico. "Hoje está mais fácil fazer nosso trabalho."

Época de preços congelados

O grupo das donas de casa mineiras, um dos primeiros desse tipo no país, foi criado em 1983, três anos antes do lançamento do Plano Cruzado pelo presidente José Sarney (PMDB).

Naquele ano, o governo congelou os preços e passou a divulgar a "tabela da Sunab", publicada nos jornais e fixada nos supermercados, mostrando quanto cada coisa deveria custar.

Jorge Araújo/Folhapress
Imagem: Jorge Araújo/Folhapress

Com a tabelinha em mãos, os consumidores (em geral, senhoras, donas de casa) checavam se os preços estavam sendo respeitados e usavam megafones para protestar na porta dos supermercados.

O estabelecimento que descumprisse a tabela de preços era fechado.

Rogério Carneiro/Folhapress
Imagem: Rogério Carneiro/Folhapress

A volta das 'fiscais do Sarney'

"Éramos todas fiscais do Sarney. Não fechamos nenhum supermercado, mas chegamos a fechar um açougue que não cumpria a tabela", lembra Lúcia.

Na época da criação do grupo, ela tinha 47 anos, marido e quatro filhos. Hoje, aos 80, além de marido, filhos, noras e genros, tem sete netos e três bisnetos.

Antonio Lúcio/Estadão Conteúdo
Imagem: Antonio Lúcio/Estadão Conteúdo

Ela não está sozinha. Cacilda Maria Almeida e Darcy Mattos de Azevedo também são "vovós" que voltaram a visitar supermercados de Belo Horizonte para comparar preços, mesmo trabalho que prestaram há mais de 30 anos.

Na época em que o Movimento de Donas de Casa começou, Cacilda tinha 40 anos e cinco filhos. Atualmente, tem 73 anos e seis netos. Darcy tinha 45 anos; hoje tem 78 e quatro netos.

A volta da inflação

Desde a criação do Plano Real, em 1994, o movimento havia suspendido a checagem de preços. "O foco do movimento voltou-se para outras questões das mulheres, como profissionalização, e direitos do consumidor", diz Lúcia.

Preocupadas com um possível descontrole na alta dos preços, ela e as companheiras voltaram, neste ano, a fazer pesquisas em supermercados da capital mineira. "Já vimos essa história. Ela [a inflação] começa devagar e logo está corroendo nossos salários."

"[A inflação] tinha melhorado, mas agora está começando a piorar. Não podemos ficar paradas", diz Cacilda.

"Temos necessidade de conter os preços, inclusive porque o desemprego está alto e a renda das famílias diminuiu", afirma Darcy.

O Movimento de Donas de Casa em Belo Horizonte tem cerca de 5.000 filiadas e 100 militantes, segundo a presidente. Cada filiada contribui com uma taxa anual de R$ 50 para a entidade.

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