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57 g de batata e 269 ml de cerveja: por que marcas usam medidas quebradas?

Colaboração para o UOL, em Belo Horizonte

25/02/2018 04h00

Num passeio atento pelo supermercado, o consumidor pode encontrar embalagens com 41,5 gramas de chocolate, 57 gramas de batata frita, 237 mililitros de refrigerante ou 269 mililitros de cerveja.

Afinal, por que as marcas adotam medidas "quebradas", especialmente para alimentos e bebidas, em vez de oferecerem produtos com peso ou volume "redondo"?

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Segundo especialistas e empresas ouvidas pelo UOL, há várias explicações:

1. Produto internacional

Em muitos casos, trata-se de uma marca internacional. Na hora de converter uma medida de outro país para o Brasil, o resultado é um número quebrado. É o caso da medida onça, usada sobretudo nos EUA e na Inglaterra, para medir peso e volume.

Os volumes têm esses valores quebrados porque são baseados em unidades de medidas internacionais. Na conversão, 237 ml são 8 oz [onças], 473 ml são 16 oz.

Assessoria de imprensa da Ambev

De acordo com a assessoria de imprensa da Coca-Cola, os volumes quebrados geralmente derivam de conversões do sistema norte-americano de litragem.

“Como algumas vezes importamos desenhos técnicos da matriz em Atlanta (EUA) ou utilizamos matrizes produtivas de fornecedores norte-americanos, é inevitável seguir com volumes quebrados”, disse a empresa em nota.

Segundo o economista e professor da Unicamp Gustavo Aggio, a indústria procura manter o tamanho original do produto por uma questão de marketing e para garantir a fidelidade dos consumidores. Em geral, as empresas começam importando o produto e, depois, quando começam a fabricá-lo no Brasil, acabam mantendo o tamanho.

2. Maquinário importado e ingredientes

O maquinário usado na fabricação desses produtos internacionais também interfere.

"(...) os equipamentos de linha são importados, e são fabricados e projetados em unidades de medidas internacionais", segundo a assessoria de imprensa da Ambev. A fabricante não comentou se as máquinas poderiam ser reprogramadas para atender ao sistema de medidas do Brasil.

Há também outro motivo tecnológico, de acordo com a Nestlé: "Uma lata ou um frasco, quando preenchido pelo produto, pode ficar com o peso fracionado". A empresa também cita o caso específico dos chocolates: dependendo dos ingredientes, dois chocolates feitos no mesmo molde podem ter pesos diferentes.

Por exemplo: um tablete sem adições de castanha pode ter um peso diferente do mesmo chocolate, só que com castanhas.

Assessoria de imprensa da Nestlé

3. Novos hábitos de consumo

A indústria também tem que alterar o tamanho dos produtos para se adaptar às mudanças na sociedade e aos novos hábitos de consumo, segundo especialistas. 

"As famílias estão diminuindo de tamanho. As indústrias, com isso, praticam uma espécie de 'tentativa e erro' para definir o tamanho do produto", diz o economista Gustavo Aggio. Há também ajustes feitos de acordo com cada região, segundo Aggio: um fabricante de refrigerante, por exemplo, pode apostar em um tamanho único para se diferenciar dos demais e criar uma identidade com o consumidor local.

Há também uma série de fatores que influenciam o tamanho das embalagens, segundo a diretora executiva da Abre (Associação Brasileira de Embalagem), Luciana Pellegrino. 

A porção individual, a conveniência da embalagem no transporte do produto, a embalagem funcional que ajuda na dosagem, o custo-benefício do modo de abrir e fechar a embalagem, são muitos aspectos levados em consideração que podem fazer com que o produto tenha um peso quebrado.

Luciana Pellegrino, diretora da Associação Brasileira de Embalagem

4. Driblar aumento de preços

Essas medidas quebradas, em alguns casos, podem servir para disfarçar um aumento de preço: o consumidor leva menos produto para casa (em geral, sem perceber), mas continua pagando a mesma coisa. 

Em algumas situações, os pesos quebrados foram adotados para disfarçar uma redução do tamanho, sem modificação do preço. Um aumento de preço maquiado, disfarçado, que o consumidor muitas vezes não percebe.

Gustavo Aggio, economista e professor da Unicamp

"Na década de 1990, tivemos caso de empresa que reduziu o rolo de papel higiênico em dez metros, sem avisar ao consumidor", diz Aggio. Em 2002, foram criadas regras determinando como as empresas devem informar esse tipo de mudança em suas embalagens.

Para Luciana Pellegrino, fatores econômicos também podem levar à mudança nas embalagens. "Uma maior capacidade de consumo da população, ou uma menor capacidade, em determinado período, pode fazer com que haja necessidade de adaptação também de conteúdo [tamanho] dos produtos."

Consumidor não liga para isso

A questão da quantidade afeta pouco a decisão do consumidor, afirma o economista Gustavo Aggio. 

O consumidor vai comparar o produto, não o peso ou o volume. A quantidade de gramas de uma barra de chocolate, por exemplo, influencia pouco na decisão da pessoa para comprar ou não.

Gustavo Aggio, economista e professor da Unicamp

Tamanho padrão só para a cesta básica

Apenas os produtos que fazem parte da cesta básica --como macarrão, arroz, feijão e café-- são considerados de "grande circulação no mercado" e precisam seguir determinado padrão de peso ou volume. Essa padronização da medida ajuda o consumidor a comparar os preços na hora da compra. 

Os demais produtos não precisam seguir padrão, mas é obrigatório que o valor informado na embalagem seja realmente aquele que o consumidor leva para casa. Quem fiscaliza isso é o Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia). 

Eles podem ser comercializados com qualquer valor de conteúdo nominal, como, por exemplo, 37 g ou 113 g. O importante é que a indicação do produto feita pelo fabricante corresponda ao conteúdo efetivo do produto.

Patrícia Sampaio, do Inmetro

Outras empresas não comentam

Procurados pela reportagem do UOL, as seguintes fabricantes não quiseram comentar: Bauducco, Ferrero, Hershey's, Mars, Mondeléz e Pepsico.

(Reportagem Carlos Eduardo Cherem; edição Maria Carolina Abe)

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