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Reduflação: bombom 'sabor chocolate', manteiga sem gosto e mais reclamações

Bombom Sonho de Valsa com cobertura "sabor chocolate" - UOL
Bombom Sonho de Valsa com cobertura 'sabor chocolate' Imagem: UOL

Felipe de Souza

Colaboração para o UOL, em Campinas (SP)

09/06/2022 16h52Atualizada em 15/06/2022 16h21

A cada dia que passa mais consumidores estão reparando que, enquanto os preços dos produtos continuam subindo, a quantidade está cada vez menor e, a qualidade, pior.

São os efeitos da reduflação — quando fabricantes alteram características dos produtos, tornando-os menores ou com diferentes composições, para segurar a escalada de preços, afirmam economistas ouvidos pelo UOL.

A polêmica mais recente envolveu o leite condensado Moça, que tem uma versão feita com soro de leite e amido.

Leite moça - Felipe de Souza/UOL - Felipe de Souza/UOL
Reduflação: Descrição em embalagens mostram os diferentes componentes do produto "Moça", da Nestlé. À esquerda, mistura láctea. À direita, leite condensado.
Imagem: Felipe de Souza/UOL

Mas, novos relatos mostram que outros alimentos também foram modificados, como é o caso da cobertura de chocolate dos bombons Sonho de Valsa e Ouro Branco, que agora são feitos com uma camada "sabor chocolate".

A Mondelez Brasil, que fabrica os chocolates da Lacta, confirma a mudança do chocolate por "cobertura sabor chocolate" no caso do Sonho de Valsa e do Ouro Branco.

"A forma como são denominados e a disponibilização de informações sobre suas composições no rótulo são determinados por normas e padrões técnicos estabelecidos pelas autoridades competentes. Tais denominações foram comunicadas com clareza nas embalagens, peças publicitárias e demais materiais oficiais referentes aos produtos", informou a empresa, em nota.

No Twitter do UOL Economia, centenas de usuários contam outras experiências ruins que tiveram com empresas que mudaram tamanhos ou até composição de produtos. O incômodo chega de várias partes do Brasil, em vários tipos de alimentos produzidos pelo país.

Em uma resposta publicada em uma plataforma de reclamações na internet, a empresa Natural da Vaca Alimentos informou que deixou de produzir a manteiga convencional e mudou a composição.

"O nosso novo produto não reduziu a qualidade e os cuidados com a fabricação que sempre levamos em consideração. A manteiga é o principal ingrediente que prevalece na fórmula com mais da metade da composição. Ressaltamos que você não está comprando margarina. Afinal, o Alimento à Base de Manteiga e Creme Vegetal não contém margarina em sua composição, mas sim manteiga, creme vegetal, estabilizantes e conservantes", explica.

A reportagem procurou a Colgate-Palmolive, mas não conseguiu contato. Caso algum posicionamento seja encaminhado, este texto será atualizado.

Defesa do consumidor está atenta

Órgãos de defesa do consumidor de todo o país têm alertado sobre a situação, mas são poucos os que têm dados disponíveis sobre reclamações de reduflação — a maioria das denúncias é caracterizada como "propaganda enganosa".

A Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor) registrou aumento de 19,2% nas reclamações por propaganda enganosa nos quatro primeiros meses de 2022, na comparação com o mesmo período do ano passado.

O Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) informou ao UOL que não tem número de reclamações, mas que tem notado um uso maior desta tática em várias empresas.

"A prática de reduflação, além de abusiva e oportunista por promover um aumento de preços de forma obscura, confunde os consumidores que já estão fragilizados pela crise econômica. Em muitos casos se valem de argumentos como a adequação ao novo arranjo das famílias, entre outros, para agir assim, demonstrando falta de comprometimento e desrespeito com os consumidores", afirma a coordenadora do programa de serviços financeiros do Idec, Ione Amorim.

Um levantamento feito pelo Reclame Aqui, plataforma que reúne queixas de consumidores, mostra que 79% dos usuários do site notaram que as embalagens têm reduzido. Porém, 83% deles não sabem o que é reduflação.

"É uma atitude de infantilização do consumidor, como se ele não fosse perceber. Mas, na pesquisa, 24,2% dos consumidores notaram que as empresas fazem isso há mais de três anos. Ou seja, consideram que as marcas realizam essa prática o tempo todo. É muito ruim para um ambiente de negócios e consumo", analisa Edu Neves, CEO do Reclame Aqui.

Questionado se as empresas têm dado respostas para as reclamações, Neves explica que o consumidor não fala diretamente com a marca sobre a prática, mas que, quando percebe que não há uma solução direta, abandona o produto — 62,9% dos entrevistados, inclusive, disseram fazer isso.

"Do lado da empresa, enquanto o volume de reclamação não for grande, a sensação é que não está acontecendo, que o problema não existe", avalia.

A redução das quantidades e a mudança na composição dos produtos são permitidas pelo Código de Defesa do Consumidor, desde que devidamente comunicadas nas embalagens em tamanho legível e mantidas por, no mínimo, três meses, sob pena de multa que pode chegar a R$ 9,9 milhões.