Com preço em alta, arroz e feijão devem ser vilões da inflação em 2024

O preço de alimentos e bebidas teve alta de 1,03% em 2023, segundo o IPCA divulgado nesta quinta-feira (11). No ano passado, o arroz (24,54%), o feijão preto (13,2%) e o azeite de oliva (37,11%) registraram aumentos expressivos.

No final de 2023, a produção de alimentos foi impactada por frequentes tempestades no Sul e secas no Centro-Oeste e Norte. E neste ano tudo indica que não vai ser diferente. Os eventos climáticos que despertam atenção do mundo, juntamente com o fenômeno natural El Niño, provavelmente terão consequência no bolso do consumidor.

O que deve acontecer

Os preços podem subir e uma parcela da população sofrerá mais. O professor e coordenador do Instituto de Finanças da Fecap (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado), Ahmed Sameer El Khatib, diz que a inflação do Brasil possivelmente ficará dentro da meta —-que é de 3% em 2024, com intervalo de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Ele acredita que os alimentos vão pesar no bolso de pessoas de baixa renda, mas nada comparado com os anos marcados pela pandemia de covid-19.

Os registros de fortes chuvas e secas devem impactar a produção de alimentos. Com o cenário atual de chuvas frequentes e tempo seco acima do normal em diversas partes do país, El Khatib declara que os produtores terão dificuldade na colheita. Ele afirma que o país não corre risco de desabastecimento, mas alerta para a possibilidade de quebra de safra.

Em 2024, a safra agrícola será 2,8% menor do que no ano passado, prevê o IBGE. De acordo com o terceiro Prognóstico para a Produção Agrícola publicado na quarta-feira (10), a produção será de 306,8 milhões de toneladas, 8,9 milhões de toneladas a menos do que em 2023. Só a soja deve quebrar recorde na produção, com estimativa 154 milhões de toneladas (+1,7%). O órgão aponta que os eventos climáticos são uma das causas para essa expectativa redução.

Uma inflação de 4,5%, ainda que dentro da meta, vai trazer um certo desconforto para a população de baixa renda, haja vista que os salários não acompanham minimamente os aumentos para fazer frente à inflação.
Ahmed Sameer El Khatib, professor da Fecap

Alimentos básicos vão ficar mais caros, preveem analistas

O prato do brasileiro deve ficar mais salgado em 2024. Sob influência dos eventos climáticos recentes, o arroz subiu 5,81% e feijão carioca, por sua vez, aumentou 13,79% em dezembro. O sócio-diretor da consultoria MB Agro, José Carlos Hausknecht, afirma que uma possível quebra de safra pode deixar o arroz e feijão mais caros. Novamente, os preços não chegarão aos níveis de 2020 a 2022.

O cenário de diminuição na produção, porém, ainda é de incerteza. Por causa das tempestades, os produtores de arroz tiveram de replantar as sementes com atraso, o que deve impactar a colheita até meados de maio. Do lado do feijão, Hausknecht declara que ainda restam duas safras, que serão ofertadas entre abril e outubro, para ter uma fotografia completa. "A primeira não foi boa e os preços subiram. Mas isso pode ser compensado se as próximas forem boas."

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O cultivo de laranja desperta cuidados adicionais da parte de quem produz. Uma doença chamada greening, causada por uma bactéria e transmitida por um inseto de nome psilídeo, é considerada sem cura porque traz a perda irreversível da planta, uma vez contaminada, e ainda pode contaminar outras. Como consequência, a produção está em queda e os preços, em alta. Em 2023, a laranja-pera —a mais consumida no Brasil—ficou 25,45% mais cara.

Os preços da laranja provavelmente baterão recorde este ano, continuarão muito altos, talvez mais altos do que o ano passado.
José Carlos Hausknecht, sócio-diretor da MB Agro

Diferentemente de 2023, as carnes de aves e de porco devem subir este ano. Na avaliação do sócio-diretor da consultoria Pátria Agronegócios, Cristiano Palavro, a soja e o milho que alimentam esses animais têm sofrido pressão no preço e podem encarecer essas proteínas.

Há uma demanda externa também bem aquecida por esses produtos [carnes de aves e de porco]. Então, toda essa balança de exportações pode pesar sobre os preços.
Cristiano Palavro, sócio-diretor da Pátria Agronegócios

Verduras e legumes também despertam inquietação no campo. Segundo Palavro, as chuvas e o calor desproporcionais podem ter influência direta nos próximos meses. No entanto, ele acredita esses efeitos serão amenizados ao final do El Niño, que deve durar até o primeiro semestre. "Uma vantagem é que cenoura, batata, cebola e tomate são culturas majoritariamente irrigadas, ou seja, elas não sofrem tanto o efeito da falta de chuvas", conclui.

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