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Marcas podem se posicionar nas manifestações antirracistas?

Renato Pezzotti

Colaboração para o UOL, em São Paulo

05/06/2020 11h06

A morte de George Floyd, em Minneapolis, provocou protestos em diversas cidades norte-americanas. A onda de manifestações fez a hashtag #BlackLivesMatter ("Vidas Negras Importam") ganhar apoio nas ruas e nas redes sociais. Famosos e anônimos têm usado o termo nos últimos dias como forma de apoio ao movimento antirracista e para cobrar das autoridades que resguardem vidas negras.

O movimento também chegou às empresas, que costumam permanecer caladas quando se trata de questões de justiça social. Até que ponto as marcas têm lugar de fala nas manifestações antirracistas?

Nike tomou a dianteira nos EUA

Na sexta-feira passada (29), a Nike tomou a dianteira no assunto e lançou um vídeo sobre o tema. O manifesto pede que os norte-americanos não deem as costas ao racismo —e, até certo ponto, incentiva que as pessoas participem dos protestos. Logo foi apoiada pela Adidas. Outras empresas, como Spotify, Disney, Amazon e Netflix, seguiram o exemplo.

As mensagens atraem elogios e críticas. Algumas estão sendo acusadas de "comercializar a tragédia".

Por aqui, as empresas continuam adotando a tática do silêncio —uma das exceções foi a Netflix:

É a melhor alternativa? O que as marcas podem realmente fazer para se colocarem como antirracistas e não parecerem aproveitadoras?

Propaganda reforça imaginário racista coletivo

"Não existe parecer aproveitador. Ou se é aproveitador, ou não se é. Precisamos lembrar que a publicidade não apenas reflete a sociedade: ela a influência. A propaganda reforça e cria, contribuindo direta e indiretamente com o imaginário racista coletivo", disse Samantha Almeida, diretora de Conteúdo da agência Ogilvy.

Para Samantha, a luta antirracista não é uma conversa para simplesmente "fazer parte". "O movimento Black Lives Matter é o maior de todas as manifestações sociais em prol dos direitos civis e contra o genocídio da população negra americana desde os protestos dos anos 60".

"Nem só de boas intenções vivem as marcas"

Para Luiz Peres-Neto, professor do PPGCOM-ESPM/SP, o cenário para as marcas é desafiador. "Gestores formados numa espécie de 'old school' pensam que não seria bom para os negócios se misturarem com movimentos políticos. Mas o tempo de olhar para o lado e dizer que 'é somente um negócio' acabou".

Por outro lado, Peres-Neto reforçou que a mudança tem que ser de atitude. "Nem só de boas intenções vivem as marcas —e, sim, de ações transformadoras. Se não há mudança de atitude nos sistemas de governança das corporações, isso costuma trazer muitos riscos às reputações. O único caminho para a autenticidade é a coerência, um elemento que prima pela ausência na maioria das grandes corporações", afirmou.

Coerência passa por montagem de equipes

"Todo departamento de comunicação e marketing que não tem pessoas pretas contribui diretamente com o racismo"

A coerência é um dos motivos que faz com que, segundo Samantha, a questão tenha a ver com a montagem das equipes. "Marcas e empresas são ferramentas históricas da manutenção e reprodução do racismo estrutural. Esse mesmo racismo que, ao extremo, mata em praça pública está internalizado nas contratações das empresas. Todo departamento de comunicação e marketing que não tem pessoas pretas contribui diretamente com o racismo", declarou.

Para ela, para uma marca estar pronta para se posicionar sobre o assunto, é necessário ter construído essa posição.

"Cultura antirracista nasce obrigatoriamente das pessoas. Não há nenhuma proposta que não seja oportunista que tenha nascido de um time majoritariamente branco. Quando não se contrata negros em todos os estágios da cadeia, colabora-se diretamente para a manutenção do racismo. E esse é o calcanhar de Aquiles da nossa indústria", disse.

"Não adianta fazer post de 'Black Lives Matter' se você não tem pelo menos 50% de pessoas negras na sua estrutura"

"Não adianta fazer post de 'Black Lives Matter' se você não tem pelo menos 50% de pessoas negras na sua estrutura, que não seja em cargos de subordinação, que seja em cargos de decisão. Não temos isso no Brasil. A gente ainda importa essas narrativas, e isso é muito importante para a gente falar sobre representação e sobre identificação", declarou Stephanie Ribeiro, escritora e arquiteta, durante o UOL Debate promovido ontem (04).

Instituto apresentou manifesto antirracista

Nesta semana, o Instituto Identidades do Brasil (ID_BR) lançou um documento que pretende funcionar como um espaço de comprometimento público, enumerando diretrizes que devem ser seguidas como forma de lutar contra o racismo estrutural e institucional.

O documento, chamado "Seja Antirracista", pode ser assinado por pessoas e empresas e propõe que todos assumam o compromisso de lutar contra o racismo estrutural e institucional. A ação é uma parceria do ID_BR com o Sistema B, movimento global de pessoas que usam os negócios para a construção de uma economia mais inclusiva. Segundo o Instituto, mais de 90 empresas já assinaram o documento.

"Criamos esse espaço para que possamos ir além dos posts que acontecem apenas depois de casos midiáticos. Precisamos entender todos os dias que vidas negras importam e que, mais do que não ser racista, é preciso ser antirracista e ter práticas antirracistas no seu dia a dia", afirmou Luana Genot, diretora-executiva do ID_BR.

"Vejo uma única resposta para esse momento: contratem negros"

"O antirracismo é um compromisso de longo prazo, que precisa ser assumido na íntegra e reiterado todos os dias. Ele é cheio de aprendizados desconfortáveis, mas fundamentais. O momento no qual estamos vivendo nos mostra que ser antirracista é ter empatia. Mas, também, é momento de agir. Vejo uma única resposta para esse momento: contratem negros", declarou Samantha, da Ogilvy.

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