Sem expulsar ninguém: cafeterias viram 'home office' de autônomos

Quando um cliente entra no Mug Café, o atendente pergunta se ele veio a trabalho e logo aponta para mesas próximas a tomadas. "Está na nossa história recepcionar assim", diz o gerente Alexandre Magalhães Jr, responsável pela unidade do bairro Santa Cecília, no centro de São Paulo.

Fenômeno dos tempos atuais, a abertura de cafeterias que oferecem refeições e internet para trabalhar, antes restritas a gigantes como Starbucks, é uma aposta de pequenas e médias cafeterias em grandes cidades brasileiras. Em cinco anos, o Mug abriu quatro unidades na capital paulista.

"É uma cultura nova no Brasil. Depois da pandemia, as pessoas não necessariamente voltaram a trabalhar no escritório", afirma. "Nós chamamos nossos clientes para trabalharem aqui porque o consumo é mais intenso aos finais de semana."

Clientes veem cafeterias como refúgio

A escritora e roteirista Leda Cartum vai a cafés toda semana para trabalhar. Sair de casa ajuda a respirar ares diferentes e ter mais foco com demandas, segundo a freelancer. Ela frequenta esses espaços geralmente para escrever e evita reuniões online por causa do barulho ao redor. "Eu venho e tomo um, dois cafés e fico no computador. Não dá para entrar sem consumir", diz ela, que ocupava uma das mesas do Mug na Santa Cecília.

A publicitária Camila Pinheiro compartilha do mesmo hábito. Porém, ela costuma ligar com antecedência em cafeterias para saber se a casa tem wi-fi e se consumidores com notebook são bem-vindos.

"Muitos lugares não têm estrutura para receber pessoas que têm flexibilidade de trabalho. É importante se adaptarem porque a demanda é grande e é benéfico para o comércio", declara Pinheiro, que dividia uma mesa com mais três colegas de profissão no Sofa Café da região central.

Beatriz Torres, também publicitária, se sente à vontade para almoçar ao mesmo tempo em que está com o computador ligado. Ela, no entanto, destaca que nem todos os espaços aprenderam a esse tipo de cliente. "Eu não gosto de ir para coworking, é muito barulhento. As pessoas em cafés são mais contidas. É um contato mais humano."

Beatriz Torres (ao alto à esquerda) e Camila Pinheiro (ao alto à direita) dizem que nem todos os cafés são receptivos com quem trabalha
Beatriz Torres (ao alto à esquerda) e Camila Pinheiro (ao alto à direita) dizem que nem todos os cafés são receptivos com quem trabalha Imagem: Henrique Santiago/UOL
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O segredo é conversar com o cliente, afirma gerente

Na última semana, viralizou nas redes sociais um vídeo em que um dono de padaria expulsa com um pedaço de madeira em mãos um cliente que deixou um notebook aberto sobre a mesa. Não há lei no Brasil sobre a liberação ou proibição do uso de aparelhos eletrônicos no comércio, então cada empresário define sua estratégia de negócio.

O gerente de treinamento da franquia Sofá Café, Paulo Gabriel, está habituado a receber consumidores que passam a manhã ou a tarde inteira a trabalho. Ele está à frente de quatro cafeterias, uma delas em Pinheiros, na esquina com a avenida Faria Lima, centro financeiro do país, e outra na Vila Olímpia, repleta de prédios comerciais.

Para Gabriel, é normal pedir que clientes sentados a mesas com três ou quatro cadeiras troquem de lugar nos picos de atendimento. A conversa é levada com "muito respeito", diz, e dá certo na maioria das vezes. Poucos reclamam, assegura.

Quem está em uma região comercial [Faria Lima e Vila Olímpia] geralmente tem muita pressa, pede um café porque precisa voltar rápido ao trabalho. Já o cliente daqui [na unidade da Santa Cecília, inaugurada há dois anos] vem e fica à mais vontade porque provavelmente tem mais tempo.
Paulo Gabriel, gerente de treinamento do Sofá Café

Mais afastado do centro, o Espaço Sophia, que funciona como café, coworking e livraria no mesmo imóvel, tem a clientela fiel do bairro Anália Franco, na zona leste da capital. A proprietária Thais Guimarães Pimentel afirma que, por estar em uma região mais residencial, é preciso ainda mais conquistar o cliente.

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Isso porque o cliente fiel gasta mais. Pimentel declara que o consumidor até pode beber um café em uma primeira ida, mas as visitas recorrentes fazem com que o ticket médio suba significativamente, com a compra de um almoço ou livros, por exemplo. Segundo ela, a cafeteria representa hoje metade do faturamento da empresa.

"O cliente fica o dia inteiro, toma três cafés e vai embora. Quanto ele consumiu? 15 reais. Compensa? Compensa porque eu tenho a casa cheia, bonita e com movimento. Eu já sabia que passaria por esse tipo quando decidi abrir o Espaço Sophia."

Thais Guimarães Pimentel é dona de uma cafeteria multiuso localizada em um bairro residencial
Thais Guimarães Pimentel é dona de uma cafeteria multiuso localizada em um bairro residencial Imagem: Henrique Santiago/UOL

'Se você está no varejo, qualquer pessoa é bem-vinda'

A proibição do uso de equipamentos eletrônicos em cafés e padarias é um risco para os negócios, diz Marina Borges, vice-presidente da consultoria em gestão de empresas Mid Falconi. Na avaliação da especialista, empresários perdem um público que consome em horários de menor movimento.

"Eu não acho legal proibir qualquer cliente de entrar em seu estabelecimento. O que se pode fazer é usar de estratégias como informar que o ambiente não é silencioso para trabalhar ou que a casa exige uma consumação mínima. O cliente decide se fica ou não."

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A professora da FIA Business School Samantha Mazzero diz que qualquer negócio, independentemente do tamanho, consegue se beneficiar da abertura da casa quem busca trabalhar e consumir. Entretanto, ela alerta que uma cafeteria pequena provavelmente realiza vendas menores ao deixar de atender clientes que vão para almoçar, por exemplo.

Estratégias à parte, a liberdade de trabalhar onde quiser veio para ficar, principalmente para trabalhadores autônomos, avalia Thiago Roveri, diretor de pesquisas, pessoas e curadoria de talentos da Mais Diversidade. Ele acredita que empresas que já eliminam o trabalho remoto depois da pandemia dificilmente abrirão essa exceção.

O excesso de ficar em casa gerou essa necessidade. E agora é muito mais fácil ver pessoas trabalharem em outros lugares.
Thiago Roveri, diretor da Mais Diversidade

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