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Em ano de eleição, bancos públicos elevam lucro com menos crédito e cobrando mais tarifas

Aluisio Alves

22/11/2018 09h06

SÃO PAULO, 22 Nov (Reuters) - Os bancos federais tiveram forte alta do lucro nos primeiros nove meses de 2018 com uma combinação incomum em ano eleitoral: redução de custos administrativos, aumento das receitas com tarifas e encolhimento do crédito.

De janeiro a setembro, o lucro líquido somado de Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) cresceu 55% em relação ao mesmo período de 2017, para R$ 26,9 bilhões.

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No período, o estoque de crédito conjunto das três instituições financeiras controladas pelo governo encolheu 3%, para R$ 1,7 trilhão. O efeito desse declínio foi mais do que compensado com o aumento do spread --diferença entre custo da captação de recursos e o cobrado no empréstimo a clientes.

No BNDES, esse aumento foi um reflexo da troca da principal referência usada para os empréstimos feitos pelo banco, da subsidiada TJLP pela TJP, mais atrelada a taxas de mercado, a partir de janeiro passado.

Nos bancos de varejo, o mesmo movimento de alta do juro médio aconteceu de forma mais espontânea. De um lado, BB e Caixa se concentraram mais nos empréstimos a pessoas físicas, com margens maiores do que as operações com grandes empresas.

Segundo dados do Banco Central, entre os grandes bancos, a taxa cobrada pela Caixa Econômica Federal no fim de outubro era a segunda mais alta entre os grandes bancos, a 12,4% ao mês, só atrás do Santander Brasil, com 14,7%. Caixa e BB também tinham as taxas de mercado mais altas para financiamento imobiliário, também segundo dados do BC referentes ao mês passado.

"Buscamos ser competitivos, não necessariamente praticando as menores taxas", disse a jornalistas o presidente da Caixa Econômica, Nelson Antonio de Souza, durante a apresentação dos resultados do terceiro trimestre, na semana passada. 

O desempenho dos bancos estatais ocorre em meio à situação de déficit do governo, que tem motivado disciplina nos custos dos bancos públicos. E uma parte relevante do aumento do lucro das instituições foi justamente derivada da queda das despesas. No BB, os gastos administrativos subiram 0,8% em 2018 até setembro, ante mesma etapa do ano passado, menor do que o previsto. A Caixa foi ainda mais longe, com a folha de salários recuando 7,1%.

Outro apoio importante veio das provisões para perdas com calotes esperadas, as chamadas PDD. Só com elas, foi um gasto 30% menor do que nos primeiros nove meses de 2017, uma economia R$ 12 bilhões.

A redução de custos veio acompanhada de uma forte campanha de aumento de receitas. As do BB aumentaram 5,3% no comparativo anual. As da Caixa, foram 8,7% maiores. O movimento resulta em parte da elevação de tarifas cobradas por serviços como anuidade do cartão de crédito e transferências de recursos para outras instituições, também segundo o BC.

E os próprios executivos dos bancos sinalizaram que essa tendência deve seguir adiante, enquanto buscam tornar os balanços menos dependentes de crédito, que exige maior alocação de capital.

"Nosso objetivo é ampliar as fontes de receitas do banco para que, nos próximos anos o crédito tenha uma participação percentual menor no resultado", disse o presidente do BB, Marcelo Labuto, a jornalistas durante apresentação sobre os resultados do terceiro trimestre no início do mês. 

Reviravolta

O objetivo final desse conjunto de medidas, de tornar as instituições mais rentáveis, mostra o resultado da virada dramática da orientação do controlador, que há cerca de uma década vinha induzindo os bancos públicos a acelerar o crédito para tentar animar uma economia em franca desaceleração.

Como resultado, os bancos viram a rentabilidade erodir, sobretudo como efeito do aumento dos calotes, diante dos efeitos da recessão que incluíram milhares de falências e milhões de desempregados.

Mais recentemente, a meta dos chefes dos bancos públicos é alcançar níveis de rentabilidade similares aos dos rivais privados. O chamado retorno sobre o patrimônio líquido da Caixa quase dobrou em um ano, chegando a 18% em 2018, patamar próximo ao do Bradesco.

"A verdade é que banco público ter lucro é tão importante quanto para qualquer outra empresa", disse o vice-presidente de finanças da Caixa, Arno Meyer, na semana passada.

(Edição Alberto Alerigi Jr.)

Economia