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País exporta cabelo, e maior destino é Israel, para cobrir cabeça de mulher

Lucas Gabriel Marins

Colaboração para o UOL, em Curitiba

11/08/2018 04h00

Soja, petróleo, minério de ferro e carnes são produtos conhecidos da pauta de exportação do Brasil. Mas o país também manda para fora alguns itens inusitados, como cabelo humano. Israel compra quase tudo.

Em 2017, segundo o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC), 1.616 quilos de madeixas naturais foram exportadas, o triplo do montante registrado no ano anterior. O valor de venda no período chegou a US$ 724,6 mil (R$ 2,78 milhões) FOB (preço sem incluir frete, seguro e outros custos de transporte).

Desse total, 1.600 quilos de fios (99% do total) tiveram como destino Israel. O restante (1%) foi para os Estados Unidos.

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Judias ortodoxas protegem os cabelos

A concentração em Israel se explica pela religião. Segundo o empresário José Alvino Godoi, pioneiro no mercado de compra e venda de fios capilares de Curitiba (PR), o interesse ocorre por causa da tradição judaica de cobrir os cabelos das mulheres.

As mulheres adeptas do judaísmo ortodoxo costumam usar perucas. “A mulher cobre seu cabelo após casar para demonstrar seu estado de comprometimento com um único homem com quem é casada, e não atrair a atenção de outros homens sobre si”, diz o site da Associação Israelita Beit Chabad Central, representante da vertente ortodoxa aqui no Brasil.

Em Israel, há 6,4 milhões de judeus. Desse total, de acordo com pesquisa divulgada em 2016 pelo think tank norte-americano Pew Research Center, 50% se identificam como parte dessa vertente.

"Zé do cabelo" compra 50 quilos por mês

47% do cabelo exportado sai de Santa Catarina e do Paraná. “O cabelo europeu é um dos mais procurados, pois é escasso, e como aqui existe bastante descendente deles e mistura de raças, a região se destaca no cenário”, disse Godoi, mais conhecido em Curitiba como Zé do Cabelo.

Ele compra, em média, 50 quilos de cabelo por mês. Dependendo do tipo de fio, Zé paga entre R$ 150 e R$ 3.000 por corte de cabelo (cerca de 150 gramas). A margem de lucro é de 25% em cima da venda. O faturamento mensal de sua empresa, a Casa do Cabelo, é de R$ 500 mil; o lucro é R$ 50 mil.

Zé disse que, atualmente, os maiores compradores são pessoas que passam pela rua e entram na loja; apenas 5% do seu faturamento é proveniente do mercado exterior. “Há uns cinco anos, no entanto, a venda para fora representava 50%, algo que diminuiu bastante por causa da concorrência”, declarou.

No Salão Paulista, também em Curitiba, 30% das vendas mensais (R$ 30 mil) são decorrentes de exportação.

Cabelo tipo exportação pode ser comprado por até R$ 4.000

Mas como é esse cabelo “tipo exportação”? Segundo as empresas, os fios precisam ser naturais e sedosos, lisos ou encaracolados, e sem nenhum tipo de química. Se recebeu tinta ou algo do tipo, o preço cai de 60% a 70%.

Por um cabelo modelo internacional, com 150 gramas e tamanho entre 35 e 40 centímetros, os empresários pagam entre R$ 300 e R$ 500; de 50 centímetros, R$ 1.000. Os maiores podem render até R$ 4.000 para o vendedor, segundo eles.

Exportações podem ser bem maiores

Tanto Zé como o Paulista não enviam o cabelo diretamente para o exterior. Existe um intermediário, identificado pela reportagem do UOL, mas que não quis se revelar.

Segundo ele, a quantidade de cabelo enviado para o exterior é bem maior do que a registrada pelo governo federal. “O total exportado anualmente varia entre 10 mil e 17 mil quilos, mas não há como saber o número exato porque não existe associação, cartel ou sindicato e não tenho intimidade com os concorrentes”, declarou.

Dependendo da qualidade e do comprimento, disse ele, o preço pago por quilo lá fora varia entre US$ 750 (R$ 2.837,32) e US$ 2.800 (R$ 10.592).

Receita apreendeu quase 2.000 quilos de cabelo em 2017

O cabelo natural, segundo a auditora-fiscal da Receita Federal Andréa Kátia Ishitani, que é inspetora-chefe do Aeroporto Internacional de Curitiba, deve receber “tratamento tributário de bagagem aplicado às bagagens com destino ao exterior, sendo preciso declarar. Se não for, pode ser considerado mercadoria irregular e ser apreendido”, disse.

No ano passado, 365 quilos de cabelos foram apreendidos apenas nos aeroportos do Paraná (importação e exportação). Incluindo apreensões em rodovias, correios, portos, transportadoras e na Ponte Internacional da Amizade, o total foi de 1.756 quilos, o equivalente a R$ 1,1 milhão, segundo cálculos da Receita.

“A maior parte do cabelo natural apreendido no Brasil é o que entra de forma ilegal. Para ser aceito no país corretamente, é preciso pagar o imposto sobre importação (8%) e ter autorização da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária], já que é um produto in natura”, disse.

Índia é a grande exportadora mundial de cabelo

Blogs especializados em perucas, como o Mundo Lace Wig, têm diversos posts sobre a qualidade do cabelo brasileiro, que, por ser “grosso e embaraçar pouco, está bombando lá fora e virando o queridinho”.

Apesar do aumento da procura de fios de nacionais, o mercado daqui não chega nem perto dos grandes traders da indústria do cabelo humano, como a Índia.

O país exporta todos os anos cerca de 4.000 toneladas de fios, movimentando por volta de US$ 800 milhões (R$ 3,02 bilhões), segundo o jornal indiano "The Economic Times".

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