PUBLICIDADE
IPCA
+0,53 Jun.2021
Topo

Botijão de gás mais caro do país força famílias de MT a cozinhar com lenha

Kátia da Silva, 53, de Cuiabá, usa lenha para esquentar água e dar banho nos filhos - Bruna Barbosa Pereira/UOL
Kátia da Silva, 53, de Cuiabá, usa lenha para esquentar água e dar banho nos filhos Imagem: Bruna Barbosa Pereira/UOL

Bruna Barbosa Pereira

Colaboração para o UOL, em Cuiabá

07/07/2021 04h00

Cuiabá registrou semana passada o dia mais frio do ano. Enquanto os termômetros chegavam a marcar 7 ºC, em 30 de junho, algumas famílias usavam lenha para esquentar água e dar banho nas crianças. Elas não têm chuveiro elétrico e esquentar água no fogão a gás esvaziaria ainda mais rápido o botijão, que chega a custar R$ 115 na cidade.

Mato Grosso é o estado com o gás mais caro no país, segundo a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis). Em Sorriso, o botijão chega a R$ 130.

Durante a onda de frio em Cuiabá, Antônia Rosa de Campos, 68, e Kátia da Silva, 53, esquentavam água para garantir o banho quente das crianças de forma improvisada, usando lenha.

Kátia, que mora no bairro Dom Aquino, montou uma fogueira no chão, com pedaços de madeira. Na região, ela consegue encontrar botijão por R$ 105 para retirada na distribuidora.

A renda da família é de cerca de R$ 2.000, incluindo o salário mínimo que ela recebe, trabalhando como educadora social. Dessa renda dependem quatro crianças e quatro adultos, O dinheiro é dividido entre as despesas de mercado, contas de água e luz, remédios para a mãe de Kátia, que tem Alzheimer, e outras necessidades básicas da família.

A cada aumento no preço do botijão de gás, Kátia diz que pensa no momento em que terá que riscar o item da lista de compras da família.

Fico nervosa. Se o preço do gás subir, vai para quanto? R$ 150? Tenho medo de não dar conta mais, porque o salário não sobe, mas sobe o arroz e o feijão. Quando o preço começa a subir, você já entra em desespero.
Kátia da Silva, 53, de Cuiabá

Antônia mora em outra região, no bairro Residencial Coxipó. Não conhece Kátia, mas assim como ela, esquentava água quando recebeu a reportagem. Usava um fogão a lenha. O filho chegaria do trabalho dali a pouco e Antônia não queria que ele tomasse banho com água fria.

Antônia Rosa de Campos, 68, de Cuiabá, assa até bolo no forno a lenha - Bruna Barbosa Pereira/UOL - Bruna Barbosa Pereira/UOL
Antônia Rosa de Campos, 68, de Cuiabá, assa até bolo no forno a lenha
Imagem: Bruna Barbosa Pereira/UOL

Na casa da aposentada, oito pessoas vivem com pouco mais de R$ 2.500 por mês. Muitas vezes, quando o gás acaba "na hora errada", a família não tem dinheiro para comprar outro, diz. Ela consegue comprar botijão por R$ 110.

Já estou acostumada com o fogão a lenha. Faço até meu café nele quando acordo, porque R$ 110 é muito dinheiro. Este ano está muito mais difícil, o custo de vida subiu muito. Tudo está mais caro, e o salário não acompanha.
Antônia Rosa de Campos, 68, de Cuiabá

Bolo de fubá assado na fogueira

Para economizar gás, Antônia e Kátia reduziram as receitas de pratos assados. Quando precisa, a aposentada consegue assar bolos, pães e biscoitos no fogão a lenha.

Kátia não tem essa possibilidade, mas improvisa e assa bolos para a família usando a fogueira no chão.

"Coloco a panela de ferro grande para esquentar. Dentro, ponho as assadeiras pequenas com bolo, então tampo e coloco um fogo por cima. Faço um bolo de fubá que fica muito bom, e é melhor que gastar o gás", diz.

As duas afirmam que não é só o preço do gás que tem impactado o orçamento familiar. A carne, por exemplo, foi substituída por ovo e frango, quando há promoção.

Doação de lenha

Kátia brinca que "preço de banana" já não é mais uma expressão que faz sentido no Brasil, já que a fruta também está cara.

"Às vezes, compro fígado, mas é difícil porque as crianças não gostam muito de comer. Faço macarrão apenas com molho de tomate, sem 'mistura', para elas. Diziam que abóbora era comida de porco, mas não é mais, porque até um pedaço de abóbora está difícil de comprar", diz.

Antônia recebe doações de um centro espírita, que ajudam no sustento da família. Ganha uma cesta básica por mês e verduras aos sábados.

"Quando não tem lenha, o centro espírita me deixa pegar pedaços de madeira, porque não podemos ficar sem. Tenho uma família grande, geralmente tenho que fazer almoço e janta", conta a aposentada.

No dia em que a reportagem esteve na casa de Antônia, o marido dela havia sido demitido do trabalho. Mas ela diz que não há razão para desespero.

"Hoje pode faltar, mas sei que amanhã Deus vai providenciar, um dia de cada vez. Queria que as coisas fossem mais acessíveis, gosto de passear, fazer um almoço grande para a minha família", afirma.

Preço inacessível

Em Mato Grosso, 12% da população está abaixo da linha da pobreza, afirmou Maurício Munhoz, professor de economia da Unemat (Universidade do Estado de Mato Grosso). Para essas famílias, diz, o preço está deixando o gás inacessível. Só neste ano, o aumento no estado foi de cerca de 20%.

"A inflação neste ano não chegou a 4% ainda, mas o gás de cozinha já chegou a 20%. É um preço que oscila, em algumas regiões é mais barato, em outras mais caras. Mas o gás subiu muito e saiu da relação de compra de uma parte da população", disse. "Se os preços não diminuírem, isso representa um caos social".

Errata: o texto foi atualizado
Uma versão anterior deste texto informava incorretamente, no primeiro parágrafo, que a temperatura chegou a 7 ºC em Cuiabá em 30 de julho. Na verdade, isso aconteceu em 30 de junho. A informação foi corrigida.