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Gasolina no Brasil pode chegar a R$ 10 por causa da guerra na Ucrânia?

Anaís Motta

Do UOL, em São Paulo

03/03/2022 15h08Atualizada em 03/03/2022 16h27

A guerra entre Rússia e Ucrânia, que chegou hoje (3) ao seu oitavo dia, deve impactar — e em breve — o preço dos combustíveis no Brasil.

Especialistas ouvidos pelo UOL já consideram que o preço do barril de petróleo ainda se manterá acima de US$ 100 por alguns meses, independentemente da duração do conflito. Com isso, a Petrobras não conseguirá segurar o repasse deste aumento, principalmente se o dólar voltar a subir.

Mas é possível que o litro da gasolina, por exemplo, chegue aos R$ 10?

O economista Guilherme Moreira, coordenador do IPC (Índice de Preços ao Consumidor) da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), acredita não ser um "absurdo" pensar que sim, ao menos em algumas cidades brasileiras. Já André Braz, economista e coordenador do IPC do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas), acha que não é possível especular valores, uma vez que a Petrobras ainda não sinalizou se e quando aumentará o preço dos combustíveis na refinaria.

Para Moreira, números mais recentes sinalizam a possibilidade de aumento da gasolina. Ele cita que na quarta-feira (2), por exemplo, o barril do Brent estava sendo negociado a US$ 111, o que representa um aumento de 44% em relação à cotação de dezembro. Em contrapartida, o real teve uma valorização de 10% em relação ao dólar.

"Fazendo uma subtração simples, ainda sobram 34% [de diferença]. Em lugares como o Rio de Janeiro, por exemplo, onde a gasolina já passa de R$ 7, um aumento de 30% elevaria o preço a quase R$ 10", afirma. "Isso [correrá] se tudo se mantiver como está hoje. Mas nós sabemos que a tendência é o dólar se valorizar, o que pode puxar esse aumento também", completa.

Braz concorda que o aumento é inevitável, já que a situação é "atípica" e vem no momento em que o Brasil ainda se recupera dos efeitos da pandemia de covid-19.

"A gente mal descansou de um evento, e já veio outro tão grave quanto. Isso vai mexer com os preços daqui para frente, e o primeiro impacto sempre vem nos preços dos combustíveis", explica.

"Vai depender um pouco da valorização da nossa moeda também, que pode mitigar aumentos daqui para frente. Mas, com certeza, vai afetar a inflação, até por meio da própria agricultura. A gente já viu as cotações internacionais de milho, soja e trigo disparando, o que pode contaminar o preço das carnes. É aquela bola de neve, um preço puxando o outro."

O preço do barril de petróleo já se coloca acima de US$ 100. Já não existe mais oscilação, entre ficar um pouco abaixo e um pouco acima de US$ 100. Não: ele está em US$ 100. E é uma situação que só vai piorar. Mesmo que a guerra termine amanhã, esses embargos contra a Rússia vão continuar (...) Isso pode garantir um aumento de preços deste segmento [petróleo] por muito tempo, muito além desse conflito.
André Braz, do Ibre/FGV

Petrobras pode "ajudar"?

Na semana passada, a Petrobras disse que a recente valorização do real frente ao dólar contrabalançava a alta do barril de petróleo, ajudando a segurar os preços dos combustíveis no Brasil. Com isso, a empresa ganhou tempo para avaliar se as mudanças trazidas pela guerra entre Rússia e Ucrânia justificariam novos aumentos ou se seriam eventos pontuais.

O último reajuste foi feito pela Petrobras há quase dois meses, em 12 de janeiro.

"O que pode acontecer? Pode acontecer de a Petrobras não repassar 100% desse aumento do barril de petróleo por aqui. Mas acho que a probabilidade é pequena", avalia Guilherme Moreira, da Fipe.

"A política de preços da Petrobras é transferir essas variações relativamente rápido. Ou seja: se mantida a política atual, esse aumento vai chegar na bomba rapidamente também. Acho que só não aconteceu [aumento dos combustíveis] porque o câmbio está segurando."

Segundo dados da Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis) publicados na terça (1º) pelo jornal O Estado de S. Paulo, a defasagem entre a Petrobras e as principais bolsas de negociação já chega a 11%, no caso da gasolina, e a 12%, com o diesel. Ou seja: é provável que a empresa não consiga segurar essa alta por muito mais tempo — mesmo que continue recorrendo aos estoques comprados há meses, a preços mais baixos.

Nesta quinta (3), o preço do barril de petróleo Brent chegou próximo de US$ 120 — marca que não é superada há uma década, desde 2012.

(Com Estadão Conteúdo)