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Minério mais caro deve ajudar Vale, mas multas e indenizações geram dúvida

Téo Takar

Do UOL, em São Paulo

30/01/2019 16h30

A Vale reduziu a incerteza do mercado sobre o impacto que a tragédia de Brumadinho terá sobre seus negócios, afirmam analistas. A companhia anunciou, na terça-feira (29) à noite, que vai desativar as barragens de rejeitos construídas pelo método a montante. A medida deve provocar uma redução temporária de 10% na produção de minério de ferro da companhia.

Analistas avaliam que essa redução poderá ser compensada pelo aumento na produção de outras unidades ou pela alta do preço do minério no mercado internacional. Por outro lado, permanece a dúvida sobre qual será o efeito dos processos, multas e indenizações com os quais a empresa terá que arcar por causa da tragédia em Minas Gerais.

Passados quatro dias do rompimento da barragem I da Mina do Feijão, em Brumadinho (MG), o presidente da Vale, Fabio Schvartsman, apresentou um novo plano de segurança, que prevê o descomissionamento, ou seja, o esvaziamento de todas as 10 barragens de rejeitos a montante que a companhia ainda possui. Outras nove desse mesmo tipo já foram desativadas pela empresa desde o desastre de Mariana, cuja barragem também era a montante. Ao todo, a Vale possui 133 barragens de rejeitos.

Sob pressão

"É evidente que a empresa reagiu à pressão do governo, que falou: 'olha, isso não pode acontecer de novo', e ameaçou destituir a direção da companhia", afirmou Pedro Galdi, analista da corretora Mirae.

"O governo não pode ir lá e tirar o presidente da Vale. Mas os fundos de pensão fazem parte do Conselho da empresa. O governo exerce poder indiretamente", disse Galdi.

Produção menor, mas preço maior

Para execução do plano de segurança, que receberá investimentos de R$ 5 bilhões, a Vale terá que suspender as atividades no entorno das barragens que serão desativadas, o que levará a uma redução temporária de 40 milhões de toneladas na produção de minério de ferro e de 11 milhões de toneladas de pelotas.

Esse volume equivale a 10% da produção total de minério da companhia. A redução ocorrerá durante um período de um a três anos, que é o tempo necessário para desativar as barragens. O início de execução do plano ainda depende da obtenção de licenças dos órgãos ambientais.

"Do ponto de vista de produção, a Vale tem flexibilidade para compensar essa redução com aumento na oferta de minério outras minas", afirmou Galdi.

Além disso, como o preço do minério de ferro subiu forte no mercado internacional nos últimos dias, haverá uma compensação da queda na produção, sem prejudicar a receita. "A empresa perde na quantidade, mas ganha no preço", disse Galdi. 

O minério de ferro negociado no porto chinês de Qingdao --referência mundial de preço para o produto-- saltou 4,88% após o anúncio da redução da produção da Vale, atingindo US$ 82,53 por tonelada.

Multas e indenizações ainda são dúvida

"O anúncio sobre as barragens ajuda a mitigar a preocupação em relação ao impacto do acidente de Brumadinho sobre a produção no curto e médio prazos. Mas, ainda permanece a incerteza em relação aos potenciais processos judiciais", disse Karel Luketic, analista da XP Investimentos, em relatório enviado aos clientes da corretora.

"Os danos materiais, as multas, as indenizações, tudo isso é um grande 'kinder ovo'. Ninguém sabe o tamanho da surpresa que ainda está por vir", afirmou Galdi. Por enquanto, a Vale já recebeu multas da ordem de R$ 400 milhões. A Justiça solicitou o bloqueio de R$ 12 bilhões nas contas da mineradora.

Além disso, a empresa deverá sofrer processos tanto de investidores brasileiros como estrangeiros, exigindo ressarcimentos por causa da forte queda no preço das ações e da suspensão no pagamento de dividendos.

"Os advogados já estão se organizando. A imagem da companhia está muito arranhada. Como acontece novamente um desastre desses apenas três anos após Mariana?", afirmou Galdi.

Licenças mais caras e demoradas

Galdi afirmou que, no médio prazo, as exigências para licenciamento ambiental de empreendimentos como barragens e minas de extração de minério deverão aumentar, o que também acarretará em custos extras para a companhia.

"O que se espera, depois dos episódios de Mariana e Brumadinho, é que as fiscalizações sejam intensificadas e que a concessão de licenças seja mais rigorosa", disse o analista da Mirae.

Estrangeiros podem vender mais ações

Analistas do banco UBS alertaram que as ações da Vale poderão sofrer uma nova onda de vendas nos próximos dias caso as principais agências de classificação de risco --S&P, Moody's e Fitch-- rebaixem a nota da companhia abaixo do nível de grau de investimento, que funciona como um selo de bom pagador.

De acordo com os analistas Andreas Bokkenheuser, Marcio Farid e Cleve Rueckert, diversos fundos estrangeiros somente podem investir em empresas que possuem grau de investimento de pelo menos duas agências.

Na segunda-feira (28), a Fitch cortou a nota da Vale em dois degraus, de BBB+ para BBB-, último nível de grau de investimento, e colocou a nota em perspectiva negativa, ou seja, agência poderá realizar novos rebaixamentos. A S&P colocou a nota BBB- da Vale em revisão para possível rebaixamento, assim como a Moody's, que atribui nota Baa3.

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