BRB vai ficar apenas com a parte boa do Master, diz CEO do banco estatal
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Desde sexta-feira, quando anunciou a compra do Banco Master, Paulo Henrique Costa, presidente do banco estatal de Brasília BRB, vem tentando explicar a lógica do negócio, em meio a uma avaliação geral de se tratar de uma operação pública de salvamento do banco controlado por Daniel Vorcaro.
O BRB está se associando a um empresário polêmico, que construiu um banco considerado uma caixa-preta, com ativos de qualidade questionável. Vorcaro ganhou os holofotes nos últimos cinco anos com uma estratégia que elevou a carteira do Master de R$ 2,5 bilhões para R$ 45 bilhões, quase que exclusivamente captados por meio de CDBs. Fez isso oferecendo retornos muito acima da média do mercado, em torno de 120% a 140% de CDI, e pagando comissões igualmente agressivas para agentes de investimento das grandes corretoras. O mercado desconfia da capacidade do banco de honrar esses depósitos, dado que possui uma carteira de ativos de alto risco, com bilhões em precatórios e ações em empresas que o mercado vê como problemáticas. Vorcaro tem ainda um histórico de condenações na CVM por manipulação de mercado e supervalorização de ativos. Sem falar no lobby agressivo, patrocinando eventos com a nata do Judiciário na Europa.
A solução desenhada foi separar a parte explicitamente problemática do negócio mais saudável do Master. A operação com o BRB deixa de fora R$ 23 bilhões em ativos estressados, como os precatórios e os fundos de participação em ações de empresas. O balanço do Master referente a 2024 ainda não foi publicado mas, segundo Costa, restariam ainda R$ 50 bilhões de ativos. É aqui que o Banco Central vai ter que se debruçar, para investigar a qualidade desses ativos.
O caso remete ao banco Panamericano, do Grupo Silvio Santos: a Caixa comprou o banco em 2009, e um ano depois foi revelada uma fraude contábil de R$ 2,5 bilhões, com o balanço inflado por ativos fictícios. O Fundo Garantidor de Crédito foi acionado e arcou com R$ 3,8 bilhões. Posteriormente, a Caixa vendeu o Pan para o BTG.
O BRB está avaliando o Master com um desconto de 75% no valor do patrimônio líquido de R$ 4,6 bilhões. Por 58% do capital total e 49% das ações ordinárias, está pagando R$ 2,001 bilhões. Mas, para o negócio se concretizar, antes Vorcaro terá de fazer uma capitalização de R$ 2 bilhões no banco.
Esta tampouco será a primeira operação do BRB com o Master. No ano passado, o banco estatal já tinha adquirido uma carteira de R$ 8 bilhões de cartão de crédito consignado.
Muita coisa deve mudar no Master, que deixará de existir como marca, caso a operação seja aprovada pelo Banco Central e pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). Costa diz que os novos CDBs pagarão rendimentos em linha com o mercado, menos de 100% do CDI, e que a atuação vai ser mais discreta do que os patrocínios de eventos em Londres e Lisboa.
Como foi a aproximação com o Master?
Em outubro passado compramos uma carteira de R$ 8 bilhões do cartão de crédito consignado do Master. Foi aí que começamos a entender o funcionamento desse banco. Em janeiro, a gente foi provocado formalmente pelo Master perguntando se nós tínhamos interesse em fazer alguma parceria estratégica ou societária. Aí a gente engajou a PwC e o escritório Lefosse Advogados para avaliar sinergias e fazer uma diligência contábil, fiscal, trabalhista, operacional, tecnológica. No caso do Lefosse, também uma diligência legal. O negócio avançou e, na semana passada, a gente assinou esse contrato de compra e venda. Mas o negócio depende da conclusão das diligências e de uma reorganização societária do Banco Master.
Quando a due diligence deve ser concluída?
Eu imagino que em 30 dias a gente conclui o que falta da due diligence. Boa parte dela já foi realizada. De qualquer forma, já avaliamos a estrutura do Master, e a gente definiu um plano estratégico de operação para esse novo banco. Definimos também que uma série de linhas de negócio vai ficar de fora e algumas empresas também: precatórios, direitos creditórios relativos a ações judiciais, fundos de investimento em ações de empresas que não fazem parte do mercado financeiro ou do escopo de atuação desse novo conglomerado. Isso dá aproximadamente R$ 23 bilhões, que já foram excluídos do escopo da nossa transação.
O Master não divulgou balanço ainda. Qual o total de ativos com o qual vocês estão trabalhando?
São R$ 73 bilhões em ativos. E um patrimônio líquido de R$ 4,6 bilhões. Avaliamos o banco em 75% do patrimônio e estamos pagando R$ 2,001 bilhões por 58% do capital total do banco. Mas lembre: há cinco condicionantes para esse negócio se concretizar. E uma delas é que seja feito antes um aporte de R$ 2 bilhões pelo controlador do Master.
O sr. falou que foi procurado pelo Master. Foi por meio do ex-ministro Guido Mantega que eles chegaram até você?
Não, eles não precisam de intermediário, não é? A gente já vinha comprando as carteiras deles.
Foi noticiado que o BTG ofereceu só R$ 1 pelo Master, e o sr. está oferecendo cerca de R$ 2,001 bilhões.
É muito difícil a gente fazer uma avaliação sobre o escopo do que cada um estava comprando. Eu não sei qual era a transação do BTG. No meu caso, a gente já selecionou os ativos que a gente avaliou que fazem sentido e que têm uma qualidade superior. Quando eu falo de qualidade, eu estou envolvendo fidelidade, retorno, análise de garantias.
