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Fogaça fecha restaurante e culpa shopping; que taxas os lojistas pagam?

Elvis Fernandes
Imagem: Elvis Fernandes

Lucas Borges Teixeira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

10/06/2020 15h43

O chef Henrique Fogaça, conhecido pelo programa MasterChef Brasil, fechou seu restaurante no shopping VillageMall, no Rio de Janeiro, e demitiu 200 funcionários. Os motivos, segundo ele, são a pandemia de covid-19 e as taxas cobradas pelo shopping. A Multiplan, operadora do VillageMall, rebateu Fogaça, dizendo que flexibilizou os contratos durante o período de quarentena e não cobrou aluguel nos meses em que os estabelecimentos ficaram fechados.

Como Fogaça, mais de 15 mil não deverão reabrir após a pandemia e cerca de 120 mil pessoas ficarão desempregadas, segundo associações de lojistas. Elas avaliam que os valores pagos aos shopping pesam mais para os pequenos negócios, o que pode prejudicar ainda mais a situação dessas empresas em tempos de crise.

Entenda como funcionam os contratos entre lojistas e shoppings, quais as taxas pagas e como se deram as negociações em meio à pandemia.

Aluguel por metro quadrado ou pelo faturamento

O aluguel do espaço nos shoppings geralmente é por metro quadrado ou em cima de uma porcentagem do faturamento da loja —vale o que for maior.

Em geral, estabelecimentos dentro de shoppings são divididos em duas categorias: as lojas comuns, chamadas satélites, e as lojas-âncora, ou megalojas, com mais de 500 metros quadrados, como C&A, Riachuelo e Centauro.

Os valores do aluguel são diferentes para cada categoria. Lojas-satélite pagam, em média, de R$ 100 a R$ 150 pelo metro quadrado, enquanto as âncoras pagam menos, de R$ 25 a R$ 30 por metro quadrado.

"O motivo é o tamanho. Tem loja com mais de 2.000 metros quadrados, ficaria completamente inviável que ela pagasse [a mesma quantia das satélite]", afirmou Nabil Sahyoun, presidente da Alshop (Associação Brasileira de Lojistas de Shopping).

Esses são apenas os valores mínimos. Geralmente, os contratos estabelecem que pode ser cobrado o chamado aluguel percentual, sobre o faturamento da loja. Esta quantia vai depender do segmento. O de roupas, por exemplo, é de 7% do faturamento, e o de restaurantes, de 8%.

A praxe é que o shopping cobre o valor mais alto dentre o aluguel por metro quadrado e o percentual.

Por exemplo: uma loja de roupas de 50 metros quadrados tem um contrato de R$ 120/m². O aluguel mínimo será sempre de R$ 6.000. Se ela faturar R$ 100 mil no mês, o aluguel percentual será de R$ 7.000. Vale, portanto, o valor mais alto, de R$ 7.000.

Gastos com condomínio e propaganda

Além do aluguel, há dois gastos mensais fixos para os lojistas: condomínio e fundo de promoção. Mais uma vez, estes gastos são diferentes para lojas grandes ou pequenas.

Condomínio: da mesma forma que um prédio residencial rateia entre os moradores os gastos com administração, limpeza, segurança e conta de luz, entre outros, o shopping divide esses gastos entre os lojistas. Geralmente, as lojas maiores (âncora) pagam uma taxa fixa, e o restante é pago pelas menores (satélites).

Fundo de promoção: o shopping destina esse dinheiro a propagandas e outras iniciativas, como sorteios e eventos. Corresponde, em média, de 10% a 15% do aluguel.

Lojas maiores não pagam fundo para publicidade

As lojas maiores não precisam pagar para o fundo de promoção. De acordo com a Alshop, essa isenção acontece porque as grandes empresas geralmente já investem muito, por conta própria, em promoções e anúncios. "Elas já fazem muita publicidade e trazem público", afirmou Sahyoun.

Para a Ablos (Associação Brasileira dos Lojistas Satélites), entidade que representa apenas lojas menores, essa diferença é prejudicial para os pequenos lojistas. "As lojas-satélite correspondem a 55% a 60% de um shopping. Como pode elas pagarem pelos outros 40%?", questionou o presidente da entidade, Tito Bessa Júnior.

Segundo o empresário, a isenção do fundo de promoção para as grandes lojas é adotada por todas as grandes redes de shoppings do país. "Alguns [shoppings] já ouviram nosso apelo, mas são raros. Todas as grandes redes têm isso como praxe. Não são como os outlets, onde todo mundo paga igualmente", afirma Bessa.

O UOL procurou a Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers) para questionar as diferenças nas cobranças de lojistas maiores e menores, mas a entidade não quis se manifestar.

Gasto dos pequenos é proporcionalmente maior

As diferenças fazem com que o gasto dos pequenos lojistas seja proporcionalmente maior do que o das grandes lojas. De acordo com a Ablos, lojas satélites têm por volta de 18% e 25% do faturamento comprometido com gastos fixos, incluindo a conta de luz individual. Para as lojas-âncora, essa porcentagem é de 3% a 5%.

"Isso acaba sendo desleal com o pequeno lojista. Como ele vai competir com os preços se já tem um comprometimento [financeiro] tão superior? [Os shoppings] falam que megalojas trazem mais clientes, mas pesquisas nossas já mostraram que o que atrai o consumidor é um mix de lojas-âncora, a variedade das satélite, praça de alimentação e entretenimento", disse Bessa.

Sahyoun, da Alshop, afirmou que esse modelo de contrato foi estabelecido nos anos 1950, quando os primeiros shoppings foram lançados, e aceito pelos lojistas.

Segundo ele, o ideal seria que o comprometimento dos pequenos lojistas fosse na faixa de 10% a 12%, mas, nos últimos anos, com os faturamentos impactados pela crise econômica, esta meta não tem sido atingida. "Agora, depois dessa pandemia, podemos esperar um quadro ainda pior", disse.

Na pandemia, lojistas ficaram isentos de aluguel

Por causa da pandemia de coronavírus, os shoppings do país ficaram pelo menos dois meses sem abrir. As associações de lojistas dizem que todas as grandes redes de shoppings aceitarem renegociar, de alguma forma, os pagamentos.

A praxe tem sido não cobrar aluguel e fundo de promoção relativos aos meses parados e cobrar parcialmente o condomínio. Não há, no entanto, uma regra geral.

"Cada uma fez de um seu jeito. Teve rede que cobrou o aluguel proporcional de março, quando [as lojas] funcionaram pela metade, permitindo pagar esse valor só no final do ano, isentou totalmente o aluguel referente aos parados e cobrou parte do condomínio. Varia conforme a negociação", contou Sahyoun.

Segundo Bessa, em relação ao condomínio, a prática tem sido a redução média de 30% a 40%. "Os shoppings argumentam que têm funcionários e outros gastos fixos, que não pararam", afirmou.

Com a reabertura em parte dos estados em junho, as redes, no geral, têm oferecido às lojas a opção de voltar a funcionar e pagar normalmente o aluguel ou seguir fechadas e continuar sem pagar.

Cerca de 15 mil lojistas devem fechar com pandemia

O Brasil tem 775 shoppings com pouco mais de 105 mil lojas. De acordo com as associações de lojistas, cerca de 15%, pouco mais de 15 mil, não deverão reabrir as portas.

"É uma estimativa que estamos fazendo. E ainda é otimista. Muito lojista não conseguiu segurar, vai ter lugar em que essa porcentagem [de não-retorno] deve ser ainda maior", afirmou Bessa.

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