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"Me senti um lixo por demitir": microempresários contam dramas da crise

Restaurante Hepa teve de demitir três funcionários e fechar salão  - Divulgação
Restaurante Hepa teve de demitir três funcionários e fechar salão Imagem: Divulgação

Ricardo Marchesan

Do UOL, em São Paulo

26/03/2020 04h00

Em meio à crise econômica provocada pela pandemia de coronavírus, os pequenos empresários são alguns dos primeiros a sentir o impacto da menor demanda e circulação de pessoas.

Principalmente os de serviços, como restaurantes, que já registram quedas vertiginosas nas vendas e estão se adaptando para tentar minimizar os prejuízos. Mesmo assim, demissões já começam a acontecer —e a preocupação com a incerteza do que vai ocorrer nos próximos meses só aumenta.

Demitiu três dos sete funcionários

É o caso do Hepa, restaurante que abriu há pouco mais de um ano, na região da Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, no Brooklin, Zona Sul de São Paulo —um dos polos empresariais da capital paulista.

A quarta-feira, 19 de março, foi o último dia em que o salão ficou aberto para atender os clientes. Desde então, estão apenas produzindo e vendendo tortas congeladas para entrega.

A decisão de fechar ocorreu naquele dia mesmo, depois de ver o movimento cair 80% e descobrir que, a partir dali, a maior parte das empresas ao redor passaria a operar no esquema de home office, afetando o principal fluxo de clientes —trabalhadores que iam ao local para almoçar.

"Tomamos a decisão de não abrir porque não teria demanda e para não expor os funcionários à toa", afirma Paulo Fortti Cordeiro, um dos sócios.

Até então, o restaurante tinha sete funcionários, mas tiveram que demitir três deles.

Me senti um lixo (por demitir). Abandonando as pessoas que mais vão precisar da renda
Paulo Cordeiro, sócio do Hepa

"Tive que desligar para garantir não a minha sobrevivência, mas a dos outros empregados. Se eu quebrar, não vou gerar nenhum outro emprego. Se demitir, talvez eu tenha capacidade de voltar a contratá-los no futuro, dependendo de quanto tempo durar essa crise".

Restaurante abriu há um mês

Vanessa de Souza com a família no restaurante que abriram há pouco mais de um mês - Divulgação - Divulgação
Vanessa de Souza com a família no restaurante que abriram há pouco mais de um mês
Imagem: Divulgação

Vanessa Fernandes de Souza abriu com o marido há pouco mais de um mês o restaurante Sophie's BBQ, em Sorocaba, no interior de São Paulo, após dois anos de planejamento. Apenas a construção do espaço demorou cerca de um ano e meio.

"A gente estava abrindo de quinta a sábado. Decidimos começar devagar, sentindo o movimento, um passo de cada vez. A gente iria aumentar os dias nesta semana, mas obviamente mantivemos de quinta a sábado", conta.

Eles também decidiram fechar o atendimento no local nesta semana, funcionando apenas com delivery e retirada, como um drive thru, sem necessidade de sair do carro, segundo Vanessa.

O sistema de entregas a domicílio por meio de aplicativo não estava nos planos até o início da crise. A intenção era vender aos clientes apenas no local. Antes da parada, estavam atendendo uma média de 70 a 80 pessoas por dia.

Mesmo com pouco tempo de funcionamento, ela afirma que já conseguiam ter lucro.

"A penúltima semana tinha sido ótima. Cada semana crescia mais e mais. Aí na passada foi péssimo. Na quinta só tivemos dois clientes. No sábado foram dez, mas só para pegar", afirma.

É tão difícil. A gente está tentando viver dia após dia. Se conseguirmos pagar as contas, estamos felizes.
Vanessa de Souza, sócia do Sophie's BBQ

A ideia para os primeiros meses de funcionamento era criar uma reserva de segurança, o que não deu tempo de fazer. Pouco antes da interrupção tinham comprado um sistema de pagers para comunicar os clientes quando o pedido estava pronto, já que o restaurante não tem garçons para atendimento de mesas, funcionando com retirada no balcão. "Se soubesse que isso iria acontecer, teria segurado (a compra)", afirma.

