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Café gourmet faz sucesso, e gigantes como Coca e Nestlé aproveitam moda

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Imagem: iStock

Luciana Franco

Colaboração para o UOL, em São Paulo

09/05/2018 04h00Atualizada em 11/05/2018 18h56

Gigantes do mundo estão se movimentando para participar mais do mercado de café gourmet -uma moda que também se amplia no Brasil. Na segunda-feira (7), a Nestlé anunciou o investimento de US$ 7,15 bilhões (R$ 25,5 bilhões) para vender produtos da Starbucks. A Nestlé já é dona das marcas Nespresso e Nescafé.

Também no Brasil a Nestlé está se movimentando. A Coca-Cola, a 3Corações e a JDE, dona de várias marcas no mercado brasileiro (como Pilão, Café do Ponto, Caboclo e L'OR), também lançaram produtos. As empresas estão ampliando a produção de itens de qualidade superior, investiram em novas campanhas de marketing e desenvolveram produtos exclusivos para diferentes canais de distribuição.

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Cliente quer mais qualidade e paga por isso

O objetivo é aproveitar a moda e atrair o consumidor de produtos mais caros e de melhor qualidade, um nicho mais recente no país.

“O consumidor está mais conhecedor de café, exigente em relação à qualidade e também disposto a pagar melhor por um produto de qualidade superior”, diz Nathan Herszkowicz, diretor executivo da Associação Brasileira da Industria de Café (Abic) e do Sindicato da Industria de Café do Estado de São Paulo (Sindicafé). “Nunca tantos investimentos foram realizados em tão pouco tempo na indústria de café.” 

Starbucks também teve novidades no Brasil

Além do anúncio da venda de direitos de comercialização global para a Nestlé, a Starbucks teve novidades também no Brasil. O fundo de investimentos South&Rocks comprou a operação brasileira da Starbucks, com 117 lojas, e avisou que vai acelerar o crescimento da rede no país, com a abertura de cem novas lojas nos próximos anos.

Coca-Cola estreia no setor com marca Leão

A Coca-Cola apostou na marca Leão para estrear no segmento e desenvolveu um produto com dois tipos de torra (média e escura), comercializados em embalagens de 200 e 500 gramas, em grãos ou em pó.

Nestlé vai dobrar capacidade de cápsulas

A Nestlé, que fabrica as cápsulas da marca Dolce Gusto, anunciou investimentos de R$ 200 milhões para dobrar a capacidade instalada de 400 milhões para 800 milhões de doses por ano.

A empresa suíça é líder no Brasil em vendas de café solúvel com a marca Nescafé e recentemente apostou também na criação de um blend de café torrado e moído, o “nescafé espresso”, oferecido a partir de máquinas instaladas em empresas, padarias e lanchonetes.

Cápsulas compatíveis e camisas de Neymar

A JDE, da Holanda, dona das marcas Pilão, Café do Ponto, L’OR, Caboclo, Damasco, Seleto, Pelé e Moka, lançou no ano passado novas opções do Café do Ponto. Também no ano passado trouxe sua marca francesa L’OR com cápsulas de alumínio compatíveis com as máquinas da Nespresso.

A estratégia da JDE inclui o jogador Neymar como garoto-propaganda. Para marcar seus 40 anos, o café Pilão lançou a promoção “Camisas do Neymar Jr.”, com quatro modelos, contando a história do atleta por meio dos números das camisas que ele vestiu ao longo de sua carreira.

Cafés especiais e ampliação de fábrica

A 3Corações, criou uma linha de cafés especiais chamada Reserva da Família, do rótulo Santa Clara, líder no segmento torrado e moído nas regiões Norte e Nordeste.

A Reserva da Família é certificada pela Brazil Specialty  Coffee  Association (BSCA) como café especial, terminologia diferente da usada pela Associação Brasileira da Industria de café (Abic), que adotou para os produtos de alta qualidade o termo café gourmet.

