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Mais emprego: veja em que setores e como a reabertura pós-covid cria vagas

Reabertura da economia depois da pandemia cria vagas de maneira sustentável, dizem analistas - Eduardo Matysiak/Futura Press/Estadão Conteúdo
Reabertura da economia depois da pandemia cria vagas de maneira sustentável, dizem analistas Imagem: Eduardo Matysiak/Futura Press/Estadão Conteúdo

Do UOL, em São Paulo

17/08/2022 04h00

O mercado de trabalho brasileiro está se recuperando nos últimos meses, de acordo com dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios). A pesquisa divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostra que o número de pessoas desempregadas caiu —passou de 11,94 milhões para 10,08 milhões do primeiro para o segundo trimestre deste ano. Em comparação com o segundo trimestre do ano passado, a queda é ainda maior: na época, havia 14,83 milhões de pessoas desempregadas no país.

No segundo trimestre deste ano, 98,26 milhões de brasileiros estavam ocupados, frente a 89,38 milhões no mesmo período do ano passado. Veja a seguir por que e como estão crescendo as oportunidades de emprego no Brasil.

O que está melhorando no país? O economista da LCA Consultores Bruno Imaizumi diz que o mercado de trabalho está se recuperando de forma robusta e que a reabertura da economia ajudou praticamente todos os setores, principalmente os que são mais dependentes do atendimento presencial e foram mais prejudicados pela pandemia, como hotéis, restaurantes, comércio e serviços domésticos (como empregadas domésticas, motoristas e cozinheiros).

Lucas Assis, economista e analista da Tendências Consultoria, afirma que as empresas que mais demitiram durante a pandemia estão retomando as contratações para repor essa mão de obra, como é o caso dos restaurantes, bares e hotéis, maior destaque na Pnad. Estas vagas entram no segmento batizado pelo IBGE de alojamento e alimentação, que foi o que mais cresceu em comparação ao segundo trimestre do ano passado, com alta de 23,1%.

Quais os setores que mais contrataram? As contratações no setor de serviços são as que mais ajudaram a derrubar a taxa de desemprego no país.

Serviços incluem hotéis e restaurantes, que ficaram fechados e sofreram muito na pandemia. Tiveram de demitir e agora estão se recuperando com contratações.

O item chamado de outros serviços pelo IBGE é o segundo que mais cresceu em retomada de empregos. Esse setor inclui salões de beleza, lavanderias e pet shops. Também sentiu bastante o impacto da pandemia.

E o terceiro colocado na geração de empregos foi o comércio em geral, que também ficou fechado na pior fase da pandemia.

A soma dessas três primeiras categorias mostra que elas empregam cerca de 16,44 milhões de brasileiros.

Veja o número de pessoas empregadas por setor e a variação em comparação ao segundo trimestre do ano passado:

  • Alojamento e alimentação: 5,44 milhões (23,1%)
  • Outros serviços: 5,11 milhões (18,7%)
  • Serviços domésticos: 5,89 milhões (18,7%)
  • Comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas: 18,95 milhões (14,2%)
  • Construção: 7,48 milhões (11,2%)
  • Indústria geral: 12,65 milhões (10,2%)
  • Transporte, armazenagem e correio: 5,11 milhões (10%)
  • Administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais: 17,09 milhões (5,5%)
  • Informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas: 11,67 milhões (5,1%)
  • Agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura: 8,78 milhões (-0,7%)

Benefícios sociais ajudaram comércio: Imaizumi diz que o comércio foi beneficiado pela reabertura da economia e pelo aumento de dinheiro em circulação do mercado, com a entrada dos saques extraordinários do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) e a antecipação do 13º para aposentados e pensionistas do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

Como o comércio está contratando mesmo com inflação e menos consumo? No primeiro semestre do ano, o número de vendas subiu 1,4% e o faturamento aumentou 16,9% em comparação com o mesmo período do ano passado. As pessoas não estão comprando tantos produtos, mas, como eles estão mais caros, o faturamento das empresas também cresce.

Mauro Rochlin, professor de MBAs da FGV (Fundação Getulio Vargas), afirma que o Auxílio Brasil também ajudou a aumentar as contratações no comércio, já que há mais dinheiro em circulação na economia.

O Auxílio Brasil substituiu o Bolsa Família, aumentando o valor que as famílias recebem. O valor oficial do benefício é de R$ 400, mas foi aprovado um aumento provisório, de agosto a dezembro deste ano, para R$ 600. O Bolsa Família era de R$ 190, em média.

Como a indústria está contratando mesmo com queda na produção? A indústria contratou mais mesmo com queda na produção industrial no primeiro semestre do ano porque o setor também se recuperou com a reabertura da economia. Com a covid-19, as fábricas precisaram mudar o esquema de trabalho para garantir o distanciamento entre os funcionários, o que causou demissões, e agora está havendo recontratações.

O aumento das vagas no setor é reflexo da retomada da economia, com as fábricas sem restrições impostas pela pandemia. O setor está contratando para repor os trabalhadores que foram cortadas nos momentos de maior isolamento social, diz Imaizumi.

Em junho, a produção industrial teve queda de 0,4% em comparação ao mês anterior, interrompendo quatro meses seguidos de alta. De janeiro a junho, tem queda de 2,2% em comparação ao primeiro semestre de 2021, de acordo com dados do IBGE.

Aumento efetivo da população ocupada: Assis diz que a recuperação do mercado de trabalho é sólida, principalmente com o crescimento da população ocupada.

Parece óbvio, mas nem sempre uma queda na taxa de desemprego significa que o número de pessoas ocupadas aumentou. O desemprego pode cair, por exemplo, por um aumento no número de pessoas que desistem de buscar vagas no mercado de trabalho. Quando a pessoa desiste de procurar emprego, ela não entra na estatística do IBGE como desempregada. Isso diminui artificialmente o número de desemprego. O cenário atual é de queda de desemprego e aumento efetivo de pessoas ocupadas no mercado de trabalho. Há mais pessoas procurando e encontrando uma vaga.

O que ainda precisa melhorar? Apesar do aumento no número de pessoas que estão no mercado de trabalho, os salários estão mais baixos do que antes e há também muita contratação informal (sem carteira assinada).

No segundo trimestre deste ano, o salário médio das pessoas ocupadas era de R$ 2.652. No mesmo período do ano passado, era de R$ 2.794, o que representa uma queda de 5,1%. A taxa de informalidade ficou em 40% no segundo trimestre, atingindo 39,3 milhões.

Apesar de a informalidade ter uma participação mais forte no mercado, o número de contratações com carteira assinada também aumentou — passou de 10,60 milhões no segundo trimestre de 2021 para 13,04 milhões no mesmo período desse ano, uma alta de 23%.

Eduardo Correia, professor do Insper, diz que a queda dos salários foi motivada pelo alto desemprego causado pela pandemia. Para voltar ao mercado, muitas pessoas aceitaram vagas com salários menores ou até mesmo como informais.

Imaizumi afirma que o país tem um problema estrutural que dificulta melhorias no mercado de trabalho. Hoje os brasileiros não têm a qualificação pedida pelo mercado, o que faz com que ganhem salários menores e não tenham a produtividade que poderiam ter.

Qual o cenário para os próximos meses? Os especialistas ouvidos pelo UOL afirmam que o desemprego deve aumentar um pouco no segundo semestre em comparação ao primeiro pela instabilidade provocada pelas eleições presidenciais e pela inflação, que apesar de dar sinais de desaceleração, ainda acumula alta de dois dígitos.

Apesar do cenário desafiador, os especialistas dizem que a taxa de desocupação não deve voltar aos dois dígitos até o final do ano.