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EUA ainda fazem queimada em colheita de cana, e Brasil vira exemplo

The Palm Beach Post e ProPublica

Colaboração para o UOL, nos EUA

22/03/2022 04h00

Repórteres do jornal "The Palm Beach Post" e da agência americana ProPublica investigaram o impacto da queima da cana-de-açúcar na Flórida (EUA). A prática de colheita ajuda na produção de mais da metade de açúcar de cana da América, mas ela envia fumaça e cinzas em direção às comunidades de baixa renda e de maioria afro-americana e latina no coração do estado.

Na reportagem, vimos que outros países encontraram maneiras de fazer a colheita da plantação sem as queimas. Então viajamos recentemente ao Brasil, o maior produtor mundial de cana-de-açúcar, para aprender como e por que o país trocou de método.

Problemas respiratórios

O Brasil tem um setor de cana-de-açúcar enorme que produz açúcar cru, etanol e eletricidade. O país cultiva mais de oito milhões de hectares de fazendas, comparado com menos de 404 mil hectares nos Estados Unidos.

A partir dos anos 1990, moradores do estado de São Paulo, o estado que mais produz cana-de-açúcar no país, manifestaram preocupações similares àquelas dos moradores das Glades, na Flórida, hoje: eles reclamaram das cinzas e fuligem que cobriam suas casas e dos problemas respiratórios.

Em resposta à pressão popular, as autoridades de São Paulo aprovaram uma lei em 2002 determinando a eliminação gradativa das queimas de pré-colheita nas próximas três décadas.

Os produtores investiram em máquinas de colheita que lhes permitiam cortar a cana sem queimar. Nos anos seguintes, o setor de cana-de-açúcar trabalhou com o governo do estado para eliminar quase todas as queimas até 2017 e criar outras medidas de proteção ambiental (até 2031, a queima continua permitida em áreas com uma declividade alta demais para colheita mecânica.)

Reaproveitamento da cana

Os resultados têm sido ostensivos. As folhas secas de cana-de-açúcar, que antes viravam fumaça, hoje formam um colchão de proteção nos campos, enriquecendo o solo. Algumas dessas folhas, comumente chamadas de palha no Brasil, também são recolhidas para a cogeração de energia renovável. O excesso de eletricidade das usinas é vendido para a rede, geralmente com lucro significativo.

"Hoje eu não tenho a menor dúvida que ninguém quer voltar no passado e que ninguém quer voltar a queimar a palha", disse Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-açúcar (UNICA).

A ProPublica fez vários pedidos aos dois maiores produtores de açúcar da Flórida para filmar os processos de colheita e moagem e gravar entrevistas em vídeo com os representantes das empresas, para esta reportagem. O porta-voz da U.S. Sugar recusou. A Florida Crystals não respondeu aos múltiplos pedidos de comentários.

Esta última, porém, havia previamente informado aos veículos de imprensa que o Brasil é um dos vários países "impróprios para se comparar com o sul da Flórida", por causa das diferenças de solo, clima e regulamentação.

Sistema atrairia pragas

Embora a empresa não tenha dado detalhes sobre suas alegações, um grupo ligado ao setor argumenta que a palha derivada da colheita de cana crua, sem queima, apodreceria os solos ricos em nutrientes da Flórida e atrairia pragas.

Agrônomos brasileiros renomados e líderes do setor reconheceram que o solo da Flórida difere do solo do Brasil em alguns aspectos chave, mas nos disseram que os desafios criados pelas sobras de palha podem ser gerenciados de forma eficaz.

"Se o problema for a palha, aí retira e faz a cogeração. Ele ganha duas vezes," disse Arnaldo Bortoletto, presidente da Cooperativa dos Plantadores de Cana do Estado de São Paulo (Coplacana).

Na verdade, parte da cana na Flórida já é colhida sem queima quando está localizada em zonas de amortecimento "sensíveis à fumaça" perto de escolas, hospitais, rodovias e casas asilares. Nem a U.S. Sugar nem a Florida Crystals responderam às perguntas sobre por que as colheitas sem queima não poderiam ser expandidas.

Judy Sanchez, uma vice-presidente da U.S. Sugar, contou anteriormente ao The Palm Beach Post e à ProPublica que qualquer mudança nas práticas de colheita na Flórida teriam "impactos econômicos significativos". Quando solicitada a dar detalhes, porém, a empresa não respondeu.