Por causa desse sistema de atendimento, eles têm apenas dois funcionários, além dela e do marido.

Eram três, mas uma atendente de caixa pediu as contas na semana passada. Além do restaurante, a funcionária trabalhava em um supermercado, que ofereceu mais horas de trabalho a ela após o início da crise. Diante da perspectiva melhor, ela optou por se dedicar integralmente ao supermercado.

Com a queda nas vendas, Vanessa não vai repor a vaga, mas não pretende demitir outros. "Os funcionários são praticamente intocáveis. Teremos que pagar com nossos recursos próprios. São apenas dois, mas o que a gente conseguir contribuir para não ter um caos maior, faremos."

Iria contratar, mas desistiu

Kátia Santos, dona do Tita, que teve de cancelar o plano de expansão - Divulgação - Divulgação
Kátia Santos, dona do Tita, teve de cancelar o plano de expansão
Imagem: Divulgação

Kátia Santos é dona da Tita, rotisserie e restaurante que também é de Sorocaba.

Até semana passada, funcionava das 8h às 20h de segunda a sábado, atendendo uma média 150 pessoas por dia.

Desde então, também mudaram a operação para vender apenas por delivery ou retirada.

"Isso reduziu nosso faturamento em 80%", afirma. "Mesmo com tanta incerteza sobre a transmissão da Covid-19, pensamos que ainda poderia trazer riscos aos nossos colaboradores. Então decidimos fechar as portas por pelo menos duas semanas, antes mesmo do decreto estadual, para avaliar melhor como ficará a situação."

Com 20 funcionários, ela afirma que demissões não estão nos planos, mas diz que precisam que as ações do Governo Federal os ajudem nisso.

É um momento de muita apreensão, porque essa situação não é sustentável em médio prazo
Kátia Santos, dona da rotisserie Tita

Ela conta que, até a semana passada tinham um plano de expansão e estavam selecionando mais quatro funcionários —o que foi congelado por enquanto.

Empresários pedem ação do governo

Os pequenos empresários afirmam que será muito difícil manter seus negócios abertos dependendo da duração da crise, se o governo não editar medidas de apoio.

"O que está acontecendo hoje é insegurança. Ninguém tem segurança do que pode fazer. Insegurança para tomar uma decisão, porque o governo não decide o que quer fazer", afirma Paulo Cordeiro.

O sócio do Hepa diz que, se o governo não tem uma direção clara sobre quais medidas irá adotar, é difícil para os pequenos empresários tomarem decisões e planejarem os próximos passos. Ele cita a medida de suspensão de salários por quatro meses, publicada pelo governo mas que foi abandonada após a repercussão negativa.

"Hoje estou num impasse do que fazer. Isso atrapalha tudo. Porque isso vai determinar o quanto eu posso negociar o meu aluguel, com fornecedores e prestadores de serviço, por exemplo", afirma.

Vanessa de Souza não vê nenhum incentivo muito ativo do governo neste momento, mas diz que entende, "porque a situação é nova".

Kátia Santos acredita que, "no papel", o caminho do governo parece correto, mas também critica a insegurança.

"Ainda temos que avaliar como será na prática, no papel aparentemente está no caminho", diz. "Mas também tem muita insegurança jurídica. Um dia temos uma decisão e no outro dia já não vale mais. Precisa sair logo do papel."

Ela cita medidas que ajudariam neste momento, algumas delas prometidas pelo governo, como suspensões ou prorrogações de impostos e encargos, oferecimento de capital de giro a juros acessíveis, possibilidade de antecipação de férias de funcionários, redução de carga horária com flexibilização de salários e, se necessário, suspensão temporária de contratos

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