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Energia solar e eólica (vento) foram mesmo culpadas pelo apagão no Texas?

Frio intenso congelou geradores de energia no Texas - Bronte Wittpenn/Austin American-Statesman/USA Today Network via Reuters
Frio intenso congelou geradores de energia no Texas Imagem: Bronte Wittpenn/Austin American-Statesman/USA Today Network via Reuters

Giulia Fontes

Do UOL, em São Paulo

23/02/2021 04h00

A onda de frio extremo que atingiu os EUA na semana passada deixou milhões de pessoas sem luz no Texas e, diante do caos, políticos norte-americanos têm atribuído o apagão às energias renováveis.

"Nossos sistemas de energia eólica (vento) e solar pararam, o que empurrou o Texas para a situação de falta de energia em todo o estado", afirmou o governador do Texas, Greg Abbott, do partido Republicano, em entrevista à rede de TV Fox News.

Por outro lado, especialistas dizem que a crise é fruto de múltiplos fatores, e que as energias renováveis não são as únicas (nem as principais) culpadas.

Fontes renováveis respondem por 25% do sistema

Dados da agência responsável pelo gerenciamento do sistema elétrico no Texas, o Eletric Reliability Council of Texas (Ercot), divulgados pelo jornal "The Washington Post" na semana passada, apontam que fontes de energia renovável, como os sistemas eólico e solar, respondem por um quarto do fornecimento de energia do Texas no inverno.

O restante vem de fontes não renováveis, principalmente o gás natural e o carvão.

Ainda segundo o Ercot, na semana passada só 13% dos blecautes haviam sido causados por falhas em sistemas de energia renovável.

Usinas de carvão e gás congeladas

Em um post no Twitter, o próprio governador admitiu que usinas de gás e carvão ficaram congeladas. "A capacidade de algumas empresas de gerar energia está congelada. Isso inclui geradores movidos a gás natural e carvão", diz a publicação.

Mesmo assim, foram as imagens de parques de energia eólica congelados que ganharam destaque.

Foi um travamento geral, mas é muito mais fácil tirar uma foto de um moinho de vento congelado do que de um reator nuclear travado ou de um duto de gás sem funcionar Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

O que provocou a crise do sistema elétrico no Texas

A nevasca histórica que atingiu o Texas foi decisiva para que o sistema de energia entrasse em colapso de forma generalizada. Mas outros fatores, estruturais e históricos, também contribuíram para o caos.

Em primeiro lugar, o Texas tem seu sistema de energia isolado do restante dos EUA. Isso evita que o estado tenha que exportar energia para outras partes do país - mas também impossibilita que os texanos recebam energia de outros estados em momentos de crise, como o de agora.

Outro aspecto diz respeito ao funcionamento do setor elétrico dentro do próprio Texas. "Nos EUA, os estados têm muita autonomia. O Texas se utilizou disso para fazer uma grande desregulamentação no setor, reduzindo a capacidade do estado de obrigar as empresas a seguirem padrões de manutenção e segurança", afirma Paz, da FGV.

Sem obrigações legais, as empresas pouco investiram na preparação das estruturas do setor elétrico contra eventos climáticos extremos.

"Eles não estavam bem preparados, não tinham backups bem organizados", diz o pesquisador. Os backups são sistemas que permitem que equipamentos elétricos sejam mantidos em funcionamento mesmo quando ocorre um apagão na rede convencional.

Colapso já aconteceu uma vez

Não é a primeira vez que isso acontece. Em 2011, uma onda de frio também deixou milhões de texanos sem energia. À época, a Comissão Federal de Regulamentação de Energia dos EUA produziu um relatório recomendando que fossem tomadas medidas para preparar as usinas para episódios de frio intenso.

Cabia ao estado colocar as recomendações em prática, já que o governo federal não tem competência legal para tomar decisões sobre o sistema elétrico no Texas.

É um problema estratégico, que acabou ganhando um viés mais político do que técnico. É preciso fazer uma avaliação mais adequada das condições climáticas para, então, fazer a previsão de uma futura matriz energética Fábio Raia, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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