Inflação dos alimentos avança, apesar de ações do governo para segurar alta
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As medidas anunciadas pelo governo federal no início do mês para limitar a alta de preço dos alimentos ainda não surtiram efeito no bolso das famílias. Na primeira quinzena de março, a inflação da cesta de alimentos e bebidas foi de 1,09% e exerceu o maior impacto para a variação de 0,64% do IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo - 15) neste mês.
O que aconteceu
Inflação dos alimentos ganha força em março. A alta de 1,09% apurada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) é superior à alta de 0,61% registrada em fevereiro. Em 12 meses, os preços acumulam variação positiva de 7,42%.
Alimentação dentro de casa foi a principal vilã. A taxa de 1,25% foi ocasionada, principalmente, pelo encarecimento do ovo de galinha (+19,44%), do tomate (+12,57%), do café moído (+8,53%) e das frutas (+1,96%), das quais se destacam a manga (+15,83%), o mamão (15,19%) e a melancia (15,08%).
Peso no bolso também atinge o consumo na rua. A alimentação fora do domicílio também ganhou força e foi de 0,66% em março, ante alta de 0,56% apurada em fevereiro. No subgrupo, foram apontadas elevações dos preços da refeição (+0,62%) e do lanche (0,68%).
Confira as maiores altas nominais:
- Ovo de galinha: +19,44%
- Manga: +15,83%
- Mamão: +15,19%
- Melancia: +15,08%
- Tomate: +12,57%
Hortaliças e verduras também têm papel de destaque. A variação positiva de 5,99% faz do subgrupo aquele com a maior alta nominal do IPCA-15 de março. Entre os itens do núcleo, chamam atenção as altas do brócolis (+8,18%), da alface (+6,53%) e do cheiro-verde (+4,9%).
Aceleração dos preços veio dentro das expectativas. Segundo especialistas, a inflação dos alimentos acima de 1% surge alinhada com as projeções do mercado financeiro. André Valério, economista sênior do Inter, explica que o cenário reflete, principalmente, a valorização dos ovos e do café no mercado internacional. "É um movimento que tem ocorrido nos preços dos alimentos desde outubro e com rotação nos itens mais pressionados", afirma.
Dados reforçam a manutenção dos preços em alta. Gilberto Braga, professor de economia do Ibmec, classifica a aceleração da inflação de alimentos como um indicativo de que os preços permanecerão mais salgados aos consumidores. "Não houve reversão de uma maneira mediana dos aumentos, e a pressão vai continuar", diz Braga.
Esforço do governo
Iniciativas para segurar os preços ainda não surtem efeito. No início deste mês, o governo federal zerou, por tempo indeterminado, a alíquota de importação de dez produtos alimentícios. A lista conta com as carnes, o café e o azeite de oliva, três dos vilões recentes da inflação.
Isenção só deve chegar às gôndolas em 30 ou 60 dias. A projeção foi apresentada pela ministra do Planejamento, Simone Tebet, durante participação no programa Bom Dia, Ministra. Para o economista-chefe da Apas (Associação Paulista de Supermercados), Felipe Queiroz, o óleo de girassol é aquele que terá o efeito mais imediato.
Alívio efetivo no bolso das famílias ainda é incerto. Ao analisar que as recentes pressões da inflação surgem devido à oferta global dos produtos, Valério prevê pouco impacto ao consumidor final. "Os alimentos que tiveram isenção no imposto de importação têm pouco peso nas importações, além de serem produtos com excesso de produção no Brasil", observa o economista.
As pressões nos preços de alimentos são oriundas de quebras na cadeia produtiva, diminuindo a oferta desses alimentos, enquanto a demanda por eles é inelástica, por serem bens essenciais.
André Valério, economista sênior do Inter
Outras cinco medidas também entraram em vigor. As decisões envolvem a ampliação da inspeção do abate de animais de 1.500 para 3.000 municípios, a prioridade para alimentos no financiamento via Plano Safra, a negociação para a isenção do ICMS de produtos da cesta básica, o fortalecimento para o fim dos estoques reguladores e o lançamento de um programa de publicidade dos melhores preços.
Desvalorização do dólar terá um efeito positivo. A persistência da queda de 7,2% registrada na cotação da moeda norte-americana ante o real no acumulado de 2025 tende a surtir efeito no médio prazo. "É possível que a manutenção de um câmbio mais baixo, dentro desse ciclo econômico, produza algum alívio no futuro, caso seja mantido", avalia Braga.
O processo de importação não é instantâneo e demanda um tempo entre a aquisição, o pagamento, a importação logística, o desembaraço e a distribuição até o produto chegar na gôndola dos supermercados para o consumidor.
Gilberto Braga, professor de economia do Ibmec
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