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Análise: Companhias aéreas da América Latina torcem por resgates para evitar mesmo destino da Avianca

Marcelo Rochabrun

13/05/2020 09h20

SÃO PAULO (Reuters) - A Avianca Holdings sabia desde o final de março que o caixa da companhia aérea cobriria apenas alguns meses de despesas, uma vez que toda a sua frota estava estacionada em razão de medidas rigorosas de confinamento.

Nessas condições, o pedido de recuperação judicial da empresa no domingo não foi uma surpresa. O que foi surpreendente foi a ausência de uma das partes interessada: a Colômbia.

Isso contrasta fortemente com países como a França, a Alemanha e os Estados Unidos, que desde o início da crise priorizaram suas indústrias aéreas. Se a Avianca falir, 20 mil empregos, a maioria na Colômbia, estarão em risco.

Mas a atitude de não interferência da Colômbia, que apenas deu sinais de mudança esta semana, não foi uma exceção entre os governos da região, que, em sua maioria, ignoraram o clamor do setor por resgates.

Em público, a Latam Airlines, a Gol, a Aeromexico e a Avianca dizem estar ativamente negociando pacotes de ajuda governamentais. Mas nos bastidores há uma preocupação crescente sobre quando os resultados podem se materializar e se não será tarde demais.

"Não está vindo depressa o suficiente", disse uma fonte de uma companhia aérea, que pediu anonimato para não afetar as negociações da empresa.

Os números da própria Avianca mostram um quadro sombrio para uma companhia aérea que até recentemente era promissora o bastante para a United Airlines querer uma estreita relação comercial. A Avianca vale agora 17 milhões de dólares, 0,02 dólar por ação.

No final de março, após uma semana de paralisação, a Avianca tinha 304 milhões de dólares de caixa disponível, quase sem dinheiro entrando e com despesas crescentes. Em maio, a empresa já havia utilizado mais de metade desse dinheiro apenas para pagar dois meses de salários e liquidar uma dívida.

À medida que o vencimento das dívidas se aproximava, o presidente-executivo, Anko van der Werff, divulgou publicamente a situação da Avianca. Mas foi tudo em vão.

"Na América Latina, não vimos tanta ajuda (governamental) como em outras regiões", disse Gonzalo Yelpo, diretor jurídico da ALTA, um grupo do setor aéreo.Analistas alertaram que a crise pode ser particularmente perigosa para as companhias aéreas da região, que tiveram prejuízos nos últimos anos. A ALTA alertou para uma "pandemia de falências".

"O ponto de partida é pior para as companhias aéreas latino-americanas", afirmou Maurício França, da L.E.K Consulting, que estima que as companhias aéreas brasileiras perderam 11 bilhões de reais entre 2014 e o terceiro trimestre de 2019.

A recuperação judicial da Avianca pode começar a mudar a maré, mas não está claro a que velocidade.

Na segunda-feira, a Colômbia disse que iria considerar a possibilidade de conceder empréstimos para resgatar a Avianca. Na terça-feira, o Peru disse que estava considerando a possibilidade de ajudar as aéreas. Mas isso chega tarde demais para a Avianca, que está encerrando suas operações no Peru e demitindo mil funcionários.

No Brasil, há semanas que as companhias aéreas estão num impasse nas negociações de empréstimos. O Chile afirmou que a "ajuda direta" não estava disponível para a Latam.

Na Argentina e no México, os governos de esquerda sinalizaram que não vão salvar grandes empresas, embora os contribuintes sejam diretamente donos da Aerolíneas Argentinas, complicando a equação.

PARALISAÇÃO AÉREA

A Avianca enfrentou um perfeito conjunto de complicações com sua sede na Colômbia e centros em El Salvador, Equador e Peru. Estes quatro países interromperam todas as viagens aéreas comerciais, dizendo que os seus fracos sistemas de saúde exigiam medidas extremas. Mas isso imobilizou a Avianca.

A rival mais próxima da Avianca, a Latam, não sofreu tanto porque ainda pode voar no Chile e no Brasil, os seus principais mercados.

Agora, a Avianca, que tinha concordado em comprar mais de 100 jatos Airbus antes de 2029, enfrenta um íngreme caminho de recuperação. A companhia concorda que não precisa e nem pode pagar por esses aviões.

No curto prazo, a Avianca diz esperar que as suas despesas ultrapassem significativamente suas receitas, sinalizando que "poderá precisar de uma nova e substancial injeção de capital".

A Copa Holdings, do Panamá, igualmente imobilizada sem nenhum lugar para voar, é cerca de um terço menor que a Avianca e disse estar queimando 85 milhões de dólares por mês. Mesmo a esse ritmo, a Avianca teria dinheiro para menos de quatro meses no total. Já se passaram quase dois meses.

Mas ainda pior, a pandemia de coronavírus está numa fase mais precoce na América Latina do que nos Estados Unidos, na Europa ou na Ásia, o que adia as previsões de reabertura.

"A paralisação na América Latina foi, de certa forma, mais rígida e mais forte", afirmou uma fonte da indústria, "e agora há uma maior relutância em reabrir os mercados."

(Reportagem de Marcelo Rochabrun em São Paulo; reportagem adicional de Marco Aquino em Lima, Carlos Vargas em Bogotá e Anthony Esposito na Cidade do México)