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Fila para comprar jatinho e helicóptero é de até 15 meses; usados sobem 20%

Giulia Fontes

Do UOL, em São Paulo

21/10/2021 04h00

A fila para compra de jatinhos e helicópteros novos chegou a dobrar na pandemia. Os prazos para a entrega das aeronaves já eram longos, entre seis e oito meses, porque os fabricantes trabalham sob encomenda. O atraso começou em 2020 e agora o período de espera chega a até 15 meses, segundo fabricantes ouvidos pelo UOL.

A demora tem aumentado o preço de seminovos e também a procura pelo compartilhamento de aeronaves. Representantes do setor dizem que clientes que não querem esperar pagam, em média, 20% a mais por aeronaves usadas. Os preços variam de acordo com o modelo e chegam à casa dos milhões de dólares. No caso da propriedade compartilhada, a alta no número de voos chega a 50%.

Dois fatores têm contribuído para isso: a falta de insumos, que atingiu vários setores da indústria, inclusive o aeronáutico; e o aumento da procura, que no Brasil tem vindo, principalmente, do agronegócio.

Insumos em falta

Fabricantes de aeronaves têm enfrentado falta de componentes, o que atrasa a produção.

Segundo Rubens Cortellazzo, diretor comercial da marca italiana Leonardo Helicópteros no Brasil, o problema tem afetado os prazos, mas não é tão grave como na indústria automotiva.

Montadoras de carros já chegaram a paralisar a produção por causa da falta de peças, que está afetando fábricas no mundo todo.

Na Leonardo Helicópteros, a espera subiu de oito para 15 meses.

Hoje o que mais nos deixa insatisfeitos é não ter a aeronave para entregar no prazo que o cliente precisa. Quando eu falo em 15 meses de espera, a primeira reação do cliente é procurar uma alternativa, como comprar uma aeronave usada e depois voltar para pegar a nova.
Rubens Cortellazzo, da Leonardo Helicópteros

Procura do agronegócio e de saúde

Segundo ele, houve aumento das licitações de governos estaduais para a compra de aeronaves, principalmente para atender o setor da saúde.

No setor privado, a alta na procura vem principalmente do agronegócio, que tem sido impulsionado pelas exportações e o dólar alto.

Em setembro, por exemplo, o agro brasileiro bateu recorde de exportações: foram US$ 10,1 bilhões em produtos enviados para o exterior, o melhor valor para o mês na série histórica, segundo o Ministério da Economia.

Humberto Branco, presidente da Aopa (Associação de Pilotos e Proprietários de Aeronaves), diz que há aviões agrícolas sendo importados para o uso na produção. Um exemplo é a pulverização de lavouras. Mas a maioria das aeronaves é usada para deslocamento de equipes.

O setor agropecuário continua muito aquecido e precisando cada vez mais de integração com o país. Algumas regiões que estão tendo desenvolvimento econômico são pouco atendidas por linhas aéreas regulares, e por isso é comum que as empresas experimentem a possibilidade de usar aeronaves privadas no cotidiano.
Humberto Branco, da Aopa

Estradas sem pavimentação incentivam vendas

Sérgio Beneditti, diretor de vendas da Plane Aviation, empresa que representa a fabricante Cirrus Aircraft no Brasil, diz que muitos empresários do agro precisam de aeronaves para se locomover entre propriedades, especialmente em locais que têm estradas sem pavimentação.

Segundo ele, os preços estão passando por uma "acomodação", tanto porque há mais tempo de espera por aeronaves novas quanto pelo aumento do dólar. O tempo de espera por uma aeronave da Cirrus aumentou de seis a oito meses para um ano.

Embraer entrega 50% mais

Em nota, a Embraer informou que o mercado de aviação executiva "passa por um bom momento", e que a empresa tem apresentado "resultados consistentes" de vendas e entregas de jatos executivos.

