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Juros altos mexem com bolso do brasileiro e deixam casa e carro mais caros

Juros do financiamento imobiliário saltaram nos últimos meses - Getty Images/iStockphoto/Zephyr18
Juros do financiamento imobiliário saltaram nos últimos meses Imagem: Getty Images/iStockphoto/Zephyr18

Fabrício de Castro

Do UOL, em Brasília

12/03/2022 04h00

Desde que o Banco Central iniciou o processo de elevação da Selic (a taxa básica de juros), em março do ano passado, o acesso do brasileiro ao crédito também ficou mais caro. Dados do Banco Central mostram que as famílias estão pagando mais para financiar a casa própria e a compra do carro, duas das principais operações de crédito para pessoas físicas.

A má notícia é que o custo deve continuar a subir. Analistas ouvidos pelo UOL afirmam que, com a inflação ainda acelerada, o BC tende a continuar a subir a Selic, atualmente em 10,75% ao ano. Com isso, as taxas de juros do financiamento imobiliário e das linhas de crédito para aquisição de veículos também ficarão mais altas.

Na prática, já está mais caro financiar uma casa ou um carro. E o custo pode ficar ainda mais elevado nos próximos meses.

Os números do BC mostram a escalada:

Taxas de juros em meses selecionados (% ao ano):

  • Fevereiro de 2021: 2% (Selic); 7% (Imobiliário); 20% (Veículos)
  • Março de 2021: 2,75% (Selic); 6,9% (Imobiliário); 20,6% (Veículos)
  • Maio de 2021: 3,50% (Selic); 6,6% (Imobiliário); 21,3% (Veículos)
  • Junho de 2021: 4,25% (Selic); 6,7% (Imobiliário); 21,6% (Veículos)
  • Agosto de 2021: 5,25% (Selic); 7% (Imobiliário); 22,7% (Veículos)
  • Setembro de 2021: 6,25% (Selic); 7,2% (Imobiliário); 23,9% (Veículos)
  • Outubro de 2021: 7,75% (Selic); 7,5% (Imobiliário); 24,8% (Veículos)
  • Janeiro de 2022: 9,25% (Selic); 9,4% (Imobiliário); 26,9% (Veículos)

Mas qual é o impacto no bolso?

A alta da taxa de juros em um financiamento pode não parecer grande, mas faz toda a diferença no custo final.

O professor de Matemática Financeira José Dutra Vieira Sobrinho, da Fipecafi (Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras), simulou, a pedido do UOL, o impacto da alta de juros em um financiamento imobiliário de R$ 300 mil, por 30 anos. O sistema de pagamentos considerado foi o SAC (Sistema de Amortização Constante), um dos mais comuns no financiamento via bancos.

Os resultados foram os seguintes:

  • Com juros de 7% ao ano (em fevereiro de 2021): a primeira prestação é de R$ 2.543,33 e a última é de R$ 838,08. O total a ser pago é de R$ 608.655,00.
  • Com juros de 9,4% ao ano (em janeiro de 2022): a primeira prestação é de R$ 3.083,33 e a última é de R$ 839,58. O total a ser pago é de R$ 706.125,00.

Os cálculos não levaram em conta nenhum tipo de atualização monetária, nem o pagamento de seguros nas parcelas. Normalmente, um contrato imobiliário prevê o pagamento de juros mais um indexador, como a TR (Taxa Referencial). Além disso, costuma haver acréscimo nas parcelas referentes a seguros por morte e invalidez permanente do proprietário e danos físicos ao imóvel.

Na simulação, fica claro o impacto dos juros mais altos. Quem fechou a operação de crédito em janeiro deste ano, a uma taxa de 9,4% ao ano, pagará R$ 97.470,00 a mais no financiamento da casa própria.

A taxa de juros significa o custo do dinheiro. Tem gente que fica preocupada apenas com o valor da prestação. Mas é preciso se preocupar com o custo da taxa. É sempre melhor fazer um financiamento com a taxa mais barata
José Dutra Vieira Sobrinho, professor da Fipecafi

Dutra Sobrinho chama a atenção ainda para o fato de que, com a alta dos juros, os valores das prestações ficam mais elevados. Isso pode ser um empecilho para o cliente fechar o crédito com o banco. Normalmente, em um financiamento imobiliário, os bancos aceitam um comprometimento máximo de 30% da renda familiar.

Em outras palavras, se o valor da prestação superar 30% da renda, o negócio não é fechado.

Compra do carro também ficou mais cara

Simulação de Dutra Sobrinho também mostra aumento do custo para quem vai comprar um carro.