O Master cresceu muito rápido, de uma maneira muito agressiva com esses CDBs, pagando de 120% a 140% de retorno. Você vai continuar com essa mesma política?
Não. O BRB tem uma estrutura de captação bem mais estável, bem mais barata e bem mais diversificada. À medida em que esses CDBs forem vencendo, novos CDBs a custos mais baratos serão emitidos pelo BRB. O investidor estará comprando títulos de um banco maior, mais diversificado. É natural que as taxas de juros que a gente pague se aproxime mais das taxas que os outros grandes bancos pagam. O custo médio de captação do BRB é 89% do CDI. Mas esse é um processo de substituição lenta, com a integração dos bancos. É um horizonte de cinco anos.
Seu novo sócio, se essa operação for aprovada, já foi condenado na CVM por superfaturamento de ativo e manipulação de preços. Ele tem um histórico controverso. Isso não pesou na sua avaliação?
Nós fizemos várias avaliações, inclusive legais, com os escritórios que foram contratados. E em todas as avaliações que foram realizadas, o resultado foi favorável para que a gente seguisse com a transação. É importante a gente entender também que muda um pouco a estrutura de governança do Master. Ao virar cocontrolador, o BRB vai passar a ter uma participação de metade menos um em cada um dos órgãos de governança: no conselho de administração, no conselho fiscal, no comitê de auditoria, na própria diretoria executiva. Além disso, a gente vai ter um acordo de acionistas que garante uma série de votos afirmativos em matérias importantes como orçamento, planejamento estratégico, nomeação de executivos e conselheiros, cumpra e venda de ativos. O BRB, por ser um banco público, tem um padrão de governança elevado, com uma estrutura de comitês e um processo decisório bastante estruturado.
Qual a lógica econômica da aquisição?
Com essa transação, o BRB deixa de ser de um banco regional que atuava somente em consignado. Há alguns anos, o BRB estabeleceu um planejamento estratégico de crescer pelo país, diversificar os seus negócios e ser um banco mais completo. A nossa avaliação é que não existe espaço no mercado para um banco muito pequeno. Então nós seguimos crescendo, principalmente no varejo pessoa física e pessoa jurídica e nos créditos imobiliário e rural. Mas a gente não conseguiu avançar estrategicamente, do jeito que a gente gostaria, em determinados segmentos de mercado que são mais sofisticados, como o mercado de capitais, como o câmbio, como o atacado com médias e grandes empresas. E interessa muito o nosso posicionamento junto ao setor público, que é o cartão de crédito consignado. Entendemos que há uma complementaridade de negócios, que pode aumentar a rentabilidade do BRB, a nossa escala e a nossa capacidade de competir. O BRB tem uma carteira de muito baixo risco e uma rentabilidade menor. O Master tem uma carteira com uma rentabilidade maior. A mescla dessas duas carteiras vai aumentar a rentabilidade do conglomerado. Isso também é importante pra gente. A gente diminui o custo de captação do Master e aumenta a rentabilidade do BRB. Essa equação traz um banco mais viável, mais competitivo, maior.
Os poucos bancos estaduais públicos que restam têm uma atuação estadual. Por que o BRB quer ser um banco nacional?
É um entendimento nosso, estratégico, de que não existe espaço no mercado financeiro brasileiro para bancos muito pequenos, muito concentrados em um produto, em uma região, em um tipo de cliente. O mercado financeiro brasileiro é muito competitivo. Se você não se torna um banco completo, um banco de primeiro relacionamento, um banco que realmente tem a principalidade do cliente, você termina perdendo espaço competitivo. Esse não é um movimento recente. Desde 2019, que a gente tá reposicionando o banco. Hoje, a gente tem clientes em 97% do território nacional. A gente tem rede física em mais de 20 estados. Somos líderes do financiamento imobiliário e rural no DF, mas o terceiro maior financiador na Paraíba. O quarto maior financiador em Goiás. Somos o sexto maior banco de financiamento imobiliário no Brasil. O que a gente quer agora é crescer em outros segmentos que a gente não conseguiu crescer para ser um banco diversificado, completo. Isso aumenta a rentabilidade, aumenta a confiança do cliente, aumenta a nossa capacidade de competir.
O Master tinha uma estratégia de patrocinar eventos com juízes em Lisboa, em Londres. Vocês vão seguir com essa política?
A atuação do Master, a partir da autorização pelo Banco Central, vai refletir muito mais o modelo de negócio e posicionamento do BRB do que esse caminho que eles trilharam até agora. Veja, é um caminho que tem seus méritos, que merece respeito em um banco que cresceu bastante. Mas o modelo de negócio que a gente está trazendo é diferente.
14 comentários
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Antonio Jose Pereira Pinto
Cada dia uma mutreta nova, isto é Brasil.
Bruno Leite Ferreira
Meu dinheiro, seu dinheiro sendo usado para salvar banco quebrado e manter bilionário aqueles que já são bilionários ! É claro, o Banco Master é seu acionista passou as últimas décadas agradando políticos de esquerda, direita, centro… membros do judiciário… agora chegou a hora de cobrar os favores ! É assim que o mundo funciona… e vc é eu pagamos a conta ! Viva o Brasil 嵐
Celso Scatena
Cara de rolo. Melhor dinheiro público fora disto é desta gente.