A Embraer entregou 33 aeronaves no primeiro semestre de 2021, número 50% maior que o registrado no mesmo período de 2020. A empresa não informou se houve aumento de prazos para entrega.

Usados estão em falta

A espera mais longa por aeronaves novas tem reflexos no mercado de usados. Gualter Pizzi, proprietário da Gualter Helicópteros, de São Paulo, que atua como intermediária na venda de aeronaves seminovas, afirma que, desde o segundo semestre de 2020, o aumento da procura fez com que helicópteros e aviões sumissem do mercado. "Dependendo do modelo, você não acha mais", diz.

No caso de helicópteros e jatinhos, a venda de seminovos é diferente da de carros. Não existe um pátio de estoque. Os donos de aeronaves interessados em vendê-las mantêm as máquinas em seus hangares, e empresas como a de Pizzi atuam como intermediárias, ganhando uma comissão.

A Gualter Helicópteros vende, em média, 24 aeronaves por ano. Os preços variam significativamente: aeronaves mais baratas custam US$ 500 mil, mas a empresa têm disponíveis máquinas de até US$ 15 milhões. Segundo Pizzi, a comissão varia entre 2% e 5%, dependendo do valor da aeronave.

Eu trabalho nesse setor há 35 anos, e pela primeira vez estou vendo a falta de aeronaves usadas no mercado. A procura aumentou cerca de 30% do ano passado para cá.
Gualter Pizzi, da Gualter Helicópteros

Para não esperar, clientes pagam preço alto

Vinicius Pires, presidente da Global Aircraft, que trabalha principalmente com aeronaves usadas, afirma que os clientes não têm desistido das compras mesmo com os valores mais altos. A empresa tem escritórios no Brasil e nos EUA, e vende equipamentos de até US$ 50 milhões.

Nosso público é principalmente de grandes empresas e empresários. Como eles não querem esperar, acabam pagando o preço que for. E, como está havendo falta de aeronaves, o preço tem subido bastante, em torno de 15% a 20%.
Vinicius Pires, da Global Aircraft

Compartilhamento de aeronaves ganha impulso

Além da procura por seminovos, também teve aumento a busca pelos modelos de propriedade compartilhada de jatinhos e helicópteros.

Há empresas que fornecem o serviço de administração desse compartilhamento: o cliente pode comprar uma cota de uma aeronave sem nem mesmo conhecer os outros proprietários.

Essas empresas já têm cotas disponíveis, ou seja, o comprador pode adquirir parte de uma aeronave e começar a voar imediatamente.

Rogério Andrade, CEO da Avantto, que oferece esse modelo de negócio, afirma que o número de voos compartilhados aumentou 50% em 2021, na comparação com o ano anterior.

A empresa administra 65 aeronaves, entre jatos e helicópteros, que ficam em São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

Segundo ele, os clientes são empresários, executivos, profissionais liberais e até celebridades que "precisam de deslocamento rápido e com certa privacidade".

No modelo de entrada de helicóptero, por exemplo, uma cota de 5% custa US$ 80 mil, e dá ao cliente o direito de voar 60 horas por ano.

O custo fixo é de R$ 10 mil por mês, incluindo a taxa de administração da empresa. Quando voa, o cliente paga R$ 2.400 por hora pelos custos (combustível, piloto etc.).

Uma enorme vantagem é que as aeronaves já estão disponíveis. A gente tem cota para vender, o cliente não precisa esperar.
Rogério Andrade, da Avantto

Outra empresa que oferece o serviço de compartilhamento, a Amaro Aviation começou as operações no ano passado e já administra dez aeronaves.

O CEO da Amaro, Francisco Lyra, diz que a aposta da empresa é o avião Pilatus PC-24, que pode pousar em pistas de terra.

Estamos focando nessa explosão do agro, e o modelo de negócio tem tido bastante receptividade. Estamos com uma procura muito forte, um número de consultas imenso. De dez a 15 pessoas entram em contato por dia querendo entender o processo.
Francisco Lyra, da Amaro

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