No financiamento de R$ 60 mil de um veículo, por 5 anos, as condições seriam as seguintes:

  • Com juros de 20% ao ano (em fevereiro de 2021): a prestação é de R$ 1.535,38. O total a ser pago é de R$ 92.122.80.
  • Com juros de 26,9% ao ano (em janeiro de 2022): a prestação é de R$ 1.726,08. O total a ser pago é de R$ 103.564.80.

O cálculo não leva em conta a cobrança de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), que normalmente é incorporada às prestações. Os números indicam que, de fevereiro de 2021 para janeiro deste ano, comprar um carro nestas condições ficou R$ 11.442,00 mais caro.

Vale lembrar que, ao mesmo tempo, os preços dos veículos também ficaram mais caros no Brasil, em meio à escassez de peças durante a pandemia de covid-19.

Impacto da alta de juros é brutal, diz especialista

O diretor executivo de Estudos e Pesquisas da Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças), Miguel Ribeiro de Oliveira, afirma que o impacto da alta dos juros nos contratos de financiamento é "brutal".

Segundo ele, os clientes também estão tendo que lidar com um acesso mais restrito ao crédito. Oliveira cita o nível alto de desemprego e as dificuldades econômicas como fatores para o aumento do risco de inadimplência.

De um modo geral, as condições de crédito pioraram muito. Isso ocorreu porque as taxas de juros estão mais altas, mas também porque os bancos estão reduzindo um pouco os prazos de financiamento. As instituições estão mais restritivas.
Miguel Ribeiro de Oliveira, diretor executivo da Anefac

Selic vai continuar subindo

Com o avanço da inflação, em especial a partir do segundo semestre de 2020, o Banco Central iniciou em março do ano passado o processo de elevação da Selic. Com juros mais altos, o BC busca segurar o avanço dos preços no Brasil.

O problema é que, com a alta da Selic, o custo de captação de recursos, pelos bancos, também sobe. A consequência é que as instituições financeiras repassam os custos de captação para os financiamentos. Este é um dos motivos para a alta dos juros em financiamentos imobiliários e em operações para compra de veículos.

A economista Isabela Tavares, especialista em crédito da consultoria Tendências, lembra que, com a inflação ainda acelerada, a expectativa é de que a Selic continue subindo.

O cenário é de que a Selic vai continuar subindo até o primeiro semestre deste ano. Então, os efeitos nos juros de operações de crédito vão continuar batendo. Para o segundo semestre de 2022, também esperamos um aumento nas taxas, porque há uma defasagem. Por mais que a Selic pare de subir no fim do primeiro semestre, os efeitos sobre os juros ainda continuam no segundo semestre.
Isabela Tavares, economista da Tendências

O boletim Focus do BC, que compila as projeções do mercado financeiro para os principais indicadores econômicos, indica que a alta da Selic, hoje em 10,75% ao ano, continuará até maio, quando alcançará 12,25% ao ano. Depois disso, ela seguiria estável até o início de 2023, quando começaria a cair. Somente a partir disso os juros de financiamentos a pessoas físicas também poderiam ceder.

Isabela Tavares pondera, no entanto, que este cenário dependerá da inflação. "Caso a inflação aumente ainda mais, o BC terá que ser mais agressivo com a Selic, e os efeitos continuarão a ser sentidos no crédito. O risco de crédito para os bancos também vai aumentar."

Financiar agora ou depois?

Profissionais ouvidos pelo UOL afirmaram que, como o custo do financiamento está mais alto, pode ser uma boa ideia esperar para acessar taxas mais baixas.

"A não ser que seja primordial, você deve adiar qualquer plano de financiamento, justamente porque o custo está mais alto. Essa situação toda, em algum momento, passa", afirma Miguel Ribeiro de Oliveira, da Anefac. "Este ano, esquece. As taxas de juros estão altas e vão continuar subindo. Se há urgência em fazer o financiamento, faz agora. Mas para quem pode, é melhor esperar uns dois anos, porque as taxas vão estar mais baixas."

Dutra Sobrinho, da Fipecafi, afirma que a decisão de fazer ou não um financiamento agora depende da percepção do interessado sobre o futuro da inflação e das taxas de juros.

"Se a pessoa acredita que as coisas podem melhorar, apesar da pandemia e da situação de guerra lá na Rússia, então é melhor dar um tempo", afirma. "Em um horizonte de seis ou sete meses, tudo pode mudar", acrescenta.

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Errata: o texto foi atualizado
O trecho a seguir com dados sobre Selic, financiamento imobiliário e de veículos se refere a janeiro de 2022, e não 2021: Janeiro de 2022: 9,25% (Selic); 9,4% (Imobiliário); 26,9% (Veículos). A informação foi corrigida.