A 3Corações também anunciou que vai ampliar sua fábrica de cápsulas da marca Três, localizada na cidade de Montes Claros (MG).

Entenda as qualidades diferentes de café

Desde 2004, um programa da Abic certifica a qualidade do café segundo as características sensoriais da bebida, como sabor, corpo, aroma, acidez, sabor residual, amargor e a influência dos grãos defeituosos (menos maduros ou verdes).

Após a avaliação, os produtos são distribuídos em três categorias, segundo uma escala de notas que vai de zero a dez pontos, mas que na prática se inicia em 4,5 pontos. “Abaixo dessa nota, não certificamos o café”, declara Herszkowicz.

Nessa classificação da Abic, os cafés conhecidos como tradicionais recebem nota de 4,5 a seis. Se o produto tiver nota entre seis e 7,3, é considerado um café superior, e acima de 7,3 pontos é um produto gourmet.

Mas existem classificações diferentes, feitas por outras entidades, como a BSCA, que chama os cafés de mais qualidade de "especiais".

Para obter o selo BSCA, o produtor deve inicialmente certificar sua propriedade, pois essa é a garantia de que o café foi produzido dentro dos requisitos ambientais, sociais e econômicos exigidos pela entidade.

Depois disso, o produtor envia amostras de suas safras para serem avaliadas por degustadores cadastrados na associação. As amostras são avaliadas quanto ao tipo, cor, aspecto, peneira e torra dos grãos.

Posteriormente é realizada a avaliação dos grãos torrados e moídos quanto a limpeza, doçura, acidez, corpo, sabor e gosto remanescente da bebida. Nessa etapa, o produto deve obter pontuação maior ou igual a 80 para ser certificado como café especial.

Outras duas grandes entidades internacionais, a UTZ e a Rainforest Alliance, que certificam o café por meio de parâmetros que incluem boas práticas agrícolas, respeito aos trabalhadores e sustentabilidade, não classificam o produto como especial ou gourmet, mas garantem a sua qualidade.

As empresas se uniram em janeiro deste ano e formaram a Rainforest Alliance, que permanecerá protegendo a agricultura sustentável através da produção responsável e de qualidade.

Só 6% dos cafés são considerados gourmets pelo selo Abic

Hoje, 90% do café comercializado no mercado brasileiro ainda é o bom e velho café tradicional (um produto caracterizado pelo preço acessível e qualidade aceitável), outros 4% são cafés superiores e 6%, cafés gourmet.

De acordo com levantamento da Abic, a média de preços na prateleira dos supermercados de São Paulo para um pacote de 500 gramas (que rende até 120 xícaras) é de R$ 10,50 para o produto tradicional, de R$ 15,59 para o café superior e de R$ 30 para o gourmet. É essa pequena diferença, de R$ 5, que tem feito o consumidor optar cada vez mais pelo produto superior em detrimento do tradicional.

“Para o consumidor, a diferença entre os R$ 10 e R$ 15 é pequena, e a qualidade melhor justifica a compra. Cenário muito bom também para a indústria que tem no café superior uma rentabilidade muito melhor que a obtida com a venda do produto tradicional”, afirma Herszkowicz.

De acordo com o executivo, é o advento das cápsulas que está ajudando a construir um novo padrão para o café. “Elas aliam praticidade, conveniência e alta qualidade.”

(Edição de texto: Armando Pereira Filho)

CORREÇÃO - A versão original deste texto informava incorretamente que o café Pilão é o dono das marcas Café do Ponto e L'OR. O correto é que são todas marcas do mesmo grupo, comandado pela holandesa JDE, também dona das marcas Caboclo, Damasco, Seleto, Pelé e Moka. Também informava erradamente que o jogador Neymar é garoto-propaganda da L'OR, mas ele é do café Pilão. A linha de cafés Reserva da Família, da 3Corações, não é classificada pela Abic como "superior", mas pela Brazil Specialty Coffee Association (BSCA) como "especial".

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