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Até liberais, que defendem Estado enxuto, apoiam ajuda do governo

João José Oliveira

do UOL, em São Paulo

28/03/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Crise exige aumento de gasto de governo, defendem economistas de diferentes correntes
  • Situação é especial e por isso aumento de despesas públicas é justificável, dizem economistas
  • Ampliação de gastos de governos não é cheque em branco por tempo indeterminado, dizem liberais

O aumento dos gastos de governos em todo o mundo, incluindo o Brasil, para evitar o colapso econômico com a pandemia de coronavírus é necessário, urgente e inquestionável, afirmam economistas de diferentes correntes de pensamento, um raro consenso no setor.

Mesmo entre os liberais, aqueles que pregam uma presença do Estado limitada a áreas essenciais - como segurança e saúde - há neste momento a avaliação de que os governos têm que aumentar os gastos para evitar fechamento de empresas, o aumento de desemprego e caos social.

Gasto de R$ 500 bilhões

Para o professor-doutor e diretor da Faculdade de Economia e Administração da PUC-SP, Antonio Correa de Lacerda, "é preciso romper paradigmas" para amenizar os efeitos da crise sobre a economia.

Segundo Correa de Lacerda, um economista keynesiano - que defende a afirmação do Estado como agente indispensável de controle da economia -, a adoção de um conjunto de políticas e medidas anticrise por parte do Estado se mostram imprescindíveis neste momento. "Para o Brasil, especialmente, dada a nossa extrema desigualdade regional e de renda, além da vulnerabilidade de milhões de cidadãos, essas medidas se tornam ainda mais cruciais", diz Lacerda, também presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon).

Nas contas de Lacerda, as políticas a serem adotadas no Brasil implicarão um custo da ordem de R$ 500 bilhões, ou o equivalente a 7% do PIB no ano. "Não há obviamente espaço para tal no orçamento público, e será preciso ampliar a dívida pública para fazer frente aos gastos", diz o economista.

Não gastar agora seria muito pior

Segundo Lacerda, por mais expressivo que seja esse montante, a decisão de não usar esses recursos significará um custo econômico e social muito mais elevado. Isso porque o aprofundamento da depressão econômica e seus efeitos, como a quebra de empresas, aumento do desemprego e colapso da renda, também colapsaria a arrecadação tributária. Ou seja, o governo arrecadaria muito menos impostos para rodar a máquina pública.

"Ou seja, a eventual decisão equivocada de não ampliar os gastos imediatamente, além do enorme custo econômico e social, provocaria um forte impacto fiscal negativo", afirma o professor da PUC-SP.

Na hora da crise, Estado precisa gastar

Para o coordenador do Curso de Ciências Econômicas da FAAP e professor das disciplinas de microeconomia e economia internacional nos cursos de Economia, Relações Internacionais e Administração, Paulo Dutra, nos momentos de crise, mesmo os liberais entendem que o Estado precisa intervir e injetar dinheiro na economia.

"O Estado, de forma geral, deve proteger e criar condições para o desenvolvimento socioeconômico de seus cidadãos e, para isso, possui funções básicas como: monopólio da emissão de moeda, arrecadação de tributos, defesa, justiça e segurança pública. No entanto, ele pode atuar de diversas formas sendo mais ou menos interventor na economia e na sociedade", afirma.

Ele cita o caso do governo dos Estados Unidos, que é bem descentralizado, pois os estados possuem graus de autonomia em relação ao executivo federal muito superior ao do Brasil, tanto pela legislação quanto pela estrutura tributária.

"Os governos atuam fortemente na regulação de atividades econômicas, no entanto, não possuem histórico de utilização de instrumentos heterodoxos para o controle das atividades econômicas, ou seja, respeitando a regulação, o instrumento de mercado é o grande gestor da atividade econômica", afirma Dutra.

Segundo ele, no caso da covid-19, apesar de o presidente Donald Trump anunciar a necessidade de retomar a atividade econômica, foi aprovado um pacote fiscal de US$ 2 trilhões.

Não é cheque em branco

"Não é uma questão de dizer que numa situação de crise no capitalismo os liberais entendem que o Estado deva injetar recursos. A questão é que nessa crise em especial, se o Estado não atuar, haverá caos social", afirma a professora de macroeconomia Juliana Inhasz, economista e coordenadora da graduação em economia no Insper.

Segundo ela, trata-se de um movimento estratégico, e não de uma mudança estrutural na visão de qual deve ser o papel do Estado. "Isso é estratégico para que o Estado possa entender o que está acontecendo, para daí definir como deve traçar um plano para que a sociedade possa continuar produzindo. Até os liberais enxergam que nesse tipo de situação, o governo deve ser mais consciente de seu papel", disse a economista.

Inhasz pondera, entretanto, que isso não significa que os governos possam ampliar por tempo indeterminado o tamanho que têm numa economia. "O governo não pode ser irresponsável", afirma Juliana Inhasz.

Estado é a rede de proteção do equilibrista

O mestre em economia e professor da FGV-SP Robson Gonçalves diz que liberais defendendo intervenção do Estado não é novidade, nem anula o pensamento que essa linha defende.

"A economia é como um equilibrista, que precisa da rede de proteção, que é o Estado. Se houver um abalo, ou vento forte, o equilibrista tende a se desestabilizar", afirma.

Segundo ele, a economia funciona bem com o Estado restrito a área específicas, mas não em situações de crises severas, como a provocada pela pandemia do coronavírus.

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