No Brasil, o setor transitou com sucesso pelos impactos financeiros da transição. As empresas tiveram que requalificar os funcionários e desenvolver brigadas de combate aos incêndios nos canaviais, entre outras mudanças. A compra de colheitadeiras foi um dos maiores investimentos, segundo a União da Indústria de Cana-de-açúcar, um grupo comercial que representa usinas e fábricas de etanol.

Especialistas brasileiros notaram que as empresas da Flórida compraram máquinas de colheita e vêm fazendo uso delas há anos.

"Simplesmente vão usar a mesma máquina que colhe queimado e vão colher crua", disse Marcos Landell, diretor geral do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), uma importante instituição de pesquisa agropecuária e faculdade de pós-graduação no estado de São Paulo.

Subsídios teriam ajudado mudanças no Brasil

A indústria e autoridades governamentais na Flórida alegam que o Brasil fornece algum tipo de subsídio que ajudou a compensar os custos da transição. Autoridades governamentais e executivos do setor sucroalcooleira no Brasil refutaram essa alegação, dizendo que as empresas não receberam subsídios diretos. A indústria se beneficiou, porém, de políticas federais de apoio à agricultura, ao fomento da produção e uso do etanol e outras fontes de energias renováveis.

Nos Estados Unidos, o governo federal "apoia os preços do açúcar americanos, que geralmente estão bem acima dos preços comparáveis no mercado mundial", segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.

No Brasil, a transição para a colheita mecanizada resultou em perda de empregos, pois eram necessários menos trabalhadores para operar as máquinas novas do que para cortar a cana manualmente.

Ao longo do último ano, autoridades locais na Flórida e moradores das Glades disseram à ProPublica que eles temiam um resultado parecido se as queimas na Flórida parassem. Mas especialistas brasileiros nos disseram que não esperariam uma perda significativa de empregos na Flórida porque a colheita lá já é mecanizada, um processo que ocorreu na década de 1990.

Nos Estados Unidos, foram feitas poucas pesquisas sobre como a Flórida poderia fazer a transição para um novo método de colheita. Agrônomos na Universidade da Flórida fizeram um estudo sobre métodos de colheita alternativos e nos contaram que deixar a palha no solo da Flórida poderia tornar as plantas mais propensas ao congelamento e inibir o crescimento no curto prazo, mas poderiam gerar benefícios de longo prazo.

O estudo, que foi financiado pela Liga de Cana-de-açúcar da Flórida - um grupo da indústria - e o Departamento de Energia da Flórida, não examinou a viabilidade econômica, incluindo as implicações de trabalho, em tal transição.

Queimadas reguladas, em vez de proibidas

Autoridades na Flórida optaram por regular as queimas em vez de proibi-las. Mas a ProPublica e The Palm Beach Post descobriram que os reguladores se baseiam em um sistema de monitoramento de ar desgastado que não leva em conta os picos de poluição de curto prazo, uma marca registrada da queima de cana na Flórida.

Reconhecendo o potencial de dano humano, o Departamento da Flórida Agricultura e Serviços ao Consumidor aprovou novas restrições às queimas em 2019. Mas o número de queimas permitidas recentemente na safra de 2020-21 se compara ao dos anos anteriores.

A secretária de Agricultura, Nikki Fried, disse que acredita que "é possível que a colheita verde seja uma alternativa viável", mas seu gabinete disse que nenhum método de colheita alternativo "se mostrou uma opção ambiental e economicamente viável".

Enquanto isso, pesquisas do estado sobre os efeitos da queima de cana-de-açúcar na saúde parecem ter sido suspensas. Em 2016, pesquisadores do Departamento de Saúde da Flórida recomendaram uma análise de risco para a saúde depois de descobrirem que as queimas pré-colheita liberam poluentes tóxicos no ar.

Tal estudo avaliaria se os membros da comunidade tiveram doenças relacionadas aos poluentes que os pesquisadores encontraram. Mas, seis anos depois, o departamento ainda não produziu esse estudo. Ele não respondeu às perguntas sobre o porquê.

*Lulu Ramadan, do "The Palm Beach Post", e Letícia Klein da Ambiental Media contribuíram com a reportagem. Doris Burke contribuiu com a pesquisa.